empresas de energia buscam lucro com crédito de carbonovoltar

14/11/2007
Eletrobrás prepara oferta de 2,7 milhões de toneladas para o próximo ano. A estatal do setor elétrico Eletrobrás vai entrar firme no mercado de créditos de carbono. A empresa prepara para os próximos meses uma oferta de créditos correspondentes a 2,7 milhões de toneladas de gases de efeito estufa que deixaram de ser lançados na atmosfera, referentes aos 138 projetos de energia limpa do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa). A iniciativa vem no rastro do sucesso do leilão de créditos de carbono feito pela Prefeitura de São Paulo na BM&F em setembro. Na ocasião, a prefeitura conseguiu arrecadar R$ 34 milhões com a oferta de 808 mil toneladas de carbono. Os créditos foram arrematados a 16,20 a tonelada pelo banco holandês Fortis Bank. A disputa atraiu grupos do porte de ABN Amro, Goldman Sachs e Merril Lynch. No caso da Eletrobrás, os créditos seriam provenientes da quantidade de gases poluentes que deixaram de ser emitidos nos processos de geração de energia elétrica usando fontes como biomassa (queima do bagaço da cana), eólica (ventos) e em pequenas centrais hidrelétricas. “Somando os projetos, são cerca de 3.200 MW produzidos com baixa emissão de carbono, o que nos habilita a ofertar esses créditos no mercado”, diz Sebastião Florentino da Silva, coordenador-geral do Proinfa. A empresa deve definir em breve como venderá os créditos, mas deverá fazer a oferta em três ou quatro lotes. “Estamos analisando a hipótese de fazer um leilão em bolsa, pois é um modo mais transparente de acessar esse mercado”, diz. O preço alcançado no leilão realizado na BM&F, em setembro, de 16 a tonelada, encorajou a empresa a acelerar a oferta. A oferta da Eletrobrás será uma das maiores já realizadas desde que o mercado de créditos de carbono começou a vigorar, após a ratificação do Protocolo de Kyoto, em fevereiro de 2005, e deve render à estatal cerca de R$ 130 milhões. POTENCIAL O leilão realizado na BM&F demonstrou a viabilidade financeira desse mercado, que, segundo estimativas do BNDES, tem potencial para movimentar US$ 1,2 bilhão até 2012 no Brasil. E as empresas de energia estão descobrindo que podem obter lucros com esse mercado. A CPFL Geração, empresa do grupo CPFL Energia, realizou no mês passado uma venda de créditos referentes a 30,5 mil toneladas de CO2 não emitido para a SSE Energy Suplly Limited, empresa escocesa de energia. Com o negócio, embolsou R$ 1,13 milhão. Os créditos negociados referem-se a atualizações feitas em sete pequenas centrais hidrelétricas no interior de São Paulo. “Com isso, conseguimos tornar as usinas 40% mais produtivas, sem novas áreas alagadas e sem danos ao meio ambiente”, diz Wilson Ferreira Junior, presidente da CPFL Energia. A venda animou a empresa, que está preparando três novas ofertas. Uma delas será de créditos referentes a 134 mil toneladas de carbono da Usina de Monte Claro, em Veranópolis (RS). Nesse caso, o critério adotado para se pleitear os créditos de carbono é a relação potência/área alagada. Quanto mais produtiva a usina, mais apta está a ofertar créditos no mercado. “Não tenho dúvidas de que o mercado de carbono está se consolidando”, diz Ferreira. De olho nesse mercado, a AES Tietê, que tem 10 usinas no interior de São Paulo, desenvolveu uma metodologia para oferecer créditos no mercado internacional com base em um programa de reflorestamento de matas ciliares. O projeto, aprovado pela ONU, permitirá à AES Tietê reflorestar com espécies nativas cerca de 5,7 mil km de bordas de reservatórios (cerca de 10 mil hectares) no entorno de suas hidrelétricas. Com o aval da ONU, a empresa se prepara para fazer as primeiras ofertas. Se atingir a meta de reflorestar os 10 mil hectares previstos, a empresa terá cacife para ofertar créditos referentes a nada menos que 3 milhões de toneladas de carbono, “seqüestrado” pelas árvores. “Desse total, já reflorestamos 1.450 hectares, o que nos habilita a fazer a primeira oferta já no ano que vem”, diz Demóstenes Barbosa da Silva, diretor de gestão ambiental e créditos de carbono da AES Brasil. “O mercado de carbono é um meio de frear as mudanças climáticas sem retrair a economia dos países em desenvolvimento.” MERCADO DE CARBONO Protocolo de Kyoto: Segundo o acordo global de combate às mudanças climáticas, os países ricos podem compensar parte de sua poluição comprando créditos de carbono dos países sem metas de redução de suas emissões, caso do Brasil, China e Índia Negociação: Os créditos de carbono são títulos negociados no mercado internacional Projetos: Para operar nesse mercado, as empresas devem formular projetos de desenvolvimento limpo, que retiram carbono da atmosfera, como reflorestamento e energias limpas. Os projetos são submetidos à aprovação da ONU

Fonte: O Estado de S.Paulo, 14/11/07