Governo Trump acusa Brasil de falhar no combate a PCC e CV
Trump - Brendan SMIALOWSKI-AFP-JC
- Documento anual enviado ao Congresso faz reprimenda nominal ao governo brasileiro; país fica fora das listas formais, mas recebe crítica direta de Washington
- Casa Branca afirma que facções transformaram o Brasil em um centro para o fluxo global de cocaína.
O governo Donald Trump afirmou que o Brasil "falhou em confrontar" o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho e disse que as duas facções transformaram o país em um centro para o fluxo global de cocaína.
A crítica aparece em um documento anual enviado pela Casa Branca ao Congresso americano nesta terça-feira (15), documento publicado anualmente em que a Casa Branca identifica os países considerados grandes produtores de drogas ilícitas ou importantes rotas de trânsito para o narcotráfico e avalia os esforços de governos estrangeiros no combate às drogas.
O documento é exigido por lei e enviado anualmente ao Congresso. A Casa Branca ressalva que a inclusão de um país na lista de grandes produtores ou rotas de drogas não representa necessariamente uma avaliação negativa sobre os esforços de seu governo, já que a classificação também leva em conta fatores geográficos, comerciais e econômicos.
Na lista deste ano, Trump classificou 23 países como grandes produtores ou rotas de drogas, entre eles México, Colômbia, Venezuela, Peru, Bolívia e Equador. O Brasil não aparece nessa relação.
O presidente americano também apontou quatro países —Afeganistão, Bolívia, Mianmar e Colômbia— como governos que, na avaliação de Washington, não fizeram esforços suficientes para cumprir seus compromissos no combate às drogas nos últimos 12 meses em cumprir compromissos internacionais de combate ao narcotráfico. O Brasil também não integra essa categoria.
Apesar de não incluir o país em nenhuma dessas duas classificações formais, Trump reservou um trecho específico da determinação para fazer uma crítica direta ao governo brasileiro.
"Enquanto muitos governos no Hemisfério Ocidental estão tomando medidas corajosas para reduzir o fluxo de drogas e erradicar cartéis, o governo do Brasil falhou em confrontar" o PCC e o Comando Vermelho, afirma o texto.
Segundo a Casa Branca, as duas facções "transformaram o Brasil em um hub para os fluxos globais de cocaína" e representam uma ameaça crescente à paz e à segurança internacionais. Trump afirma ainda que o governo brasileiro precisa tomar "medidas agressivas" para combater e derrotar os grupos.
"Essas organizações terroristas brasileiras representam uma ameaça crescente à paz e à segurança em todo o mundo, e o governo brasileiro precisa adotar com urgência medidas firmes para enfrentá-las e derrotá-las antes que se espalhem e se fortaleçam", diz o governo americano.
A menção ao Brasil representa uma mudança em relação à determinação presidencial publicada um ano antes. No documento de 2025, o país não era citado. A Casa Branca concentrava suas críticas a países como México, China, Colômbia e Venezuela e tratava, de forma mais ampla, do uso de designações terroristas e sanções contra cartéis e outras organizações criminosas transnacionais.
Neste ano, embora o Brasil continue fora da lista oficial de grandes países produtores ou de trânsito de drogas e também não tenha recebido a classificação de governo que "falhou de forma demonstrável" em suas obrigações antidrogas, passou a ser alvo de uma reprimenda nominal da Casa Branca.
A mudança ocorre em meio a uma escalada da pressão do governo Trump sobre as duas principais facções criminosas brasileiras.
Em maio, o secretário de Estado, Marco Rubio, classificou PCC e Comando Vermelho como "Specially Designated Global Terrorists", ou terroristas globais especialmente designados. A decisão foi assinada em 28 de maio e publicada no Federal Register no início de junho.
Na determinação, Rubio afirmou que PCC e Comando Vermelho haviam cometido, tentado cometer ou representavam risco significativo de cometer atos de terrorismo que ameaçassem cidadãos americanos ou a segurança nacional, a política externa ou a economia dos Estados Unidos.
A declaração acrescenta um novo capítulo à relação turbulenta entre Lula e Trump, marcada neste ano por tentativas de aproximação intercaladas com novos atritos. Em maio, Lula foi recebido por Trump na Casa Branca em uma reunião de cerca de três horas, na qual os dois discutiram comércio, minerais críticos e combate ao crime organizado.
Poucas semanas depois, porém, Flávio Bolsonaro se reuniu com o republicano e pediu que PCC e Comando Vermelho fossem classificados como organizações terroristas internacionais —medida adotada pelo Departamento de Estado no fim daquele mês e à qual o governo brasileiro se opôs.
A tensão voltou a crescer nos meses seguintes. Em julho, Washington anunciou novas tarifas sobre produtos brasileiros, enquanto Brasília negou vistos a dois funcionários americanos que, segundo integrantes do governo Lula, pretendiam questionar o sistema eleitoral brasileiro.
Em resposta, os EUA revogaram em agosto o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em meio também a uma disputa diplomática sobre a nomeação do novo embaixador americano no Brasil. Apesar dos atritos, Lula e Trump mantiveram canais diretos de diálogo.
A pressão americana sobre PCC e Comando Vermelho ocorre também em plena campanha presidencial, na qual a segurança pública se consolidou como uma das principais preocupações dos eleitores.
Os dois principais candidatos dão destaque ao combate às facções, mas defendem estratégias distintas. Lula propõe ampliar a coordenação federal, a integração de dados e o trabalho de inteligência entre as forças de segurança, enquanto Flávio aposta em medidas de caráter mais punitivo, como endurecimento das penas e expansão do sistema prisional. Ambos colocaram o combate ao poder econômico do crime organizado entre suas prioridades.
Elogio à Venezuela e a aliados regionais
No mesmo documento em que critica o Brasil, Trump elogia governos latino-americanos por sua atuação contra o narcotráfico e afirma que "mudanças políticas dramáticas na América do Sul" abriram espaço para ampliar a cooperação com Washington.
O principal destaque é a Venezuela. Trump afirma que, após a retirada de Nicolás Maduro do poder, os Estados Unidos passaram a observar avanços na cooperação com o governo interino de Delcy Rodríguez, inclusive contra cartéis. Com isso, retirou o país da lista dos que "falharam de forma demonstrável" em seus compromissos antidrogas, embora a Venezuela continue classificada como importante rota de trânsito ou produção de entorpecentes.
Trump também elogia a mudança política na Bolívia após a eleição de Rodrigo Paz e a vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia, mas mantém os dois países na relação dos que, segundo Washington, falharam de forma demonstrável no combate às drogas.
O documento ainda cita positivamente a presidente peruana Keiko Fujimori e chama Argentina, Equador e El Salvador de alguns dos principais aliados dos Estados Unidos no hemisfério no combate ao narcotráfico (Folha, 17/9/26)

