Minuta não é tentativa de golpe e eu teria feito como ministro, diz Rebelo
Ex-ministro Aldo Rebelo. Foto Instagram
- Ex-ministro de Lula e Dilma afirma que se afastou da esquerda e que agenda identitária é imposta pelo STF
- Agora crítico do presidente, Aldo defende exploração da Amazônia e revalorização da democracia
Como alternativa a Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), o Democracia Cristã vai lançar à Presidência, neste sábado (31), o ex-ministro Aldo Rebelo, 69, cuja posição na polarização é difícil de determinar.
Militante comunista e nacionalista, ex-integrante do PC do B, ele atuou em gestões petistas e recentemente se tornou querido entre bolsonaristas. Questionado sobre apoiar a reeleição de Lula, Aldo diz "Deus me livre" —mas evita escolher desde já entre o presidente e Flávio em um segundo turno.
Aldo rechaça a ideia que tenha havido uma tentativa de golpe de Estado, pela qual o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) cumpre pena.
"A minuta estava baseada na Constituição. Eu era ministro da Defesa. Se a presidente Dilma [Rousseff] tivesse me pedido uma minuta daquela, eu teria feito", diz em entrevista à Folha a respeito do documento apresentado por Bolsonaro aos chefes das Forças Armadas, que previa o estado de defesa para impedir a posse de Lula.
Seu partido, o DC, não tem deputados eleitos e conta com poucos recursos. Para a vaga de vice, Aldo convidou Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação de Bolsonaro.
Principais propostas
Denomino como a plataforma dos quatro Rs. O primeiro é retomada do desenvolvimento. A política econômica de Lula se reduz a aumentar despesa por causa da eleição que se aproxima e aumentar imposto para cobrir essa despesa.
O segundo é redução das desigualdades. O terceiro é revalorização da democracia. Eu me refiro à capacidade do país de debater os seus caminhos com o mínimo de respeito, de tolerância, desprovido do ódio que infelizmente marca hoje a relação política nas redes sociais.
E o quarto R é o da reconstrução de duas agendas que foram negligenciadas: segurança pública segurança nacional. O Brasil é um país que não tem Forças Armadas compatíveis com as suas necessidades.
Exploração e meio ambiente
O Brasil não é um país pobre, é um país travado. O Brasil transformou a agricultura, pecuária e a agroindústria como se fossem vilões da proteção do meio ambiente. Então, você trava a agropecuária e trava a agroindústria. O Brasil tem as maiores reservas minerais, tudo está imobilizado, porque aqui o licenciamento ambiental virou uma ideologia de veto.
É a área mais vulnerável do nosso país. O Brasil precisa tomar providência para garantir a ocupação demográfica e econômica com responsabilidade ambiental, respeitando as populações indígenas. Aqui não há segurança jurídica sobre uma licença ambiental. Você não sabe se ela dura 5 anos ou 50 anos. Tem que criar uma autoridade única, nacional, de licenciamento. A Amazônia precisa de infraestrutura, de rodovias, de ferrovias, de hidrovias.
Sempre fui nacionalista. Entrei no Partido Comunista por uma agenda de luta em defesa da liberdade, em defesa da democracia, contra a censura, pela anistia, pela Constituinte. Eu fui educado na ideia de amor ao Brasil, de defesa do Brasil. Eu diria que foi esse setor [bolsonarismo] que se aproximou da minha agenda.
Eu me afastei da agenda do governo, porque Lula entregou o país a esse congelamento do poder econômico. Como é que o presidente da República aceita que o chefe de uma autarquia que ele nomeia, que nem status de ministro tem, que é o presidente do Ibama, imponha um veto à exploração do petróleo na margem equatorial, num estado que tem 73% da população vivendo de transferência de renda, de Bolsa Família?
Esquerda identitária
Eu me afastei da esquerda pela agenda também. A agenda da ideologia foi substituída pela agenda da biologia. Não importa mais a luta pelo interesse geral. Agora é a luta pelos interesses baseados em critérios biológicos, de raça, de cor da pele, de gênero.
A agenda identitária, dos costumes, do comportamento, é a agenda das grandes corporações. É a agenda imposta ao Brasil pelo sistema financeiro, por uma parte da mídia, pelo Supremo. Então é o seguinte: sejam felizes, mas não é a minha agenda.
Prisão de Bolsonaro
O ex-presidente [Fernando] Collor, que é detentor de uma saúde muito mais estável do que a de Bolsonaro, alcançou rapidamente a prisão domiciliar. Isso é uma coisa completamente absurda. Você não sabe o que é propriamente justiça e o que é vingança. O que é lamentável, porque gera ressentimentos que envenenam o ambiente social e político.
Tentativa de golpe
Se a base for aquele documento que foi apresentado, aquilo não é tentativa de golpe. A minuta estava baseada na Constituição. Eu era ministro da Defesa. Se a presidente Dilma tivesse me pedido uma minuta daquela, eu teria feito.
Você está o quê? Condenando uma intenção? Condenando uma ideia? Porque o documento contraria completamente tudo que é um golpe, que é feito por conspiração. A presidente Dilma nunca comentou sobre isso, mas se tivesse cogitado, eu teria feito o documento pela situação que nós vivíamos, daquele movimento de impeachment. Aí eu seria golpista? Acho que não.
Invasão da Venezuela pelos EUA
Apoiar a invasão da Venezuela é uma atitude que demonstra a desorientação do país. A atitude dos Estados Unidos é uma afronta. E é uma afronta ao Brasil, porque é na nossa fronteira e usou o pretexto que nós precisamos estar atentos: a questão do narcotráfico. O Brasil tem que considerar que os rios da Amazônia já estão sob controle do tráfico. E como a atividade econômica foi bloqueada, o tráfico virou um meio de vida para a juventude.
RAIO-X
Aldo Rebelo, 69
Foi deputado federal de 1991 a 2015 e fez carreira no PC do B. Presidiu a Câmara dos Deputados de 2005 a 2007, foi ministro no primeiro mandato de Lula (PT) e também integrou a gestão Dilma Rousseff (PT) nas pastas de Esporte, Ciência e Defesa. Foi secretário municipal de Relações Institucionais da gestão Ricardo Nunes (MDB) em São Paulo. Deixou o PC do B em 2017 e passou pelo PSB, Solidariedade, PDT e MDB, até se filiar ao DC em 2025 (Folha, 31/1/26)

