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17/07/2017
Mercado vê China mais aberta a importações de commodities agrícolas

 

 

Brasil e outros produtos como Estados Unidos e Tailândia podem se beneficiar de mudanças, dizem analistas.


Diversas mudanças em regras para o setor agrícola da China vêm forçando o país a aumentar suas importações de grãos e outras commodities, o que deve beneficiar o setor produtivo em países como Brasil, Estados Unidos e Tailândia, dizem analistas.
Nos últimos três anos, a China aboliu o preço mínimo ao produtor para produtos como algodão, soja, milho e açúcar, o que resultou em menor produção doméstica dessas commodities. Em 2016, a produção de grãos caiu pela primeira vez em 13 anos, enquanto a produção de açúcar e algodão diminuiu mais de 25% nos últimos três anos.
O efeito dessas quedas tem sido mascarado pelo governo chinês por meio das vendas de seus estoques internos. Mas essas reservas estatais vão se esgotar eventualmente, o que deve impulsionar a demanda chinesa por commodities de outros países.
A produção do país deve crescer menos do que a demanda, disse Andrzej Kwiecinski, analista sênior de política agrícola da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O país importaria mais grãos para ração, mais animais de corte e, eventualmente, mais frutas e vegetais, já que os crescentes custos trabalhistas tornam a China menos competitiva, disse Kwiecinski.
A política de suporte aos preços e de estocagem que a China está revisando foi introduzida no início dos anos 2000, para melhorar a situação dos agricultores locais, garantir a produção de commodities consideradas importantes e promover uma maior segurança alimentar. O preço mínimo era elevado anualmente para estimular a produção mesmo quando os preços globais recuavam. Ao mesmo tempo, os estoques do governo representavam demanda adicional.
Entretanto, em meados de 2014 o governo começou a enfrentar desafios, já que armazéns e silos estavam lotados e os preços domésticos eram bastante superiores aos praticados nos mercados internacionais. Mesmo assim, a China não conseguia atender à demanda interna.
A autossuficiência alimentar da China, que tem cerca de um quinto da população mundial e 10% das terras cultiváveis, ainda é uma prioridade para Pequim, sobretudo em produtos básicos como arroz e trigo. A política agrícola para outros produtos, no entanto, começou a mudar em 2014.
Em anúncio naquele ano, o governo disse que a China precisava usar de forma mais racional os mercados agrícolas internacionais e estabelecer relações comerciais estáveis e confiáveis, acolhendo mais importações.
Fim do preço mínimo

Os primeiros preços mínimos a serem descartados, de forma experimental, foram os de soja e de algodão, em 2014. O reação no mercado foi imediata. Os preços futuros de algodão no mercado interno recuaram 30% em 2014, enquanto a produção diminuiu em 8% na safra 2014/15.
Já os preços da soja no atacado recuaram 11% e a produção, 1,5% nos dois anos seguintes, à medida que agricultores migraram para o milho - que ainda tinha preço mínimo.
As importações chinesas de soja saltaram 29% desde que o país retirou o preço mínimo ao produtor. Com isso, os preços globais da commodity avançaram 5% em 2016.
O governo também parou de estocar açúcar, o que fez os preços domésticos recuarem 9%. Como resultado, a produção diminuiu quase 20% na temporada seguinte. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima que as importações chinesas, tanto legais quanto ilegais, avançaram 18% para preencher esse déficit.
No ano passado, o governo disse que não iria mais garantir o preço mínimo do milho. Com isso, os preços domésticos do grão ficaram 44% abaixo do pico de 2015. O Ministério da Agricultura da China acredita que a produção vai cair mais de 2,3% no ciclo que termina em 30 de setembro, e outros 3,6% na temporada seguinte.
"Isso teve um efeito cascata nas commodities: primeiro o algodão, a soja e o açúcar; depois a colza e agora o milho", disse Fred Gale, economista do USDA especialista em China e comércio internacional. "Os esforços da China para estabilizar seus mercados domésticos contribuíram para a volatilidade no mercado internacional."
O impacto no mercado pode ser ainda maior com a redução dos estoques chineses e o aumento das importações. A China detém atualmente 54% das reservas mundiais de algodão, 45% dos estoques de milho e 22% do açúcar, de acordo com estimativas do USDA. Analistas acreditam que boa parte dos produtos está se deteriorando após anos armazenados em silos e galpões.
As reservas de açúcar podem ser reduzidas rapidamente, tendo em vista que o consumo chinês estimado para este ano e o próximo deve superar em 4,2 milhões de toneladas a produção doméstica e as importações. A diminuição dos estoques de milho deve levar mais tempo, já que a produção e a demanda estão equilibradas.
A China ainda gasta muito para dar suporte aos agricultores do país. Em 2016, o governo injetou US$ 246,9 bilhões no setor agrícola, o equivalente a 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com os dados mais recentes da OCDE.
A parcela ainda é inferior aos 2,5% do PIB registrados em 2015, mas representa quatro vezes a média de países da OCDE. Boa parte desse montante vai para a política de preço mínimo para o arroz e o trigo, mas uma parcela cada vez maior está sendo direcionada para consolidação de terras, mecanização e pesquisa e desenvolvimento para melhorar a produtividade.
O governo ainda pode frear importações, como fez com açúcar e algodão, ou reverter mudanças que se revelem muito difíceis. Ainda assim, muitos observadores acreditam que houve mudanças, com maior aceitação de uma oferta global.
"Não acho que a China possa ser autossuficiente nos produtos que ela escolheu inicialmente", disse John Phelan, economista-chefe da Agrimoney. "Acho que eles reconheceram isso. Eles terão de recorrer a fornecedores externos para alguns desses produtos" (Dow Jones Newswires, 14/7/17)

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