23/09/2026

A organização que deu confiança ao cooperativismo paulista

A organização que deu confiança ao cooperativismo paulista

Por Rodrigo Simões

 

Em 1939, enquanto o cooperativismo avançava pelo Estado, o Departamento de Assistência ao Cooperativismo estruturava registros, fiscalização, contabilidade e arquivos para acompanhar esse crescimento. Os documentos preservados por Otacílio Tomanik revelam que a confiança no sistema também foi construída com método, números e responsabilidade.

 

Folhear as páginas amareladas do relatório de 1939 é descobrir que parte importante da história do cooperativismo paulista foi construída longe dos discursos e das solenidades. Foi construída sobre mesas cobertas de documentos, fichas, balancetes, balanços, atas, certificados e relatórios. Papéis que precisavam ser conferidos, classificados, analisados e arquivados para que um movimento econômico e social em expansão pudesse crescer sobre bases seguras.

 

Os registros preservados por Otacílio Tomanik revelam com extraordinária riqueza esse trabalho.

 

Naquele ano, a Secção de Registro e Fiscalização do Departamento de Assistência ao Cooperativismo vivia uma transformação. O próprio relatório registra que mudanças legais e administrativas ocorridas a partir de 1938 haviam aumentado consideravelmente o volume de trabalho confiado ao setor. A reforma da repartição permitira incorporar novos elementos e ampliar sua capacidade de atuação.

 

Era necessário. O cooperativismo crescia e, com ele, crescia também a responsabilidade do Estado em acompanhar as organizações que surgiam e aquelas que já estavam em funcionamento.

 

O primeiro desafio era o registro.

 

Das 41 sociedades anteriormente registradas, 29 precisaram ser novamente anotadas, para adequação à legislação vigente. Ao final de 1939, o documento registra 154 sociedades inteiramente regularizadas, das quais 133 receberam suas cartas de registro.

 

Os números ajudam a compreender a dimensão da mudança.

 

Não se tratava simplesmente de preencher formulários ou produzir documentos administrativos. Registrar uma cooperativa significava inseri-la em um sistema organizado, verificar sua situação e oferecer uma referência institucional para seu funcionamento.

 

Logo depois vinha uma tarefa ainda mais complexa: fiscalizar.

 

O relatório de 1939 é bastante claro ao classificar a fiscalização como um serviço de “real importância”. A atividade, iniciada no começo daquele ano, deveria ser ampliada e realizada periodicamente e in loco nas sociedades cooperativas existentes em São Paulo.

 

Inspectores e subinspectores percorriam o Estado seguindo instruções da Secção. O trabalho incluía o preenchimento de boletins mensais e semestrais, formulários sobre diretorias e a obtenção de informações detalhadas sobre as relações das cooperativas com os fiscos federal, estadual e municipal.

Mas a fiscalização ia muito além dos documentos.

 

Os técnicos buscavam conhecer as atividades das cooperativas, identificar razões para seu crescimento ou causas que dificultavam seu desenvolvimento, verificar as relações mantidas com os associados e colher informações junto a prefeituras, coletores e autoridades locais sobre o funcionamento dessas organizações.

 

Há um detalhe particularmente interessante: até mesmo firmas comerciais que utilizavam a denominação “cooperativa” eram objeto de atenção.

Também eram recolhidas cópias das atas de assembleias gerais ordinárias e extraordinárias, juntamente com seus editais de convocação, além de informações sobre alterações nos estatutos.

 

Ao final, o Departamento pretendia possuir uma visão completa de cada sociedade.

 

O relatório resume essa preocupação ao demonstrar que a fiscalização permitia conhecer o que ocorria nas cooperativas sob os aspectos social, econômico, administrativo, contábil e financeiro.

 

Quase nove décadas depois, é difícil não enxergar nessa estrutura conceitos que hoje associamos à governança, à transparência, à conformidade e à gestão profissional.

 

As ferramentas mudaram. O princípio, não.

 

Outro avanço registrado em 1939 foi a padronização da contabilidade das cooperativas.

 

Durante aquele exercício, a Secção dedicou atenção especial ao tema. Foram elaboradas sete publicações contendo instruções, normas, modelos e regras de contabilidade, posteriormente editadas e distribuídas aos interessados.

 

O resultado registrado pelo próprio Departamento merece destaque: praticamente todas as cooperativas em funcionamento no Estado passaram a ter suas escriturações padronizadas e em ordem.

 

Padronizar significava criar uma linguagem comum.

 

Significava permitir que os números fossem compreendidos, comparados e fiscalizados com maior segurança. Significava também oferecer às próprias cooperativas melhores instrumentos para administrar suas atividades.

 

E os documentos mostram que não era uma preocupação apenas teórica.

 

Durante o exercício foram examinados 460 balancetes e 10 balanços de cooperativas. O relatório registra que falhas e lacunas existentes na escrituração puderam ser corrigidas a partir desse trabalho e atribui aos estudos realizados, aliados à padronização contábil, papel importante na prevenção de irregularidades.

 

É uma passagem extremamente atual.

 

Hoje, sistemas digitais produzem relatórios em segundos, cruzam informações e permitem acompanhar indicadores quase instantaneamente. Em 1939, esse controle dependia do trabalho humano sobre centenas de documentos datilografados e manuscritos.

 

Mas o objetivo era essencialmente o mesmo: transformar números em informação capaz de orientar decisões e proteger as organizações.

 

É justamente nesse ponto que outro item aparentemente burocrático ganha enorme importância histórica: o Fichário e Arquivo.

 

O fichário existente na Secção foi reorganizado e ampliado. Nele eram reunidas informações relacionadas à situação jurídica, social e econômica de cada uma das cooperativas sob controle do Departamento.

 

O arquivo também passou por reorganização, obedecendo a critérios de classificação por ordem alfabética e cronológica.

 

Hoje chamaríamos isso de organização de dados.

 

Naquela época, eram fichas, pastas, papéis e arquivos físicos. Cada informação precisava ser lançada, classificada e guardada manualmente.

E é justamente essa dedicação ao registro que torna possível, tantas décadas depois, reconstruir parte dessa história.

 

O Movimento Geral da Secção oferece talvez o retrato mais impressionante da intensidade daquele trabalho.

 

Somente em 1939 foram registradas 1.790 anotações em fichas, estudados os 460 balancetes e 10 balanços, expedidas 133 cartas de registro, produzidas cópias e circulares e movimentado um enorme volume de documentos.

 

As páginas seguintes ampliam ainda mais essa dimensão: aparecem milhares de exemplares expedidos, fichas jurídicas, econômicas e de balancetes, despachos, estudos de documentos, informações, movimentação de autos, ofícios, papéis recebidos, pessoas atendidas, registros de cooperativas, relatórios e viagens.

 

É a burocracia no melhor sentido da palavra: organização a serviço de uma política pública.

Por trás de cada número havia uma cooperativa. Por trás de cada cooperativa, produtores, trabalhadores, associados e comunidades que dependiam da confiança naquele sistema.

É nesse contexto que a figura de Otacílio Tomanik volta a ocupar lugar central nesta série.

 

Ao preservar esses relatórios e documentos, Tomanik permitiu que aquilo que poderia ter permanecido apenas como rotina administrativa se transformasse em memória. Seus registros mostram um Estado que procurava conhecer profundamente o cooperativismo que ajudava a organizar.

 

E talvez esteja aí uma das maiores lições dessas páginas de 1939.

O cooperativismo paulista não cresceu apenas porque novas cooperativas foram criadas. Cresceu também porque houve preocupação em registrar, fiscalizar, orientar, padronizar e acompanhar.

 

Havia método.

Havia controle.

Havia informação.

E havia a compreensão de que confiança não nasce apenas da boa intenção. Ela precisa ser construída todos os dias por instituições organizadas, contas transparentes e responsabilidades claramente definidas.

O paralelo com o presente surge naturalmente.

 

Hoje dispomos de tecnologia, sistemas integrados, bancos de dados e ferramentas de gestão que aqueles servidores de 1939 jamais poderiam imaginar. Mas nenhuma inovação substituiu os fundamentos que aquelas páginas já registravam: informação confiável, acompanhamento permanente, organização administrativa e responsabilidade na gestão.

 

Os instrumentos evoluíram.

Os princípios permaneceram.

E talvez seja justamente essa a grande contribuição dos documentos preservados por Otacílio Tomanik: mostrar às novas gerações que a força de uma instituição não está apenas no tamanho que alcança, mas também na solidez das bases sobre as quais foi construída.

 

As páginas estão amareladas pelo tempo.

Os números, porém, continuam falando.

E contam a história de um cooperativismo paulista que, já em 1939, compreendia uma verdade que permanece atual: para crescer com segurança, é preciso primeiro organizar para gerar confiança (Rodrigo Simões; Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP; 23/9/26)