06/11/2026

A bola está com Lula – Editorial O Estado de S.Paulo

A bola está com Lula – Editorial O Estado de S.Paulo

Com a decisão de manter a Selic em 13,75%, o BC dá a Lula a chance de sinalizar disposição para algum ajuste fiscal, criando o ambiente para a redução estrutural dos juros.

 

Ao manter a taxa básica de juros em 13,75% nesta semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) ganhou tempo para deixar o mercado financeiro se acomodar ao cenário pós-eleição. A julgar pelo lacônico comunicado divulgado após a reunião, não se pode afirmar que o Banco Central (BC) pretenda encerrar de vez o ciclo de redução da Selic, mas aumentar os juros em dezembro parece improvável.

 

De um lado, as expectativas para a inflação pioraram muito em pouco tempo e se distanciaram ainda mais da meta. Desde a reunião de setembro, as estimativas do Copom para o IPCA subiram de 5,2% para 5,6%, em 2026; de 3,9% para 4,7%, em 2027; e de 3,2% no primeiro trimestre de 2028 para 3,5% no segundo trimestre daquele ano. De outro, a economia desacelerou de maneira acentuada e o mercado de trabalho começa a dar sinais de desaquecimento, indicativo de que a Selic tem cumprido seu papel.

 

Parte do mau humor do mercado reflete o aumento das incertezas sobre a política econômica nas últimas semanas. Apostando na vitória de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial, os investidores montaram posições na expectativa de que o País faria um “tesouraço” nas contas públicas – uma crença baseada nas sinalizações dadas pela equipe de Flávio ao mercado, já que, em público, o candidato defendia o oposto.

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, jamais escondeu o incômodo com cobranças nesse sentido – nem em público nem em privado. A queda nos preços das ações e a disparada do câmbio e da curva de juros futuros, portanto, refletiram mais uma correção de rota em direção ao cenário pré-eleição, no qual um ajuste fiscal mais duro estava completamente descartado, do que uma efetiva degradação dos ativos brasileiros.

 

Pouco ajudam a vagueza do petista desde a vitória e sua recusa em indicar de uma vez um nome com credibilidade para liderar o Ministério da Fazenda. É o que tem dado azo a especulações de toda ordem, entre as quais a possibilidade de que economistas que defendem a redução dos juros na marra tenham influência nos rumos de seu quarto mandato.

 

Se essa piora será absorvida ou revertida, só o tempo dirá. O certo é que há um considerável prêmio de risco embutido nos preços dos ativos da economia brasileira. Para reduzi-lo, Lula precisa abandonar de uma vez por todas uma retórica tão contraproducente para a imagem de seu próprio governo, como classificar de “babaquice” a busca por superávit primário – que, junto com as metas de inflação e o câmbio flutuante, forma o “tripé macroeconômico” que garantiu a estabilidade desde o Plano Real.

 

É o tipo de declaração que abala a confiança dos investidores e obriga o Banco Central a pisar em ovos ao admitir que “os desenvolvimentos da política fiscal doméstica” causam impactos na política monetária e nos ativos financeiros, reforçam a “postura de cautela em cenário de maior incerteza” e contribuem para aumentar o “custo de desinflação”.

 

Por outro lado, o exterior pode nos ajudar. A vitória democrata nas eleições legislativas nos Estados Unidos gerou expectativas de que a guerra no Oriente Médio pode estar mais próxima do fim, derrubando a cotação do barril de petróleo e as curvas de juros mundo afora, inclusive no Brasil. Mesmo com o recuo nas ações da Petrobras, o Ibovespa voltou a subir, depois de seis quedas consecutivas, e o dólar recuou ante o real.

 

Embora Lula não tenha se manifestado publicamente sobre os juros, as duras críticas dos petistas provavelmente ecoam a opinião do presidente, desde sempre irritado com a disposição do BC de manter a taxa nas alturas. Está nas mãos de Lula, no entanto, criar condições para que o Banco Central volte a reduzi-la em breve.

 

Espera-se que Lula não desperdice a oportunidade de mostrar compromisso com as contas públicas no pronunciamento que pretende fazer no fim de semana em cadeia nacional de rádio e TV. Quem sabe agora, que já foi reeleito e não poderá mais disputar um novo mandato presidencial, Lula consiga finalmente descer do palanque e evitar um ambiente de inflação elevada e crescimento econômico pífio – o pior dos mundos para qualquer governante (Estadão, 6/11/26)