81 milhões no vermelho: o retrato de um Brasil endividado até o limite
Por: Camilo Calandreli
O Brasil encerrou 2025 com 81,2 milhões de pessoas inadimplentes — o equivalente a 49,7% da população adulta, segundo o Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas da Serasa.
Não é apenas um número. É um sinal de alerta nacional.
Metade dos adultos brasileiros está com o nome negativado. Metade do País vive sob a pressão de juros, cobranças, ligações insistentes e restrições de crédito. Isso não é um problema pontual. É estrutural. E, sobretudo, cultural.
Um País que consome antes de aprender
A inadimplência em massa não nasce apenas da crise econômica. Ela nasce de algo mais profundo: a ausência de educação financeira estruturada nas escolas e nas famílias.
O brasileiro médio aprende a parcelar antes de aprender a poupar. Aprende a usar crédito antes de entender juros compostos. Aprende a consumir antes de compreender planejamento.
Cartões, financiamentos, “12 vezes sem juros”, crédito fácil no aplicativo, apostas digitais, compras por impulso. Tudo ao alcance de um clique — sem qualquer preparo formativo consistente.
O resultado?
Uma geração adulta que nunca foi ensinada a organizar orçamento doméstico, calcular riscos ou planejar o futuro.
O impacto invisível: famílias em colapso
A inadimplência não é apenas financeira. Ela corrói relações.
- Casamentos entram em crise por dívidas ocultas.
- Pais endividados não conseguem planejar o futuro dos filhos.
- Jovens começam a vida adulta já negativados.
- Pequenos empreendedores fecham as portas por desorganização financeira.
O endividamento crônico gera:
- Desestruturação familiar
- Conflitos domésticos
- Ansiedade e depressão
- Violência decorrente de tensão econômica
- Desorganização social
Quando metade da população adulta está no vermelho, o problema deixa de ser individual e passa a ser civilizacional.
A raiz cultural do problema
Durante décadas, o Brasil negligenciou a formação econômica básica.
Ensina-se teoria política, ensina-se história, ensina-se conteúdos diversos — mas raramente se ensina:
- Como funciona o sistema bancário
- O que são juros compostos
- Como montar um orçamento
- Como empreender com responsabilidade
- Noções básicas de direito contratual
Essa lacuna produz adultos vulneráveis a armadilhas financeiras.
Não é apenas falta de renda. É falta de preparo.
Um caminho possível: educação financeira obrigatória
Em São Paulo, uma iniciativa concreta foi aprovada para enfrentar essa realidade.
O deputado Lucas Bove (PL) é coautor do Projeto de Lei 231/2023, que instituiu o Programa Jovem Paulista — convertido na Lei 17.743/2023.
O que a lei estabelece?
- Ensino de fundamentos de finanças
- Educação financeira prática
- Planejamento financeiro
- Noções de direito
- Empreendedorismo
- Preparação para o mercado de trabalho
A proposta foi apresentada conjuntamente pelos deputados Guto Zacarias (União) e Lucas Bove (PL), aprovada na Assembleia Legislativa de São Paulo e sancionada em setembro de 2023.
O objetivo é claro: formar jovens preparados para lidar com dinheiro antes de entrar na vida adulta.
Essa iniciativa foi destacada em encontros na Alesp como um passo decisivo para estruturar, de forma permanente, a educação financeira nas escolas públicas.
Por que isso é estratégico?
Se o jovem aprende no Ensino Médio:
- A diferença entre débito e crédito
- O impacto dos juros
- Como montar um plano de negócios
- O que é responsabilidade contratual
- Como planejar investimentos
Ele reduz drasticamente o risco de se tornar parte dos 81 milhões.
Educação financeira não é luxo. É política pública de prevenção social.
O desafio das próximas gerações
O Brasil precisa transformar essa pauta em prioridade nacional.
Governos futuros terão que enfrentar:
- O crescimento do crédito digital desregulado
- O avanço das apostas online
- O consumo impulsivo via redes sociais
- A falta de cultura de poupança
Sem educação financeira estruturada, o ciclo se repete.
E o número pode ultrapassar 90 milhões.
Um problema que exige coragem política
Não basta renegociar dívidas.
Não basta criar mutirões de crédito.
Não basta refinanciar.
É preciso atacar a raiz cultural.
A inadimplência em massa revela um país que nunca ensinou seus cidadãos a administrar recursos. Um país que estimulou consumo sem preparar consciência financeira.
Se metade da população adulta está no vermelho, isso não é azar. É falha estrutural.
Conclusão: formar antes de remediar
O Brasil precisa amadurecer e definir:
Ou continuará tratando a inadimplência como estatística anual,
ou começará a formar cidadãos financeiramente responsáveis.
O “Programa Jovem Paulista” mostra que é possível agir na base. Mas é preciso ampliar.
Se queremos menos violência, menos desestruturação familiar, menos colapso econômico doméstico, precisamos começar pela sala de aula.
Porque o verdadeiro combate à inadimplência não começa no banco.
Começa na formação.
E esse é um debate que os próximos governos não poderão mais adiar.
Sobre o Autor:
Camilo Calandreli é gestor cultural especializado em Gestão Pública e Museologia, ex-Secretário Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura no Governo Bolsonaro, autor de livros como:
- Um Breve Ensaio Sobre a Cultura no Brasil;
- Um Breve Ensaio Sobre a Agricultura no Brasil;
- Os Cinco Atributos do Cristão na Edificação de Uma Nação.
Graduado pela ECA-USP, pós-graduado em Administração e Gestão Pública Cultural (UFRGS), pós-graduação em Gestão Pública, Chefia de Gabinete e Assessoria Parlamentar (PUCRS), Gestão Cultural e Museológica (Universidad Miguel de Cervantes – Sevilla), além de MBA em Política, Estratégia, Defesa e Segurança Pública (ESG/Instituto Venturo) e pós-graduação em Desenvolvimento Nacional, Política e Liderança (ESD). Atuou no Congresso Nacional (2021–2024) no Gabinete da Deputada Federal Carla Zambelli e, desde 2025, é Assessor Parlamentar do Deputado Estadual SP Lucas Bove; 20/2/26)

