Temer anuncia força-tarefa para auditar frigoríficos alvos da Carne Fracavoltar

20/03/2017
Temer anuncia força-tarefa para auditar frigoríficos alvos da Carne Fraca

 

 Presidente fez anuncio durante reunião com embaixadores no Palácio do Planalto. No discurso, Temer chamou diplomatas para jantar em uma churrascaria em Brasília.

 O presidente Michel Temer anunciou neste domingo (19), durante reunião com embaixadores de países que importam a carne brasileira, que haverá uma "força-tarefa" para fiscalizar os frigoríficos alvos da operação Carne Fraca.

No pronunciamento, Temer também chamou os diplomatas para jantar em uma churrascaria em Brasília.
No restaurante, Temer afirmou não ter visto exageros na atuação da Polícia Federal durante a operação Carne Fraca. O presidente afirmou ainda que ouviu dos embaixadores convidados que transmitiriam “tranquilidade em relação ao consumo da carne brasileira”. Depois do jantar, Temer foi questionado sobre a qualidade da carne e disse que estava muito “boa” e que todos “se deliciaram”.
Deflagrada na sexta-feira (17) pela Polícia Federal, a operação investigou o envolvimento de fiscais do ministério em um esquema de liberação de licenças e fiscalização irregular de frigoríficos.
Foi descoberto que funcionários de superintêndencias regionais recebiam propina para facilitar a produção de alimentos adulterados, emitindo certificados sanitários sem fiscalização.
"Quero fazer um comunicado aos senhores que, naturalmente, peço que transmitam aos seus governantes. Nós tomamos várias deliberações no dia de hoje. A primeira delas é que decidiu-se acelerar o processo de auditoria nos estabelecimentos citados na investigação da Polícia Federal que são, na verdade, 21 unidades no total. Três dessas unidades foram suspensas e todas as 21 serão imediatamente colocadas sob regime especial de fiscalização a ser conduzida por força-tarefa do Ministério da Agricultura", declarou o presidente aos embaixadores.
Seis das 21 unidades exportaram nos últimos 60 dias, afirmou o presidente, sem dizer os países para os quais se deu a exportação.
Ao longo deste domingo, o presidente teve uma série de reuniões com o objetivo de discutir medidas para enfrentar a crise gerada pelas revelações da operação Carne Fraca.
Temer recebeu, por exemplo, os ministros da Agricultura, Blairo Maggi, e da Indústria e Comércio Exterior, Marcos Pereira, além de representantes de associações como a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).
Michel Temer anuncia medidas após fraudes reveladas pela operação Carne Fraca
Medidas
Após o pronunciamento do presidente, a assessoria do Planalto divulgou uma nota na qual informou que, além da força-tarefa, o governo também decidiu reiterar às missões estrangeiras que "todas as plantas exportadoras permanecem abertas às inspeções dos países importadores" e que o sistema de controle nacional é um dos "mais respeitados do mundo".
O Planalto também diz, na nota, que vai reforçar a cooperação entre o Ministério da Agricultura e a Polícia Federal para apurar eventuais desvios no sistema de defesa agropecuária.
O pronunciamento
Em uma fala que durou cerca de dez minutos, o presidente disser ser "importante e fundamental" receber os embaixadores dos países que importam a carne brasileira para que o governo pudesse apresentar as explicações sobre a operação.
Ao se dirigir aos diplomatas, Temer afirmou que "a maneira como se deu a notícia" sobre as investigações, "pode ter criado uma preocupação muito grande" – pouco antes de entrar para a reunião, o embaixador da União Europeia no Brasil, João Gomes Cravinho, chegou a dizer que a situação "preocupa".
Em seguida, o presidente destacou que, dos 11 mil funcionários do Ministério da Agricultura, "apenas" 33 estão sendo investigados por envolvimento no esquema.
"Não é o sistema de defesa agropecuária que está sendo investigado, mas alguns poucos desvios, de alguns poucos funcionários, de algumas poucas empresas. Todas as plantas exportadoras permanecem abertas às inspeções dos países exportadores e ao acompanhamento do sistema nacional de controle, que é um dos mais respeitados do mundo", acrescentou.
Temer também ressaltou que há no país atualmente 4.837 unidades sujeitas a inspeção federal e, dessas, "apenas" 21 estão envolvidas na operação Carne Fraca. Aos diplomatas, o presidente disse, ainda, que a partir desta segunda, o Ministério da Agricultura informará quais países receberam os produtos e a origem por empresa (G1, 20/3/17)

'Operação criou discurso irresponsável' sobre carne

Ex-ministro da Agricultura e presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), que representa produtores e exportadores de carne suína e de frango, Francisco Sérgio Turra afirma que a repercussão da Operação Carne Fraca, deflagrada na sexta (17) pela Polícia Federal, foi "exagerada" e deu a impressão de que a carne brasileira é toda fraudada.
"Foi muito forte esse discurso irresponsável, fruto de um levantamento ainda incompleto da própria operação [da Polícia Federal]", afirmou em entrevista à Folha.
Segundo ele, os produtores brasileiros mantêm padrões de qualidade elevados e as falhas identificadas pelas autoridades não pegam 0,5% do setor. Para Turra, os empresários brasileiros terão trabalho, mas será possível reverter o dano de imagem.
*
Folha - Há risco de enfrentarmos um problema de segurança alimentar?
Francisco Sérgio Turra - Não. Ao contrário, o Brasil está preparado para ser uma reserva de alimentos para o mundo. Estamos nos capacitando cada vez mais.
A operação colocou em dúvida a qualidade da carne produzida no Brasil. Como o setor planeja reagir?
O que tem de haver é um forte esclarecimento à população. Temos 99,5% do setor absolutamente em dia, oferecendo produtos saudáveis, dentro do padrão de conformidade aqui e lá fora. Nem 0,5% tem falhas.
As falhas detectadas pela operação precisam ser abolidas, os agentes envolvidos, punidos. Não é toda uma marca que está em jogo, não é toda uma empresa que está em jogo. São exceções pontuais envolvendo algumas marcas.
Não dá para a gente generalizar e vender a imagem de que tudo é ruim, de que tudo é corrupto, corrompido e corruptível. Para abrir mercado lá fora, a média tem sido de quase dez anos de luta. A maior injustiça do mundo é jogar na lata do lixo todo esse trabalho, denegrindo o esforço de muitos durante décadas.
A Polícia Federal identificou empresas oferecendo vantagens para afrouxar a fiscalização. Temos um problema no sistema de controle do país?
Há agentes do Ministério da Agricultura cumprindo seu dever e eles são a absoluta maioria. A imagem do Brasil, da proteína brasileira, é impecável lá fora. Temos 36% de toda a exportação mundial de frango. Exportamos carne suína para vários países.
Somos os maiores exportadores de carne bovina. É um absurdo nivelar tudo, generalizar, vender a ideia de que no Brasil nada presta, de que tudo é podridão, é errado, nada está na conformidade da lei. Quando é justamente ao contrário: somos o país que tem a melhor biosseguridade.
O que dá a certeza de que o sistema de inspeção funciona?
Além da proteção da nossa inspeção, somos submetidos à inspeção de vários outros técnicos de países importadores que vêm vistoriar o país continuamente. Esses acontecimentos atuais nos farão aprimorar ainda mais o nosso sistema de vigilância.
O senhor acredita que o estrago já tenha sido feito diante da repercussão da operação?
Os mercados lá fora questionarão e exigirão os esclarecimentos, mas acredito que estarão conosco tal é o conceito que o Brasil tem no exterior. Por exemplo: nós exportamos frango para o Japão e para a União Europeia e os americanos não conseguem entrar nesses mercados.
Vejo que o estrago está feito no sentido de que a imagem está arranhada e o mercado interno está cheio de dúvidas. Mas o fundamento nosso e a credibilidade se baseiam nas missões técnicas internacionais que vêm aqui, nos projetos de imagem, de trazer jornalistas de fora para conhecer nosso sistema e a cadeia toda.
No Brasil, para uma empresa se adequar à legislação, ela tem de cumprir a legislação ambiental, o codex alimentarius [conjunto de regras internacionais para produção de alimentos e segurança alimentar], estar em conformidade com todos os preceitos.
A PF investiga a BRF e JBS, mas a maior parte dos alvos são empresas de menor porte. A ABPA, em conjunto com a Abiec (produtores de carnes), já mapeou a fatia de mercado desses frigoríficos menores?
Na BRF e na JBS [donas das marcas Friboi e Sadia, respectivamente], trata-se de casos isolados. Não é a marca ou a empresa que falhou e praticou irregularidades. São agentes privados e públicos numa conivência criminosa, mas é algo bem pontual.
É uma amostra pequena, de uma ou outra unidade. A JBS tem 120 unidades no Brasil. A BRF tem 35. Aconteceu algum deslize e irregularidade em dois estabelecimentos aqui e um ali. Ou seja, é uma amostra muito pequena, um universo muito restrito dentro dessas empresas. Não se deveria macular a imagem delas. Matematicamente, é um absurdo condenar uma marca por isso.
No caso dos menores, a expressão é pequena. Não fizemos ainda esse mapeamento, mas diria diria com certeza que todos juntos têm fração extremamente pequena do mercado doméstico.
O Ministério da Agricultura trabalha com funcionários cedidos pelos frigoríficos. É regulamentado, mas não é um claro conflito de interesses?
Essa prática acontecia em maior escala no passado. Hoje já é até menor graças à luta toda. É uma prática que realmente não é bem-vista na União Europeia e em muitos mercados. Mas acontece, porque, para poder funcionar [a fiscalização], principalmente em regiões mais distantes, as empresas e os frigoríficos tiveram de ceder funcionários ao governo. Na ABPA, batemos muito na tecla da necessidade de ampliar o número de concursos para ficar menos promíscua essa relação.
O embaixador da União Europeia no Brasil falou da possibilidade de o bloco impor restrições à importação de carne. O setor deve sofrer sanções?
Acredito que a gente tenha argumentos sólidos para fazer com que isso não venha a acontecer. Mas é tão grande a generalização feita aqui no Brasil que atenta contra isso. Foi algo exagerado, dando a impressão de que carne brasileira é toda fraudada, nada é confiável. Foi muito forte esse discurso irresponsável, fruto de um levantamento ainda incompleto da própria operação [da Polícia Federal].
A operação é positiva. Nada contra ela, mas, na medida em que você deixa no ar algumas coisas, abre espaço para cada um tirar uma conclusão. Por isso, deveria haver um resultado rápido sobre quem errou e qual foi a prática e então punir os que estão envolvidos.
Qual o impacto para o Brasil caso a União Europeia decida restringir a importação?
Não é apenas o mercado europeu. É o efeito sobre os outros. A UE é referência. Nós exportamos para muitos países porque exportamos para a UE, que é um mercado exigente. Tem país que nem veio visitar o Brasil, mas você, se exporta para a União Europeia, eles dizem que então vão autorizar as mesmas unidades habilitadas pelos europeus.
Se tudo for posto agora e esclarecido agora, a sangria será muito menor e os esclarecimentos serão facilmente absorvidos. Quanto mais demorarmos para reagir, se esperarmos passivamente, mais prejuízo teremos. Temos de ser rápidos.
Os outros países produtores podem usar esse momento para bloquear a carne do Brasil ou tentar reduzir preços nas negociações?
Não acredito. Tenho segurança de que não vai haver retaliações. Dará trabalho, mas vamos reverter essa situação criada. [O estrago inicial] foi fruto de desinformação e de um equívoco.
Os encontros de hoje [domingo, 19] em Brasília mostraram que os representantes dos países que participaram da reunião com o presidente Michel Temer vão passar uma impressão de tranquilidade para seus países (Folha de S.Paulo, 20/3/17)

A carne continuará fraca – Por Bernardo Mello Franco

Não é só a carne que está podre. A nova ofensiva da PF expôs o grau de decomposição avançada das relações entre o dinheiro, a política e os órgãos que deveriam proteger o consumidor no Brasil.
A operação Carne Fraca flagrou práticas de embrulhar o estômago: reembalagem de comida estragada, uso de substâncias cancerígenas para maquiar produtos vencidos, mistura de papelão nas salsichas.
Tudo era permitido graças à promiscuidade entre frigoríficos e funcionários do Ministério da Agricultura. A bancada ruralista é quem dá as ordens na pasta. Deputados nomeiam e demitem fiscais, travam ações sanitárias e fazem pressão para afrouxar o controle das mercadorias.
Um dos grampos fisgou a intimidade entre o novo ministro da Justiça, Osmar Serraglio, e o fiscal apontado como "líder da organização criminosa". Na ligação, o peemedebista chama o funcionário suspeito de corrupção de "grande chefe".
Há poucos meses, ele prestava a mesma reverência a Eduardo Cunha. Chegou a defender que o amigo fosse anistiado pelas acusações que o levaram à cadeia em Curitiba.
Se a fiscalização é fraca, a ligação entre frigoríficos e política é fortíssima. Em 2014, o setor despejou quase R$ 400 milhões em campanhas. O grosso do dinheiro foi fatiado como um bife entre PT, PMDB e PSDB.
A investigada JBS, que controla as marcas Friboi e Seara, aparece como a maior financiadora de Serraglio. A empresa também abriu os cofres para os comitês de Dilma Rousseff e Aécio Neves. O recado era claro: queria continuar bem com o governo, seja quem fosse o presidente eleito.
O escândalo deve produzir mais um forte abalo na economia. Os frigoríficos empregam milhares e o Brasil se tornou o maior exportador do mundo no setor. Nada disso, é claro, pode servir como desculpa para salvar corruptos. Além de punir os culpados, é preciso reforçar os controles para que o caso não se repita. Afinal, a carne continuará fraca (Folha de S.Paulo, 19/3/17)

Carne podre, carne fraca - Por Eliane Cantanhêde

Quando a política e a Lava Jato pegavam fogo, a surpresa foi 2017 abrir já no primeiro dia com os massacres em prisões, que começaram com decapitações em Manaus e contaminaram Boa Vista e Natal, com cerca de 125 mortes no total, chamando a atenção para um descalabro nacional e mostrando ao mundo o lado das trevas numa das dez maiores economias do planeta.
Quando o pacote do procurador Rodrigo Janot foi entregue ao Supremo Tribunal Federal e passaram a vazar as listas dos ilustres citados nos 83 pedidos de abertura de inquérito para os que têm foro privilegiado e mais 211 para quem não têm, a semana terminou com a operação “Carne Fraca”, sobre as carnes podres que comemos e a carne fraca de corruptos insaciáveis.
Quando inflação e juros caem, o leilão de quatro aeroportos é um sucesso e a The Economist prevê que o pior da crise passou, cabeças de porco, ácidos e papelões em mortadelas e linguiças pioram ainda mais a imagem do Brasil e jogam um ponto de interrogação nas exportações de carne brasileira. O País é o campeão de vendas do produto. EUA e União Europeia já exigem explicações.
Quando o Planalto e o País comemoram a reversão de expectativa no emprego, com o fim da sangria e o saldo positivo na criação de vagas depois de 22 dois meses de horror, as revelações sobre os frigoríficos chacoalham também o mercado interno, e a agropecuária é importantíssima para o PIB e para a geração de empregos.
Quando o presidente Michel Temer começa a falar em ganhar alguma popularidade e já se assanha para incluir a questão tributária no pacote de reformas, a citação de seis ministros e as cúpulas do Congresso e dos partidos na Lava Jato joga o foco do Congresso na reforma política e tira da reforma da Previdência, vital para investimentos, credibilidade e destino da transição.
Quando os governos do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul e de todos os demais, em fila, tentam desesperadamente negociar acordos com Brasília e enxugar as contas, eis que aquele velho, insidioso, cruel e sarcástico inimigo público, o Aedes aegypti, anti-herói da ruína, sai matando por aí. As filas de vacinas para febre amarela conseguem superar as de emprego. Oswaldo Cruz e Emílio Ribas devem estar se remoendo no túmulo.
É assim que vivemos todos numa montanha russa que atravessa de boas a más notícias em velocidade estonteante, sem sossego, sem tempo para respirar. Temer comemora juros e inflação num dia e sofre a queda de ministro no outro; o aparente fim da sangria dos empregos num dia, seis ministros na “lista do Janot” no outro; o leilão de aeroportos num dia, o desmascaramento dos frigoríficos no outro; uma vitória no Congresso num dia, o recuo na reforma da Previdência no outro; uma manchete internacional positiva num dia, várias negativas no outro.
Mas o pior é a população brasileira, que acumula e sofre com uma epidemia de corrupção, 13 milhões de desempregados no setor privado e o empreguismo deslavado no público, Estados falidos e irresponsáveis, febre amarela, zika, chikungunya e dengue, antes o leite de idosos e crianças temperado com água sanitária, agora carne podre, linguiças nojentas e mortadelas assassinas. Sem contar nas muitas dúvidas sobre o excesso de agrotóxicos.
Está difícil viver, trabalhar, estudar, comer e respirar o ar contaminado da corrupção, da falta de fiscalização e da pior doença brasileira: a impunidade. Mas a boa notícia é exatamente essa: nunca antes na história deste País tanto descalabro foi exposto à sociedade, tanta gente foi desmascarada por instituições antes passivas e hoje na linha de frente da reconstrução nacional. Implodir para construir (O Estado de S.Paulo, 19/3/17)

Escândalo da carne impacta indústria no Brasil e ameaça exportações

O status do Brasil como exportador de produtos de carne de qualidade passou a ser ameaçado nesta sexta-feira depois que a Polícia Federal revelou um esquema de propina que identificou casos que permitiram a comercialização de alimentos estragados e maquiados por insumos como papelão e produtos químicos.
A operação Carne Fraca, a maior já realizada pela Polícia Federal, identificou uma organização criminosa liderada por fiscais agropecuários federais e cerca de 40 empresas. A PF citou entre as empresas as gigantes JBS e BRF e outras como Peccin Agro Industrial.
"Nunca vimos nada parecido antes no setor. Em termos de escândalo, nunca aconteceu nada semelhante. É a primeira vez que se identifica e se dá nome às pessoas. Isso é horripilante", disse Alex Lopes da Silva, analista especializado no mercado pecuário da Scot Consultoria.
"É uma denúncia bastante grave. Tem órgãos federais de fiscalização sendo corrompidos, isso abre muita possibilidade para o Brasil sofrer algum tipo de impacto... Mancha todo um sistema que o Brasil está construindo há anos de que tem um processo de produto bem feito", afirmou Silva.
O Brasil começou a exportar carne para a Europa no início dos anos 2000 e apenas no ano passado conseguiu aprovação para embarcar carne bovina in natura aos Estados Unidos, um dos mercados mais exigentes do mundo em termos de qualidade de produtos alimentícios.
As exportações de carnes do Brasil (bovina, suína e de frango) subiram de cerca de 2 bilhões de dólares em 2000 para aproximadamente 14 bilhões de dólares no ano passado.
O analista de pecuária do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, Sérgio De Zen, foi na mesma linha, apostando que o escândalo poderá ser aproveitado para imposição de dificuldades às exportações brasileiras de carne.
"Vai ter países aproveitando? Vai. Mas o impacto disso não vai ser tão grande como seria se eles descobrissem lá fora o problema. Quem está apontando o problema é o Brasil", disse De Zen.
Na avaliação de De Zen, eventuais embargos externos à carne brasileira deverão ser por curto espaço de tempo. Ele lembrou que importantes importadores, como europeus e russos, mandam missões próprias para fiscalizar o sistema sanitário do Brasil, o que faz com que grandes unidades exportadoras eventualmente fiquem menos sujeitas a sofrer embargos.
"O importador mais exigente geralmente manda fiscalização aqui, ele não aceita qualquer coisa, ele fiscaliza antes de começar a importação, é um processo diferenciado", acrescentou, defendendo uma reformulação do sistema de fiscalização sanitária do Brasil e a criação de uma agência independente de fiscalização.
Além do impacto para o setor carnes, a operação da PF poderá ter repercussões nos preços dos grãos, afirmou o presidente da AEB, associação que reúne os exportadores brasileiros, José Augusto Castro.
Segundo ele, produtos como milho e soja, com forte presença na pauta exportadora brasileira, devem ter uma redução de preços no mercado global, na avaliação do dirigente.
"Se o Brasil reduzir a quantidade (de carne) exportada, principalmente o frango que consome muita ração, vamos deixar de transformar soja e milho em farelo; vai ter que colocar isso no mercado externo e com oferta maior isso pode derrubar o preço (dos grãos)".
As ações de JBS e BRF despencaram nesta sexta-feira e lideraram as perdas do Ibovespa. A JBS afundou 10,59 por cento, maior queda desde outubro de 2016. BRF desabou 7,25 por cento, pior desempenho desde fevereiro. Também do setor, Marfrig; e Minerva, caíram cerca de 2 por cento cada.
A BRF informou em comunicado ao mercado que "cumpre as normas e regulamentos referentes à produção e comercialização de seus produtos, possui rigorosos processos e controles e não compactua com práticas ilícitas. A BRF assegura a qualidade e a segurança de seus produtos e garante que não há nenhum risco para seus consumidores, seja no Brasil ou nos mais de 150 países em que atua".
Já a JBS afirmou também em comunicado divulgado mais cedo que a empresa e suas subsidiárias "atuam em absoluto cumprimento de todas as normas regulatórias em relação à produção e à comercialização de alimentos no país e no exterior e apoia as ações que visam punir o descumprimento de tais normas". A empresa divulgou um novo comunicado na noite desta sexta-feira, afirmando que "nenhuma fábrica da JBS foi interditada (...) A JBS não compactua com desvios de conduta e tomará todas as medidas cabíveis".
Ligações feitas pela Reuters à Peccin não foram atendidas.
NO BRASIL
Internamente, as empresas denunciadas devem sofrer impactos importantes sobre suas marcas, com a confiança dos consumidores sendo abalada pela divulgação de gravações em que representantes de frigoríficos conversam sobre inclusão de carne de cabeça de porco em linguiças.
"No segmento alimentar, confiança é algo que vem no inconsciente desde pequeno, dentro da família (...) Se tem desconfiança tão grande com comida, e nessas marcas o problema aparentemente existe, imagina o resgate de confiança que isso não vai demandar", afirmou o professor do curso de Publicidade e Propaganda da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Sérgio Silva, especializado em marcas.
Segundo ele, é difícil precisar o tamanho do impacto financeiro para as empresas do setor gerado pelo escândalo, "mas vai ser gigante".
"O varejista vai se preocupar, tem risco de o varejista querer tirar tudo o que é da marca e fazer o fabricante recomprar. Além dos supermercados, há ainda as cadeias de fast food, restaurantes, tem impacto na cadeia inteira", disse Silva, lembrando de casos como os que atingiram a marca de leite de soja AdeS, hoje da Coca-Cola Femsa, em 2013. Na ocasião, lotes tiveram de ser retirados do mercado, depois que a empresa identificou na bebida produto de limpeza que podia causar queimaduras.
Para Luli Radfahrer, professor-doutor da ECA-USP e ex-diretor de criação de várias grandes agências de publicidade, como AlmapBBDO, a melhor solução para as empresas envolvidas no escândalo seria mudar suas marcas.
"Os eventos são muito gráficos... sujeito que ouviu uma vez na vida, nunca mais vai esquecer e sempre vai associar", afirmou Radfahe, acrescentando que não há propaganda que salve o impacto sobre os produtos.
Assim, como Silva, da FAAP, Radfahrer acredita que há riscos de distribuidores virem a público para dizerem que não aceitam as marcas envolvidas no escândalo em suas prateleiras.
A rede de varejo GPA afirmou em comunicado que os lotes de produtos in natura de fornecedores recebidos em suas centrais de distribuição passam por processos internos próprios de auditoria e que "qualquer tipo de irregularidade, se identificada, resulta na devolução imediata do lote ao fornecedor".
Já o Carrefour comentou que a rede já exigiu esclarecimento aos fabricantes envolvidos nas denúncias e que possui controle rigoroso para seleção e monitoramento de seus fornecedores. O Walmart afirmou que confia plenamente em seus procedimentos internos de segurança dos alimentos e que está cobrando explicações dos fornecedores.
Segundo o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Eumar Novacki, foram interditadas as unidades da BRF em Mineiros (GO) e da Peccin em Jaraguá do Sul (SC) e Curitiba (Reuters, 18/3/17)

 

Ex-ministro vê ‘desastre’ para imagem do País com Operação Carne Fraca

Concorrentes do Brasil no mercado de carnes ficam permanentemente em alerta em busca de uma falha, diz Roberto Rodrigues.
O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, considerou a notícia e o impacto da Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal (PF), capazes de causar um “desastre” e uma “tragédia” para a imagem externa para o Brasil no setor de carnes.
Apesar de considerar precoce qualquer avaliação sobre possíveis embargos à carne brasileira, Rodrigues lembrou que bastou um foco de febre aftosa no Brasil, próximo à fronteira do Paraguai, para, em 2005, 47 países suspenderem o comércio com o País.
“Imagine com essa operação, que é muito mais ampla?”, indagou Rodrigues, que é coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (GV Agro) e colunista do Estado, em entrevista ao Broadcast Agro.
O ex-ministro lembrou que os concorrentes brasileiros no setor ficam permanentemente alerta em busca de uma falha e que a Operação Carne Fraca gera a impressão de que fiscalização de carne exportada pode ser precária. Segundo a PF, técnicos do Ministério da Agricultura faziam parte do esquema de pagamento de propina para a liberação de carne irregular exportada e consumida no mercado interno, principalmente a de frango. “Existe risco latente (de embargo).
Nosso problema no mercado internacional de carne é que há um permanente alerta interno contra possíveis falhas e os concorrentes também ficam permanentemente achando falhas. E uma falha desse tamanho pode gerar reação negativa”, lamentou Rodrigues.
Desconfiança
Para o ex-ministro, o impacto no mercado interno será “de desconfiança do consumidor e sentimento de bagunça generalizada” na fiscalização, o que deve prejudicar o comércio de carnes no País. “Com isso, o produtor, que toma todos os cuidados, que se preparou e arrumou a casa, agora será o mais prejudicado por conta desses problemas na fiscalização e na indústria”, afirmou.
Ainda segundo o ex-ministro, houve um problema com um funcionário do setor da fiscalização durante o período em que esteve no cargo, entre 2003 e 2006, e na ocasião, Rodrigues defendeu a demissão do técnico. “Foi um problema bem menor, mas o fiscal só foi demitido depois de muito tempo, quando eu já nem estava mais no cargo”, concluiu Rodrigues (O Estado de S.Paulo, 18/3/17)

Envolvido no caso Cisco foi indicado por Abilio à BRF

Vice-presidente de integridade corporativa da BRF desfruta de prestígio e tem forte influência nos negócios da gigante de alimentos.
O executivo José Roberto Pernomian Rodrigues, vice-presidente de integridade corporativa da BRF, desfruta de prestígio e tem forte influência nos negócios da gigante de alimentos. Com trânsito livre em órgãos públicos, incluindo o Ministério da Agricultura, Rodrigues chegou a ser convidado a falar sobre ética e compliance na Bolsa de Valores de Nova York. Na oportunidade, falou sobre práticas anticorrupção.
Rodrigues também é o nome de confiança do empresário Abilio Diniz, presidente do conselho de administração da BRF, que defendeu a contratação do executivo em 2013, contrariando uma parte do novo time da companhia, segundo apurou o Estado. Rodrigues teve seu nome envolvido em 2007 na Operação Persona, da Polícia Federal, que investigava a Cisco.
A reputação de Rodrigues sofreu um abalo. Seu nome foi ligado à Operação Carne Fraca. Contra ele, o juiz Marcos Josegrei da Silva, da 14.ª Vara Federal de Curitiba, expediu mandado de condução coercitiva.
No inquérito, a Polícia Federal chegou a solicitar o afastamento de Rodrigues da vice-presidência da BRF. O pedido foi estendido a outros dois executivos da companhia – André Baldissa (diretor) e Roney Nogueira dos Santos (gerente de relações institucionais) – e também a Flávio Cassou, que os investigadores afirmam ser “executivo do grupo JBS”.
Para os investigadores, existem “evidentes possibilidades” de que Rodrigues e os outros citados, incluindo fiscais do Ministério da Agricultura, usavam suas funções para constranger testemunhas ou “atrapalhar a continuidade das diligências, viabilizar condições de outros colaboradores/empresários”.
O juiz não acolheu o pedido da PF para afastar os executivos, mas deixou claro seus motivos. “Relativamente aos investigados que desempenham suas atividades perante empresas privadas, entendo que, no caso, não cabe a este Juízo Criminal determinar os seus afastamentos. Pelo que se observou, os investigados agiam em nome e por ordem de seus contratantes.”
A BRF não quis comentar sobre a convocação coercitiva de Rodrigues. A JBS disse que “não há nenhuma medida judicial contra seus executivos” (O Estado de S.Paulo, 18/3/17)

Nota Oficial da CNTA

 “A Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação e Afins (CNTA Afins) representante de 110 mil trabalhadores da BRF (Sadia, Perdigão e Qualy) e de 130 mil trabalhadores da JBS (Seara e Friboi), vem por meio desta, manifestar sua preocupação com os resultados da operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal.

Os fatos resultantes da referida investigação sobre esquema de propina de empresários ao Ministério da Pesca e Agricultura, e quanto à venda de carnes impróprias para o consumo são lamentáveis. Saber que empresas líderes de mercado e com forte atuação no exterior são protagonistas de uma prática perversa que coloca em xeque a saúde humana em detrimento da ganância nos causa indignação.

 

Este tipo de prática ilícita e antiética não é diferente para com os trabalhadores que, por muitas vezes, são submetidos a pressões psicológicas e ritmos frenéticos de trabalho, com grande número de adoecimentos e acidentes, em detrimento do lucro da empresa. O possível envolvimento do governo neste esquema nos traz insegurança e falta de credibilidade quanto a outros tipos de fiscalizações muito importante para nós, como as do Ministério do Trabalho, órgão sucateado há muitos governos. Na categoria da Alimentação, o setor que lidera o número de acidentes de trabalho é o de frigoríficos. Entre 2012 e 2014, o número de acidentes de trabalho cresceu de 18.226 em 2012 para 19.821 em 2014 (alta de 8,7%).

 

Temos cobrado constantemente dos órgãos competentes a fiscalização das condições de trabalho, que são muito difíceis de acontecer pelo fato de o Ministério do Trabalho alegar não ter estrutura para atender a demanda necessária para que trabalhadores possam desempenhar suas funções com saúde e segurança. Então, nosso manifesto não só aborda a preocupação com o que é repassado aos consumidores, mas também aos trabalhadores, que estão expostos diretamente às consequências da busca pelo lucro a qualquer preço, evidenciadas nesta operação.

 

Para finalizar, acreditamos que o melhor combate a esse tipo de procedimento é a transparência e a fiscalização eficiente, com investimento de estrutura por parte dos órgãos competentes. Artur Bueno de Camargo, Presidente da CNTA Afins”

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