23/09/2026

14 países se comprometem a combater facções e cartéis incluindo PCC e CV

14 países se comprometem a combater facções e cartéis incluindo PCC e CV

O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas na sede da ONU, na cidade de Nova Iorque, EUA, em 22 de setembro de 2026 — Foto Brendan McDermidReuters

 

No mesmo dia em que o presidente norte-americano Donald Trump disse que poderá usar força militar na América Latina para garantir os "interesses vitais" do país sobre a região, um grupo de 14 países latino-americanos e caribenhos liderados pelos EUA, conhecido como Escudo das Américas, divulgou um comunicado, nesta terça-feira (22/9), no qual afirma estar disposto a impor sanções a 24 facções criminosas, entre elas duas brasileiras, classificadas pelo grupo como "narco-terroristas".

 

As facções brasileiras mencionadas no documento são o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC).

 

Em maio, os Estados Unidos já haviam designado essas duas facções como organizações terroristas.

 

A medida adotada pelos norte-americanos foi criticada pelo governo brasileiro sob o argumento de que ela poderia abrir espaço, justamente, para intervenções militares norte-americanas em território brasileiro.

 

A intenção declarada pelo Escudo das Américas, no entanto, coloca o Brasil na contramão da maioria dos países da América do Sul. Dos 11 países da região, sete fazem parte do grupo e assinaram o documento: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Guiana, Paraguai e Peru.

 

Os quatro que não assinaram o documento são: Brasil, Uruguai, Suriname e Venezuela.

 

O texto divulgado hoje trata o crime organizado como uma ameaça conjunta para a região.

 

"Reconhecendo que uma ameaça imediata e universalmente compartilhada em nosso hemisfério é representada por organizações narcoterroristas transnacionais (...) nós anunciamos hoje a primeira ação conjunta sob os nossos pilares recém-anunciados: ação individual e coletiva para enfrentar o flagelo do narcoterrorismo", diz um trecho do documento.

 

O texto diz que os países planejam impor o congelamento de ativos, restringir vistos para pessoas associadas a estas organizações criminosas e processar pessoas que estejam oferecendo suporte material ou logístico para as facções.

 

O documento também pede que a Organização dos Estados Americanos, sediada em Washington, convoque uma reunião para debater a adoção de uma resolução conjunta da entidade sobre medidas a serem adotadas para o combate às organizações criminosas da região.

 

Atualmente, a OEA é comandada pelo chanceler de Suriname, Albert Ramdin, que foi eleito secretário-geral da organização com o apoio do Brasil.

 

Um diplomata brasileiro ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado disse que o governo tomou conhecimento da iniciativa e ainda avaliava seus impactos.

 

Outro diplomata, questionado sobre se ela isolava o país ante seus principais vizinhos, disse que a medida poderia ter "vários propósitos".

 

Para a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Carol Pedroso, as sanções anunciadas pelo Escudo das Américas seria um "mau sinal para o Brasil".

 

"É um mau sinal para o Brasil, que desde a assinatura do Escudo das Américas, em março, já estava 'cercado' de aliados militares em potencial dos EUA e agora está praticamente encurralado com as adesões de Peru e Colômbia", disse a professora.

 

Segundo ela, a medida poderia abrir caminho para ações militares tanto na fronteira quanto em território brasileiro.

 

"O primeiro seria a ação direta dos EUA, com anuência dos aliados regionais, em território na fronteira brasileira. O segundo é a ação de Forças Armadas dos países vizinhos, com apoio norte-americano, tanto na fronteira quanto em solo nacional, em 'prol' do combate ao chamado narco-terrrosimo".

 

Para a professora, tanto em um caso como em outro, o Brasil ficaria politicamente vulnerável porque, caso uma ação em território nacional aconteça, "a possibilidade de reação ficaria limitada seja militarmente, seja por meio da diplomacia regional".

 

Força militar dos EUA na região

 

Horas antes do anúncio feito pelos países do Escudo das Américas, o discurso do presidente Donald Trump na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) mostrou o seu foco América Latina às vésperas da eleição tida por analistas como a mais decisiva para o futuro da região nos últimos anos: a brasileira.

 

O Brasil é visto por Washington como um país não alinhado ao governo Trump.

 

Auxiliares do presidente Lula avaliam que os norte-americanos gostariam de ver o país governado por um nome mais amistoso ao governo Trump, como o senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL).

 

A avaliação da professora da professora Carol Pedroso e de três diplomatas brasileiros ouvidos em caráter reservado é de que o foco de Trump sobre a América Latina atinge diretamente Brasil, ainda que o país não tenha sido citado nominalmente.

 

Segundo eles, Trump teria reforçado o recado aos países ainda não-alinhados ao governo norte-americano de que seu governo se mantém disposto a usar até mesmo a força militar para manter e ampliar sua influência na região.

 

"Ao vencedor, o espólio. Vocês já ouviram falar que nossas ações na Venezuela são a prova que os Estados Unidos não vão mais permitir que ameaças à América ganhem terreno em qualquer ponto do Hemisfério Ocidental. Se necessário, usaremos todo o nosso poderio militar inigualável para assegurar os interesses vitais dos Estados Unidos", disse Trump mencionando a ação militar dos EUA que capturou o então presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro deste ano.

 

Carol Pedroso avalia que mesmo sem citar o Brasil, o foco de Trump na América Latina, especialmente ao tratar do combate ao crime organizado, acaba colocando o Brasil na berlinda e que o assunto poderá ser mobilizado durante a reta final das eleições.

 

"O anúncio do Escudo das Américas mostra que não foi sequer preciso citar o Brasil para que o país fosse afetado", disse.

 

Trump defendeu a sua decisão de classificar facções criminosas latino-americanas como organizações terroristas e citou, nominalmente, os carteis de drogas do México e o grupo Tren de Arágua, da Venezuela.

 

Esse processo começou ainda em 2025, logo que assumiu seu segundo mandato.

 

"O recado dado para a América Latina inevitavelmente também se aplica a nós, após a classificação do CV e PCC como organizações narcoterroristas. Foi uma forma indireta de endereçar ao Brasil um tema que deve movimentar a agenda hemisférica daqui para a frente e que pode ser usado nessa conjuntura eleitoral contra Lula, favorecendo a candidatura de Flávio Bolsonaro", diz a professora.

 

Um auxiliar do presidente Lula minimizou as menções de Trump à América Latina e disse não ver recados diretos ao Brasil.

 

Falando à BBC News Brasil em caráter reservado, ele disse que Trump teria apenas repetido a retórica usada por ele ao falar do chamado Escudo das Américas.

 

Um diplomata brasileiro ouvido em caráter reservado pela BBC News Brasil diz, por sua vez, que Trump teria enviado dois recados principais à região durante sua passagem pela ONU.

 

O primeiro seria o de que os EUA pretendem ampliar sua influência na região e aliados tradicionais de países não alinhados como a China e a Rússia não teriam condições de impedir o ímpeto norte-americano.

 

Essa "lição" teria ficado ainda mais clara após a ação militar dos EUA que tirou Maduro do poder e que não foi respondida econômica e militarmente pelos governos russo e chinês, que antes davam suporte ao ex-ditador venezuelano.

 

A percepção de que o Brasil não seria um país alinhado aos EUA foi expressa por Rubio em junho deste ano. Em pronunciamento ao Congresso norte-americano, ele incluiu o Brasil em um grupo de países não "amigáveis" aos Estados Unidos que inclui Cuba, Nicarágua e Venezuela.

 

O segundo recado, segundo o diplomata ouvido pela BBC News Brasil, foi endereçado à base eleitoral republicana indicando que o governo Trump estaria cumprindo sua promessa de aumentar sua força na América Latina.

 

Ele lembra que tudo isso acontece, também, a pouco mais de dois meses das eleições parlamentares de meio de mandato nos Estados Unidos, que vai definir se o Partido Republicano, de Trump, terá ou não o comando do Congresso nos próximos dois anos e meio.

 

Contraste entre Lula e Trump

Foto Kylie CooperReuters

 

A ameaça de uso da força militar na América Latina feita por Trump contrasta com o discurso de Lula na ONU.

 

Repetindo motes usados por ele em pronunciamentos recentes, Lula rechaçou a ideia de que a América Latina possa ser vista como um "quintal" dos Estados Unidos.

 

"Na América Latina e no Caribe, a proximidade com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo no contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém", disse Lula.

 

O presidente também criticou uma suposta tentativa de interferências estrangeiras em eleições na região.

 

"A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos", disse Lula.

 

A fala, ainda que sem mencionar Trump ou os EUA, reflete um tema já abordado por Lula anteriormente.

 

Na semana passada, em discurso no Paraná, Lula citou Trump nominalmente.

 

"O Trump sabe que eu já falei para ele: não se meta na eleição do Brasil. Esse país não é um vira-lata e nem uma republiqueta de banana. Esse país tem 215 milhões de homens e mulheres que têm orgulho. É a eleição brasileira. Aqui, ninguém vai se meter. E se se meter, vão perder as eleições".

 

As falas de Lula ecoam uma preocupação que circula entre seus auxiliares de que os EUA estariam, diretamente e indiretamente, tentando influenciar os rumos das eleições no Brasil para favorecer Flávio Bolsonaro, visto como mais alinhado a Trump.

 

Um dos exemplos disso seria a publicação, na semana passada, de um relatório do Departamento de Estado, em que o Brasil é criticado por supostamente ter falhado no combate ao crescimento do crime organizado no país.

 

Ainda na semana passada, o jornal Folha de S.Paulo publicou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) teria elaborado um relatório citando um aumento da pressão dos EUA sobre o processo eleitoral brasileiro.

 

Sai China, entra América Latina

 

A mudança de foco no discurso de Trump sobre a América Latina pode ser medida em números. Em 2025, as menções do norte-americano à região ocuparam 6% do seu discurso.

 

Na época, ele retornava ao púlpito da ONU pela primeira vez em seu segundo mandato. Em 2026, as menções à região chegaram a 13%.

 

Por outro lado, a China, que tinha sido citada oito vezes em 2025, foi citada apenas uma.

 

Um diplomata ouvido pela BBC News Brasil diz que essa mudança teve pelo menos três motivos.

 

O primeiro é o fato de que, na média, a política externa de Trump, marcada pela guerra tarifária com países como a China, seria mal avaliada pelo público norte-americano. Por isso, menções à China depois de o país asiático ter resistido e imposto derrotas a Trump, não seria prudente.

 

Ao mesmo tempo, ainda no campo da política externa, a agenda norte-americana na América Latina seria uma das únicas entregas positivas do governo nesse campo.

 

Desde que assumiu o poder novamente, Trump conseguiu reduzir o fluxo de imigrantes pela fronteira com o México, trocou o comando da Venezuela e implementou um cerco ainda mais acirrado sobre o regime cubano.

 

Este diplomata avalia ainda que essas "conquistas" também têm um peso eleitoral para parte da base republicana, especialmente para o eleitorado latino.

 

O terceiro motivo seria uma tentativa de Trump de abrir mais espaço para agenda capitaneada por seu secretário de Estado, Marco Rubio.

 

Ele, que é descendente de cubanos, tem uma atuação política marcada pelo foco na América Latina e é visto como um dos possíveis sucessores de Trump nas eleições de 2028.

 

Isso explicaria, segundo o diplomata, a ênfase dada por Trump à atuação de Rubio na questão cubana.

 

O país vive sob embargo comercial norte-americano desde os anos 1960, mas, nos últimos dois anos, o governo Trump restringiu o acesso do país a combustíveis, o que agravou a crise energética do país (BBC News Brasil, 22/9/26)

 



Na ONU, Trump ameaça usar poder militar dos EUA para garantir 'interesses' na América Latina

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira, 22/09, que os EUA usarão "poderio militar incomparável" na América Latina para garantir segurança contra cartéis de drogas.

 

Ele foi o segundo líder a discursar na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, depois do discurso do presidente Lula.

 

Trump usou seu discurso para falar sobre as ações americanas na Venezuela e o combate a organizações criminosas na América Latina e no Caribe.

Em sua fala, ele comparou as gangues latino-americanas ao grupo terrorista Estado Islâmico.

 

"Nossas ações na Venezuela são prova de que os Estados Unidos não vão mais permitir que ameaças à América ganhem posição de destaque no hemisfério ocidental e, se necessário, usaremos nosso poderio militar incomparável para garantir os interesses nacionais vitais dos EUA", disse.

 

"Depois de chegar ao cargo, eu designei os cartéis de drogas como organizações terroristas estrangeiras e desencadeei uma operação com as Forças Armadas Americanas para eliminá-los. Os cartéis são o Estado Islâmico do hemisfério ocidental".

 

Ao falar sobre a relação dos EUA com a América Latina, Trump afirmou ainda que o regime de Cuba "está sob a maior pressão até hoje".

 

"Estamos pensando também numa mudança radical em Cuba, onde o regime comunista está sob a maior pressão que jamais esteve. É um regime absolutamente falido, um Estado falido. E vai cair", disse.

 

O presidente americano também afirmou que seu secretário de Estado, Marco Rubio, está conduzindo negociações com o governo cubano. "Nós não vamos deixar que haja um porto seguro para o terror na nossa porta", disse.

 

Lula e Trump não se encontraram nos bastidores

 

Lula e Donald Trump não se encontraram nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, segundo fontes próximas ao presidente brasileiro informaram à BBC News Brasil.

 

Havia a expectativa de que os dois líderes se cruzassem na saída de Lula do plen

 

Naquele momento, o governo brasileiro tentava uma saída diplomática para o primeiro tarifaço aplicado por Donald Trump ao país. Também se discutia a aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, sob a acusação de o ministro do STF ter agido politicamente na condenação de Jair Bolsonaro.

 

O episódio foi um ponto de virada na relação entre os dois chefes de Estado, que passaram a dialogar e até tiveram um encontro presencial, que resultou na retirada de tarifas e sanções ao Brasil.

 

A relação voltou a desandar nos últimos meses, contudo.

 

O momento atual é particularmente delicado: a duas semanas das eleições brasileiras, com uma disputa comercial ainda sem solução e sob o risco de uma nova rodada de sanções do governo Trump contra autoridades brasileiras (BBC News Brasil, 22/9/26)