08/06/2026

Brasil ganha 1,5 milhão de novas empresas inadimplentes em um ano

 Brasil ganha 1,5 milhão de novas empresas inadimplentes em um ano

Presidente Lula fazendo o “L”. Foto Reprodução Blog MSpontocom

 

Em abril, número de companhias que não conseguiram honrar seus compromissos em dia somou 9 milhões, um novo recorde; em abril do ano passado, número era de 7,5 milhões, segundo Serasa

 

inadimplência empresarial atingiu um novo recorde no Brasil em abril de 2026, com 9 milhões de CNPJs negativados. De acordo com dados da Serasa Experian, o número de empresas inadimplentes aumentou em 1,5 milhão em relação ao mesmo período do ano anterior, alcançando o maior patamar da série histórica iniciada em janeiro de 2016. A expectativa é que os números permaneçam em níveis elevados no curto prazo.

 

O resultado mostra um ambiente ainda desafiador para os negócios no País. Apesar do início do ciclo de afrouxamento monetário, os juros seguem em patamar elevado, encarecendo o crédito e dificultando o acesso ao capital de giro, especialmente para pequenas e médias empresas, avalia a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack.

 

“O ambiente de juros altos, aliado à desaceleração da atividade econômica, mesmo que mais moderada do que se esperava inicialmente, pressiona o faturamento das empresas e reduz a capacidade de recomposição de caixa”, afirma a executiva. Ela destaca que a inadimplência tem potencial de registrar novos recordes ao longo de 2026. A base de dados da Serasa Experian mostra que o índice de calote tem batido sucessivos recordes desde janeiro.

 

O total de dívidas negativadas também registrou novo pico, somando R$ 220,9 bilhões em abril. Em média, cada empresa inadimplente tem 7,1 contas sem pagar, com dívida média de R$ 24.665,91 por CNPJ e ticket médio de R$ 3.468,99.

 

Atualmente, a taxa básica de juros da economia é de 14,5% ao ano, isso depois de duas reduções consecutivas de 0,25 ponto. O juro alto faz o custo da dívida das empresas aumentar e encarecer boa parte dos planos de investimentos. Um levantamento da consultoria especializada em reestruturação de dívida RK Partners mostrou que entre as companhias abertas brasileiras, por exemplo, 24% já não conseguem gerar caixa suficiente para pagar os juros de suas dívidas.

 

O estudo levou em conta a situação das 282 empresas com ações listadas na Bolsa de Valores. Os estragos dos juros elevados no balanço das companhias também se refletem em outros indicadores: 23% das empresas têm alavancagem entre três vezes e seis vezes a relação dívida líquida/ebitda anual e 24% tem alavancagem acima de seis vezes.

 

Setores e regiões

Pelos dados da Serasa, em abril, o setor de serviços concentrou 55,6% das empresas negativadas. Na sequência aparecem comércio (32,4%), indústria (8,1%) e o setor primário (0,9%).

 

Em relação à origem das dívidas, o maior peso ficou no segmento de serviços (31,7%), seguido por bancos/cartões (19,4%). Na sequência apareceram cooperativas (8,6%), utilities (7,0%) e telefonia (5,7%)

 

Para a economista-chefe da Serasa Experian, a composição das dívidas mostra que uma parcela importante da inadimplência está ligada à sustentação do capital de giro e à manutenção das operações das empresas. “Em um ambiente de crédito restritivo e juros elevados, as companhias acabam recorrendo mais ao crédito comercial e a diferentes instrumentos de financiamento, mas enfrentam maior dificuldade para administrar esse passivo diante do acúmulo de pendências. Isso prolonga o processo de regularização financeira”, acrescenta.

 

Regionalmente, o Sudeste concentrou o maior volume de empresas inadimplentes em abril de 2026, com destaque para São Paulo (3.076.064), seguido por Minas Gerais (881.652) e Rio de Janeiro (864.722). Na sequência apareceram Estados como Paraná (588.935) e Rio Grande do Sul (518.195). A concentração acompanha o peso econômico e a maior densidade empresarial dessas regiões.

 

Micro e pequenas empresas também bateram recorde

 

Do total de empresas inadimplentes no país, as micro e pequenas seguiram como maioria expressiva, com 8,5 milhões de CNPJs negativados em abril, recorde desde o início da série histórica do indicador. O grupo concentrou o volume de 57,6 milhões de dívidas que somam R$ 191,8 bilhões. Em média, cada micro e pequena empresa acumulou 6,8 contas negativadas, com dívida média de R$ 22.503,39 e ticket médio de R$ 3.328,73.

 

Abdelmalack afirma que as micro e pequenas empresas continuam sendo as mais vulneráveis a um ambiente de crédito restritivo, porque dependem mais de linhas de curto prazo e têm menor capacidade de negociação. “Com juros ainda elevados e maior seletividade na concessão de crédito, essas empresas enfrentam dificuldades adicionais para recompor capital de giro e administrar o fluxo de caixa, o que contribui para a permanência da inadimplência em níveis elevados”, analisa.

 

Metodologia

 

O Indicador Serasa Experian de Inadimplência das Empresas mensura o número de empresas brasileiras que se encontram em situação de inadimplência. Uma empresa é considerada inadimplente quando tem ao menos um compromisso financeiro vencido e cujo não pagamento foi formalmente comunicado pelo credor. Essa apuração é realizada com base nas notificações registradas até o último dia do mês de referência (Estadão, 6/6/26)