08/09/2026

As dez pragas do agro brasileiro – Por Marcos Jank

 As dez pragas do agro brasileiro – Por Marcos Jank

Marcos Jank    Foto Arquivo Pessoal

 

Um momento difícil para o setor que mais gera divisas ao País reúne, como no Egito antigo, dez desafios simultâneos.

No Velho Testamento, o livro do Êxodo descreve as dez pragas sucessivas enviadas por Deus para convencer o Faraó do Egito a libertar o povo hebreu da escravidão. Água transformada em sangue, gafanhotos que devoraram as colheitas, pestes no gado, chuva de granizo, trevas que cobriram o país e, por fim, a morte dos primogênitos.

O caminho para um novo ciclo de crescimento está em nossas mãos. Foto PORTAL SYNGENTA

Cada praga isolada já seria dura de suportar. Foi a soma delas que quebrou a resistência do Egito. É isso que está acontecendo com o agro brasileiro, hoje tomado por dez pragas contemporâneas. São elas:

  1. Governo federal – gastança sem limites e sanha arrecadatória. A dívida públicavai para 87% do PIB no ano que vem e, na rota atual, pode ultrapassar 100% nos próximos anos. O arcabouço fiscal foi rompido, com gastos acima do teto somando mais de R$ 160 bilhões. Enquanto isso, a resposta do governo é sempre a mesma: aumentar a arrecadação. O gasto público e a carga tributária já atingem 47% e 34% do PIB, respectivamente, níveis muito altos para uma economia emergente.
  2. Juros indecentes. A Selicchegou a 15% neste ciclo, a mais alta em quase duas décadas e uma das mais altas do mundo. Ela segue encarecendo o custeio, o investimento e a rolagem das dívidas de milhares de produtores e empresas rurais.
  3. Super El Niño, um evento extremo e imprevisível. A anomalia de temperatura no Oceano Pacífico já supera +2,5°C, uma das mais intensas já registradas. O risco: secas, ondas de calor e quebras de produtividade.
  4. Câmbio valorizado – o real valorizado penaliza a exportação. Mesmo com preços firmes em dólar, a apreciação do real reduz a receita de quem exporta.
  5. Geopolítica – conflitos em um mundo desgovernado. Tarifaços de Trump, a guerra comercial entre EUA e Chinae os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio fragmentam rotas e mercados. O resultado: mais volatilidade e incerteza.
  6. Vulnerabilidade nos insumos – dieselfertilizantese fretes mais caros. A alta dependência de importação elevou o custo dos fertilizantes bem na hora em que os preços recebidos pela produção recuam. Some-se o petróleo na faixa de US$ 90 por barril.
  7. Inflação – as outras pragas se somam e encarecem o alimento no mundo todo. Juros altos, a crise no Estreito de Ormuze o Super El Niño pressionam ao mesmo tempo custo, frete e oferta agrícola. A FAO já projeta alta nos preços dos alimentos, um risco maior para as populações mais vulneráveis.
  8. Preços e margens em queda – grãos e açúcar pioram a relação de troca. Safras recordes de soja e milho, somadas à oferta global abundante, derrubaram as cotações internas. Com os custos em alta, o resultado é a forte compressão das margens do produtor.
  9. Política agrícola envelhecida – créditoseguroe financiamento. O novo Plano Safra ampliou o volume total de recursos, mas reduziu o crédito equalizado para a agricultura empresarial. O seguro rural, por sua vez, segue subdimensionado diante dos riscos climáticos: cobre apenas 6% da área cultivada.
  10. Insegurança jurídica – recuperações judiciaise um campo cada vez mais judicializado. Os pedidos de recuperação judicial no agro saltaram mais de 60% em doze meses. Somam-se a isso disputas fundiárias em torno do marco temporal, licenciamentos que não saem, invasões de terras produtivas, a proibição da dragagem de rios na Amazônia e disputas tributárias que travam crédito e investimento no campo.

Na história bíblica, só depois da décima praga o faraó libertou o povo hebreu. Coube ao profeta Moisés abrir o Mar Vermelho e conduzi-lo à terra prometida. A analogia vale para o momento atual do agro: para aproveitar todo o potencial da nossa terra prometida, o setor precisa encontrar o seu “Moisés” – lideranças capazes de atravessar o “mar vermelho” que nos cerca.

A lição de casa é conhecida: disciplina fiscal para reduzir os juros e retomar o crescimento; melhor gestão dos riscos climáticos e de preços; esforços estratégicos de abertura de mercados e agregação de valor; mitigação de nossas vulnerabilidades; reforma da política agrícola envelhecida; e mais segurança jurídica. As dez pragas pesam, mas o caminho para um novo ciclo de crescimento está em nossas mãos.

(Marcos Janké professor sênior e coordenador do centro Insper Agro Global, conselheiro de empresas, palestrante e analista de agronegócio e bioenergia.; Estadão, 6/9/26)