02/09/2026

Enquanto Lula gasta, PIB perde fôlego - Editorial Folha de S.Paulo

 Enquanto Lula gasta, PIB perde fôlego  - Editorial Folha de S.Paulo
  • Economia desacelera no 2º trimestre, sob o impacto dos juros elevados devido à irresponsabilidade fiscal
  • Alta de 0,5% pode dar a impressão de que situação não é tão preocupante, mas cerca de metade da cifra vem do agro e da indústria extrativa

 

Os números do Produto Interno Bruto do segundo trimestre, divulgados nesta terça (1) pelo IBGE, mostram a economia em processo de desaceleração, a despeito do aumento de gastos e crédito público promovido por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste ano eleitoral.

 

O crescimento de 0,5% pode dar a impressão de que a situação não é tão preocupante, mas os componentes do PIB mostram que a taxa de juros astronômica mantida já há algum tempo —impulsionada pelas despesas do governo— tem causado impacto.

 

O consumo caiu 0,4% e tende a enfraquecer. A inadimplência deu sinais de aumento nos últimos meses, especialmente nas faixas mais baixas de renda, dando a entender que o Desenrola 2 ainda não tem sido tão efetivo quanto desejaria o governo.

 

Mais ainda, nota-se um mercado de trabalho que se ajusta ao arrocho monetário. Tanto os dados do IBGE quanto os do mercado formal mostram um início, mesmo que lento, de deterioração.

 

Quem salva o resultado, como vem se repetindo na história recente, são os produtos primários de exportação. Cerca de metade do crescimento do segundo trimestre se deu graças à agropecuária e à indústria extrativa.

 

Se 2025 foi o ano do agro no PIB, 2026 será o ano do petróleo —com todas as ressalvas a comemorar um vetor climático tão negativo como é o caso do principal produto da energia fóssil.

 

Mas não nos enganemos com o peso das commodities. Desde 2021, pode-se dizer que cerca de 12% do crescimento observado na economia brasileira veio desses segmentos do PIB.

 

Isso reforça a ideia de que as commodities podem muito, mas não tudo. Por exemplo, os juros, ao lado dos custos elevados de fertilizantes em razão da guerra entre EUA e Irã, tendem a resultar num 2027 muito complicado para a agropecuária.

 

Para uma expansão sustentável da economia, o país depende de uma política econômica coerente e de reformas que permitam aumento da produtividade. O pós-pandemia, junto a anos seguidos de mercado de trabalho ruim, permitiu que se crescesse com novos empregos sem uma explosão inflacionária.

 

O Banco Central soube conduzir a política monetária para evitar uma alta de preços muito descolada do teto da meta. Faltou, no entanto, a contribuição de uma política fiscal responsável.

 

Em vez disso, o governo Lula 3 promoveu uma multiplicação de gastos desde antes da posse, no afã de obter popularidade e na crença de que tal estratégia pode ser mantida indefinidamente sem custos inflacionários. Não fosse esse impulso, os juros poderiam ser menores hoje.

Maior crescimento decerto depende de mais do que apenas reduzir as taxas. Mas, sem o reequilíbrio fiscal, o próximo governo não terá nada a prometer (Folha, 2/9/26)