06/08/2026

Brasil não pode ser só espectador no debate do aquecimento

 Brasil não pode ser só espectador no debate do aquecimento

Bombeiros enfrentam incêndio florestal na região de Mégara, na Grécia, na segunda-feira, 3. Foto: Aris Oikonomou/AFP

Por Welber Barral

 

O País precisa investir na investigação científica, entender especificidades bioclimáticas e compreender causas, vulnerabilidades e impactos das mudanças sobre seu território

 

verão recente no Hemisfério Norte voltou a impor números dramáticos à contabilidade humana e econômica do clima. A sucessão de ondas de calor extremo na Europa, acompanhada por milhares de mortes adicionais, incêndios florestais devastadores e seca inédita em bacias hidrográficas, reforça a percepção de que a crise climática deixou de ser uma projeção abstrata para se tornar risco sistêmico.

 

A explicação científica dominante aponta, com razão, para a concentração acelerada de gases de efeito estufa decorrente da queima de combustíveis fósseis, desde a Revolução Industrial.

 

Mas restringir a equação climática à dinâmica industrial oculta a complexidade de fenômenos estruturais e históricos longevos. Estudos sobre a história ambiental europeia – a exemplo dos grandes incêndios e variações térmicas na região de Bordeaux e na Aquitânia ao longo dos últimos séculos – demonstram que as causas da vulnerabilidade climática atual possuem raízes remotas e multifatoriais.

 

A mudança climática interage com padrões de uso da terra, desmatamentos ocorridos ainda na Idade Média, alterações no manejo florestal e ciclos naturais de variação solar e atividade vulcânica.

 

Estas análises revelam que os ecossistemas regionais acumulam passivos ambientais construídos ao longo de gerações. Trata-se de causalidade cumulativa e sistêmica, cuja compreensão exige recuo temporal e abordagem interdisciplinar.

 

As implicações dessa compreensão transcendem o ambiental e atingem o comércio internacional. A instabilidade climática afeta a produtividade agrícola, a disponibilidade hídrica e a segurança alimentar global. Regiões produtoras perdem safras tradicionais e deslocam fronteiras agrícolas, alterando vantagens comparativas globais.

 

No âmbito das cadeias globais de valor, os eventos climáticos extremos impõem custos crescentes à infraestrutura logística. A navegação comercial em artérias fluviais sofre interrupções frequentes pela redução severa do calado dos rios. O risco climático passa a integrar o cálculo de prêmios de seguro, fretes e decisões de investimento.

 

Paralelamente, observa-se o surgimento de uma nova arquitetura regulatória. O risco está na instrumentalização de justificativas climáticas para justificar barreiras não tarifárias. Daí a necessidade de ciência para preservar eficiência e estabilidade econômica.

 

No caso do Brasil, sua matriz renovável e agricultura competitiva não lhe permitem limitar-se a espectador passivo. O País precisa investir na investigação científica, entender especificidades bioclimáticas, compreender causas, vulnerabilidades e impactos das mudanças sobre seu território. Somente assim poderá defender competitividade, combater protecionismo camuflado de sustentabilidade e contribuir, de forma pragmática e soberana, para o debate global sobre o clima  (Welber Barral é conselheiro da Fiesp, presidente do IBCI e ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil; Estadão, 6/8/26)