20/02/2026

81 milhões no vermelho: o retrato de um Brasil endividado até o limite

81 milhões no vermelho: o retrato de um Brasil endividado até o limite

Por: Camilo Calandreli

 

O Brasil encerrou 2025 com 81,2 milhões de pessoas inadimplentes — o equivalente a 49,7% da população adulta, segundo o Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas da Serasa.

Não é apenas um número. É um sinal de alerta nacional.

Metade dos adultos brasileiros está com o nome negativado. Metade do País vive sob a pressão de juros, cobranças, ligações insistentes e restrições de crédito. Isso não é um problema pontual. É estrutural. E, sobretudo, cultural.

 

Um País que consome antes de aprender

 

A inadimplência em massa não nasce apenas da crise econômica. Ela nasce de algo mais profundo: a ausência de educação financeira estruturada nas escolas e nas famílias.

O brasileiro médio aprende a parcelar antes de aprender a poupar. Aprende a usar crédito antes de entender juros compostos. Aprende a consumir antes de compreender planejamento.

Cartões, financiamentos, “12 vezes sem juros”, crédito fácil no aplicativo, apostas digitais, compras por impulso. Tudo ao alcance de um clique — sem qualquer preparo formativo consistente.

O resultado?

Uma geração adulta que nunca foi ensinada a organizar orçamento doméstico, calcular riscos ou planejar o futuro.

 

O impacto invisível: famílias em colapso

 

A inadimplência não é apenas financeira. Ela corrói relações.

 

  • Casamentos entram em crise por dívidas ocultas.
  • Pais endividados não conseguem planejar o futuro dos filhos.
  • Jovens começam a vida adulta já negativados.
  • Pequenos empreendedores fecham as portas por desorganização financeira.

 

O endividamento crônico gera:

 

  • Desestruturação familiar
  • Conflitos domésticos
  • Ansiedade e depressão
  • Violência decorrente de tensão econômica
  • Desorganização social

 

Quando metade da população adulta está no vermelho, o problema deixa de ser individual e passa a ser civilizacional.

 

A raiz cultural do problema

 

Durante décadas, o Brasil negligenciou a formação econômica básica.

Ensina-se teoria política, ensina-se história, ensina-se conteúdos diversos — mas raramente se ensina:

 

  • Como funciona o sistema bancário
  • O que são juros compostos
  • Como montar um orçamento
  • Como empreender com responsabilidade
  • Noções básicas de direito contratual

 

Essa lacuna produz adultos vulneráveis a armadilhas financeiras.

Não é apenas falta de renda. É falta de preparo.

 

Um caminho possível: educação financeira obrigatória

 

Em São Paulo, uma iniciativa concreta foi aprovada para enfrentar essa realidade.

O deputado Lucas Bove (PL) é coautor do Projeto de Lei 231/2023, que instituiu o Programa Jovem Paulista — convertido na Lei 17.743/2023.

 

O que a lei estabelece?

 

  • Ensino de fundamentos de finanças
  • Educação financeira prática
  • Planejamento financeiro
  • Noções de direito
  • Empreendedorismo
  • Preparação para o mercado de trabalho

 

A proposta foi apresentada conjuntamente pelos deputados Guto Zacarias (União) e Lucas Bove (PL), aprovada na Assembleia Legislativa de São Paulo e sancionada em setembro de 2023.

O objetivo é claro: formar jovens preparados para lidar com dinheiro antes de entrar na vida adulta.

Essa iniciativa foi destacada em encontros na Alesp como um passo decisivo para estruturar, de forma permanente, a educação financeira nas escolas públicas.

 

Por que isso é estratégico?

 

Se o jovem aprende no Ensino Médio:

 

  • A diferença entre débito e crédito
  • O impacto dos juros
  • Como montar um plano de negócios
  • O que é responsabilidade contratual
  • Como planejar investimentos

 

Ele reduz drasticamente o risco de se tornar parte dos 81 milhões.

Educação financeira não é luxo. É política pública de prevenção social.

 

O desafio das próximas gerações

 

O Brasil precisa transformar essa pauta em prioridade nacional.

Governos futuros terão que enfrentar:

 

  • O crescimento do crédito digital desregulado
  • O avanço das apostas online
  • O consumo impulsivo via redes sociais
  • A falta de cultura de poupança

 

Sem educação financeira estruturada, o ciclo se repete.

E o número pode ultrapassar 90 milhões.

 

Um problema que exige coragem política

 

Não basta renegociar dívidas.

Não basta criar mutirões de crédito.

Não basta refinanciar.

É preciso atacar a raiz cultural.

A inadimplência em massa revela um país que nunca ensinou seus cidadãos a administrar recursos. Um país que estimulou consumo sem preparar consciência financeira.

Se metade da população adulta está no vermelho, isso não é azar. É falha estrutural.

 

Conclusão: formar antes de remediar

 

O Brasil precisa amadurecer e definir:

 

Ou continuará tratando a inadimplência como estatística anual,
ou começará a formar cidadãos financeiramente responsáveis.

O “Programa Jovem Paulista” mostra que é possível agir na base. Mas é preciso ampliar.

Se queremos menos violência, menos desestruturação familiar, menos colapso econômico doméstico, precisamos começar pela sala de aula.

Porque o verdadeiro combate à inadimplência não começa no banco.

Começa na formação.

E esse é um debate que os próximos governos não poderão mais adiar.

 

Sobre o Autor:

 

Camilo Calandreli é gestor cultural especializado em Gestão Pública e Museologia, ex-Secretário Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura no Governo Bolsonaro, autor de livros como:

  • Um Breve Ensaio Sobre a Cultura no Brasil;
  • Um Breve Ensaio Sobre a Agricultura no Brasil;
  • Os Cinco Atributos do Cristão na Edificação de Uma Nação.

 

Graduado pela ECA-USP, pós-graduado em Administração e Gestão Pública Cultural (UFRGS), pós-graduação em Gestão Pública, Chefia de Gabinete e Assessoria Parlamentar (PUCRS), Gestão Cultural e Museológica (Universidad Miguel de Cervantes – Sevilla), além de MBA em Política, Estratégia, Defesa e Segurança Pública (ESG/Instituto Venturo) e pós-graduação em Desenvolvimento Nacional, Política e Liderança (ESD). Atuou no Congresso Nacional (2021–2024) no Gabinete da Deputada Federal Carla Zambelli e, desde 2025, é Assessor Parlamentar do Deputado Estadual SP Lucas Bove; 20/2/26)