01/09/2026

A fome não pode entrar no cardápio eleitoral – Por Rodrigo Simões

A fome não pode entrar no cardápio eleitoral – Por Rodrigo Simões

Segurança alimentar é assunto sério demais para caber apenas em anúncios, solenidades e calendários políticos. Em pleno ano eleitoral, o governo federal coloca em marcha um novo protocolo contra a fome. A iniciativa pode ter mérito. Mas também merece uma pergunta incômoda: por que políticas destinadas a localizar rapidamente quem passa fome ainda precisam ser apresentadas como novidade no último ano de um mandato?

 

O PROTOCOLO CHEGOU. EM 2026

 

Em janeiro, o governo federal instituiu o Protocolo Brasil Sem Fome, destinado a articular segurança alimentar, saúde e assistência social na identificação e no atendimento de pessoas e famílias em risco de insegurança alimentar grave.

A intenção declarada é correta: localizar quem precisa de ajuda e fazer com que diferentes áreas do poder público atuem conjuntamente.

A questão política é outra.

Estamos em 2026.

Último ano do mandato.

Ano eleitoral.

É legítimo perguntar por que uma articulação dessa natureza não ganhou a mesma centralidade, velocidade e visibilidade muito antes.

 

FOME NÃO CONHECE CALENDÁRIO ELEITORAL

 

Quem precisa colocar comida na mesa não pode esperar janeiro de ano eleitoral.

Fome não consulta pesquisa.

Não acompanha convenção partidária.

Não espera horário eleitoral.

Políticas públicas sérias precisam ter continuidade, planejamento, avaliação e presença permanente.

O combate à insegurança alimentar não pode ser confundido com uma coleção de anúncios. Precisa produzir resultado na ponta — principalmente na casa daquele brasileiro para quem o supermercado se tornou uma operação matemática cada vez mais difícil.

 

A PICANHA VIROU SÍMBOLO

 

A famosa discussão eleitoral sobre a “picanha” acabou transformada num símbolo político muito maior que um corte de carne.

O brasileiro julga um governo quando chega ao supermercado.

É ali que discurso encontra preço.

É ali que promessa encontra orçamento.

E é ali que uma família descobre quanto realmente cabe dentro do carrinho.

Política social não pode ser medida pela beleza do anúncio. Deve ser medida pelo poder de compra, pela qualidade da alimentação e pela capacidade de uma família viver com dignidade.

 

AS PESQUISAS ACENDERAM O ALERTA

 

Os levantamentos mais recentes mostram uma eleição competitiva e um sinal evidente de desgaste.

No Datafolha divulgado neste mês, a avaliação ruim ou péssima do governo Lula passou de 38% para 41%, enquanto 50% disseram desaprovar o trabalho do presidente.

No PoderData divulgado em 27 de agosto, Lula aparece com 38% contra 35% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e 45% a 44% num eventual segundo turno — empate técnico considerada a margem de erro.

Governo está despencando.

 

SEGURANÇA ALIMENTAR NÃO É SLOGAN

 

Esse talvez seja o ponto central.

Segurança alimentar não significa apenas evitar a fome extrema.

Significa garantir acesso regular a alimentos em quantidade e qualidade adequadas, fortalecer a produção, organizar abastecimento, promover educação alimentar e construir políticas públicas capazes de sobreviver aos governos.

É trabalho permanente.

E deveria estar acima de disputa partidária.

 

SÃO PAULO ESCOLHEU A CAPILARIDADE

 

Em São Paulo, existe uma estrutura que merece atenção exatamente porque procura aproximar a discussão da realidade dos municípios.

O CONSEA-SP atua articulado às 16 Comissões Regionais de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável — CRSANS, criando canais regionais de participação e permitindo que demandas diferentes de um Estado com 645 municípios cheguem ao debate estadual.

Esse modelo possui uma virtude fundamental: capilaridade.

Segurança alimentar em Ribeirão Preto não possui necessariamente os mesmos desafios de Registro, Presidente Prudente, Santos ou da Região Metropolitana.

Ouvir os territórios é indispensável.

 

SOCIEDADE CIVIL SENTADA À MESA

 

Outro princípio relevante desse sistema paulista é a participação social.

A presença majoritária da sociedade civil, ao lado do poder público, permite que o debate não permaneça restrito aos gabinetes.

Produtores, entidades, especialistas, organizações sociais e representantes regionais ajudam a transformar experiências locais em informação para políticas públicas.

O CONSEA-SP ganha importância justamente quando exerce essa função: ouvir, organizar, discutir tecnicamente e levar as diferentes realidades do Estado para a formulação das políticas de segurança alimentar.

Sem espetáculo.

Com participação.

 

COM FOME NÃO SE FAZ POLÍTICA. FAZ-SE POLÍTICA PÚBLICA

 

O Brasil não precisa transformar segurança alimentar em batalha de versões.

Nem Brasília deveria comemorar estatísticas ignorando quem ainda sofre para comprar alimentos, nem a oposição deveria negar avanços comprovados porque eles aconteceram sob outro governo.

O assunto é maior.

São Paulo tem mostrado que participação regional, estrutura permanente e diálogo com a sociedade civil são caminhos importantes para tratar segurança alimentar com a dimensão que ela exige.

Porque protocolo pode ser assinado em janeiro.

Campanha termina em outubro.

Mandatos começam e acabam.

 

A fome, infelizmente, não respeita calendário eleitoral.

E é exatamente por isso que segurança alimentar precisa ser tratada todos os dias — com planejamento, continuidade, transparência e, acima de tudo, respeito às pessoas.

 

(Rodrigo Simões; Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP; 1/9/26)