A força das ruas contra o silêncio da tortura na capital – Por Paula Sousa
O sol forte de domingo sobre a capital do País não era apenas uma condição climática; era o cenário de um encontro entre a alma de um povo e o asfalto quente. No último dia 11, o que se viu nas largas avenidas não foi um simples desfile de veículos. Foi um movimento de resistência silenciosa que se transformou em um barulho ensurdecedor de esperança. Milhares de cidadãos, movidos por um sentimento de amor à pátria e preocupação com o futuro, ocuparam os espaços públicos para dizer que a chama da liberdade ainda arde, mesmo sob ventos contrários.
Enquanto as bandeiras tremulavam nas janelas dos carros, o contraste com o que acontece entre quatro paredes de concreto não poderia ser mais doloroso. O brilho dos olhos de quem estava nas ruas se opõe à escuridão e ao isolamento enfrentado por aqueles que hoje se encontram privados do convívio social. Existe um abismo entre o Brasil que clama por justiça nas praças e o Brasil que sofre em silêncio dentro das celas.
O grito de quem não pode calar
A manifestação que tomou conta das imediações daquele ponto turístico tão conhecido da capital foi a prova viva de que a conexão entre um líder e sua gente não se apaga com ordens judiciais ou muros altos. Pessoas comuns, que deixaram seus lares e suas famílias, mostraram que a voz do povo é a única que deveria ter o poder de ditar os rumos de uma nação. A organização, liderada por figuras que decidiram não mais se omitir diante do que consideram injustiças, revelou um desejo profundo de mudança.
No entanto, essa energia cívica carrega uma carga de tristeza. O motivo de estarem ali é urgente: a percepção de que os direitos mais básicos estão sendo ignorados. A luta por uma revisão nas punições impostas pelo Judiciário é vista apenas como um pequeno passo, um curativo em uma ferida que exige uma cura muito mais profunda. Para muitos daqueles manifestantes, o que deveria ocorrer não é um ajuste de penas, mas a anulação completa de processos que, carecem de base legal e isenção.
A agonia no escuro
Por trás das grades, a realidade é cruel. Relatos que chegam ao conhecimento público pintam um quadro de sofrimento que desafia a compreensão humana. Imaginem um homem que ocupou a cadeira mais alta da nação, agora em uma situação de fragilidade tamanha que chega a clamar por um descanso final. O sofrimento físico, agravado por ferimentos mal explicados e pela falta de um atendimento médico imediato e transparente, é um golpe na dignidade.
A resistência em permitir que exames sejam feitos em locais de confiança, o impedimento de avaliações médicas externas e a negação de cuidados básicos são sinais que preocupam qualquer defensor da integridade humana. Quando uma esposa relata ver seu companheiro desorientado, com marcas de dor física e confusão mental, o coração de uma nação se aperta. Não se trata de política; trata-se de humanidade. Onde está o limite entre a aplicação da lei e a imposição do sofrimento desnecessário?
O peso de uma Justiça desproporcional
Essa dor não é exclusiva de um homem só. Ela se estende a centenas de brasileiros que viram suas vidas destruídas por decisões exageradas e desumanas. Condenar pais e mães de família a quase duas décadas de prisão por atos que, em qualquer democracia equilibrada, seriam tratados com moderação, é uma forma de tortura psicológica. Punir com tamanha severidade quem cometeu atos simbólicos é uma mensagem de medo, não de justiça.
Essas pessoas, muitas vezes simples e sem recursos para grandes defesas, tornaram-se o rosto de uma perseguição que ignora o devido processo. Estão sendo julgadas por quem se sente alvo, o que fere o princípio de que ninguém pode ser juiz e vítima ao mesmo tempo. A falta de isenção transforma o tribunal em um palco de demonstração de força, onde o direito de defesa se torna apenas uma formalidade sem efeito.
O despertar da consciência
O cenário atual, marcado por prisões que parecem eternas e por uma vigilância constante sobre quem ousa discordar, assemelha-se a tempos sombrios que o mundo esperava ter deixado para trás. Quando o Estado se torna o agressor e a justiça se fecha para a misericórdia, a democracia entra em uma UTI silenciosa.
A denúncia apresentada aos órgãos superiores de fiscalização sobre o tratamento dispensado ao ex-mandatário é um marco. É o registro histórico de que houve quem tentasse impedir o pior. Mesmo que as respostas demorem a vir, o documento está lá, servindo de prova para as futuras gerações de que o direito à integridade física e mental foi violado.
A esperança no horizonte
O povo brasileiro é conhecido por sua paciência, mas também por sua resiliência. A carreata deste último domingo foi apenas o começo de um ciclo que promete ganhar força nos próximos meses.
O desejo é claro: que a lei seja aplicada por quem tem competência legal para isso, em fóruns adequados, com juízes imparciais e com respeito total aos direitos humanos. O povo não pede favores; pede que a Constituição seja o escudo de todos, e não a espada de alguns contra outros.
Enquanto houver uma única voz disposta a gritar por liberdade, enquanto houver uma única bandeira sendo erguida em sinal de protesto, a esperança não morrerá. A tortura, seja ela física ou psicológica, pode dobrar o corpo, mas raramente consegue quebrar o espírito de quem sabe que luta pelo que é certo. Que o clamor das ruas chegue aos ouvidos de quem ainda pode mudar o curso da história, antes que o silêncio das celas se torne a marca definitiva de uma era de escuridão.
O Brasil que trabalha, que reza e que ama sua terra está atento. E ele não descansará até que a justiça volte a ser cega para os nomes e aberta para a verdade. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 12/1/2026)

