17/09/2026

Lula não largou Moraes, e resultado no STF deixa sua campanha sangrando

 Lula não largou Moraes, e resultado no STF deixa sua campanha sangrando

Moraes e Lula - Foto reprodução Instagram

Por Roseann Kennedy

Não havia desfecho positivo para o petista no julgamento desta terça-feira, tamanho seu atrelamento político com Moraes; mas o adiamento impede Lula de pautar outros temas na campanha

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já tinha sido orientado a “largar a mão” de Alexandre de Moraes, desde que começou a despencar nas pesquisas de intenção de voto, mas o distanciamento foi apenas cálculo eleitoral e, na prática, não ocorreu. Ao contrário disso, o governo e o PT agiram para indiretamente proteger o “herói” do julgamento do 8 de janeiro.

A estratégia foi desviar o foco das suspeitas sobre as relações de Moraes e Daniel Vorcaro, antagonizando o tema com a atuação do ministro André Mendonça. Para isso, os governistas contaram com duas frentes: no próprio Judiciário, com a ofensiva de Flávio Dino, fiel escudeiro de Lula, em ações contra Mendonça, e nas redes sociais, elevando o tom sobre o magistrado.

Ou seja, Lula apenas evitou elogios públicos a Moraes e, agora, sua campanha continuará sangrando diante da crise que se arrasta no STF.

Interlocutores palacianos admitiam, desde cedo, nesta terça-feira, 15, que nenhum desfecho no Supremo geraria resultado positivo para Lula.

Se a decisão da Corte fosse por autorizar a investigação, Moraes passaria a ser alvo de inquérito, o problema cairia no colo de Lula e os discursos bolsonaristas ganhariam força. Já com o caso adiado, por ação de aliados do presidente, a mensagem que fica é de que seu grupo político ajuda Moraes de todo jeito. Para piorar, o petista não consegue pautar outro tema na campanha presidencial.

No pragmatismo político, Moraes virou tóxico para o candidato Lula, porém continua sendo útil ao petismo para rivalizar com os bolsonaristas. A duas semanas do primeiro turno, entretanto, os marqueteiros da campanha sabem que não há mais espaço para erros de estratégia ou improviso.

Até ontem, o presidente Lula não tinha feito nenhuma crítica ou cobrança incisiva por esclarecimentos sobre as graves suspeitas que pesam contra Moraes — por exemplo, de corrupção passiva e advocacia administrativa. O presidente da República fizera apenas uma declaração genérica de que “todos devem prestar esclarecimentos”.

Agora, os próximos passos de Lula e do PT devem considerar uma máxima que circula em Brasília: políticos experientes vão até a beira do abismo com um aliado político, mas, se chegar a hora da queda, empurram primeiro.

Distanciamento entre Lula e o ministro Alexandre de Moraes foi calculado pela campanha petista, mas na prática não ocorreu. Foto Wilton Junior Estadão

Escalada da crise Moraes na campanha de Lula

Como mostrou a Coluna do Estadão, a cúpula da campanha presidencial petista teve uma longa reunião no último dia 9. Foram mais de cinco horas de discussões nas quais o grupo reavaliou o cenário político e se deparou com a constatação de que o escândalo sobre Alexandre de Moraes cola mais em Lula do que o caso que envolve as denúncias sobre seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

Um dos motivos para a nova comunicação foi a análise de um monitoramento digital recebido pela campanha. Os números apontaram uma escalada expressiva no volume de menções e comentários sobre a crise do Supremo Tribunal Federal nas redes sociais; no caso específico de Alexandre de Moraes + Daniel Vorcaro + Banco Master, quase 90% das reações registradas são críticas.

Desde que foi revelada a troca de mensagens de Daniel Vorcaro com Moraes, com pedido até de orientação sobre o dia da fuga, Lula passou a amargar novas quedas nas intenções de voto.

As pesquisas mais recentes mostraram seu principal rival, Flávio Bolsonaro (PL), numericamente à frente, embora os dois estejam ainda em empate técnico. O cenário considerado mais preocupante para o PT é eventualmente chegar ao dia 4 de outubro com o filho “Zero Um” de Jair Bolsonaro à frente também nas projeções de 1º turno (Estadão, 17/9/26)



Alexandre de Moraes seria derrotado no STF, mas 'explosão' de Nunes Marques reverteu o quadro 

 

Kassio Nunes Marques- Foto Carlos Moura STF

 

Por Mônica Bergamo

·         Novas mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro citavam filho de magistrado, que declarou impedimento e não participou de julgamento sobre abertura de investigação contra o colega

·         Sem ele, placar ficou empatado

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes não tem o apoio da maioria dos magistrados da Corte e perderia a votação na sessão que, na terça (15), decidiria sobre a abertura de uma investigação contra ele por envolvimento com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Na avaliação de integrantes do tribunal, o resultado já estava desenhado: cinco ministros votariam contra Moraes e quatro (incluindo ele mesmo, caso a questão fosse considerada processual), a favor. Dias Toffoli se declaria impedido— o que de fato ocorreu.

Pelas contas inclusive de seus aliados, se posicionariam pela investigação de Moraes os ministros Edson Fachin, que preside a Corte, Kassio Nunes Marques, André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia.

Mesmo que um dos magistrados contrários à abertura pedisse vista, adiando a proclamação do resultado, o desgaste da derrota já estaria dado.

Na noite anterior à sessão, no entanto, passou a circular a informação de que, na íntegra do conteúdo do celular de Vorcaro enviada aos gabinetes dos ministros Cristiano ZaninGilmar Mendes e do próprio Moraes, havia sido encontradas mensagens que indicavam pagamentos de R$ 500 mil mensais ao advogado Kevin Marques, filho de Kassio, que nega ter recebido os recursos.

No celular foram encontradas mensagens também de cunho pessoal.

A informação chegou ao gabinete de Kassio, que foi questionado pela imprensa no dia seguinte sobre o assunto.

A coluna apurou que, na mesma noite, ele informou ao próprio Alexandre de Moraes que se declararia impedido na sessão que julgaria a abertura de investigação contra o colega.

O grupo contrário à abertura, no entanto, seguiu acreditando que, na sessão, Kassio acabaria votando mesmo contra Moraes.

Ministros chegaram a preparar falas sobre as mensagens de Vorcaro em que Kevin Marques era citado, para ler na sessão e questionar a participação do magistrado no julgamento.

Ele, no entanto, se antecipou e declarou impedimento, saindo do plenário do STF logo no início dos debates.

Kassio afirmou que, "na condição de presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), eu não me sinto confortável para participar desse julgamento e afirmo o meu impedimento".

Magistrados ouvidos pela coluna dizem que a "explosão" de Nunes Marques, como definem a circulação das mensagens, conseguiu reverter, pelo menos num primeiro momento, o quadro desfavorável a Moraes, gerando uma situação de empate no plenário.

O ministro Flávio Dino pediu vista do processo, o que adiou a decisão por prazo ainda indefinido (Folha, 17/9/26)