15/06/2026

A universidade que o Brasil não construiu – Editorial O Estado de S.Paulo

A universidade que o Brasil não construiu – Editorial O Estado de S.Paulo

Como mostram os rankings internacionais, a universidade brasileira perderá se não se abrir para o mundo e para o setor produtivo e não adotar governança profissional e meritocracia.

 

Quase 90% das universidades brasileiras caíram no ranking do Center for World University Rankings (CWUR). A principal razão foi a piora dos indicadores de pesquisa. Não se deve atribuir valor excessivo aos rankings. Seus critérios e metodologias podem ser questionados. No detalhe pode haver idiossincrasias estatísticas. Mas no conjunto o ranking capta uma degradação sistêmica.

 

O Brasil tem uma deficiência crônica de produtividade, cresce menos do que poderia e sofre para transformar conhecimento em inovação. Nesse contexto, universidades têm um papel estratégico. Formam profissionais, produzem pesquisa e preservam e renovam o patrimônio intelectual de uma sociedade, determinando sua capacidade de competir numa economia cada vez mais baseada em conhecimento e tecnologia.

 

O País expandiu significativamente o acesso ao ensino superior. Multiplicaram-se vagas, matrículas, campi e diplomas. Uma sociedade complexa e urbana não pode limitar a educação superior a uma pequena elite. O problema é que a expansão avançou sem que o sistema fosse redesenhado para sua nova escala. O Brasil massificou a educação superior preservando uma arquitetura concebida para um universo muito menor. Objetivos distintos operam em estruturas homogêneas.

 

Em todo o mundo, a ampliação do acesso veio acompanhada de diferenciação institucional. Universidades de pesquisa coexistem com faculdades voltadas ao ensino, institutos tecnológicos, cursos mais curtos e trajetórias profissionais variadas. Cada instituição responde a missões específicas. A eficiência e o prestígio acadêmicos não dependem de todas fazerem a mesma coisa.

 

O Brasil seguiu outro caminho. A universidade tradicional tornou-se a referência para o sistema inteiro. A pesquisa passou a ser uma aspiração difusa, mesmo onde faltavam escala, recursos ou vocação para sustentá-la. Ao mesmo tempo, modalidades voltadas à formação tecnológica e profissional permaneceram em posição secundária. O resultado é um sistema que patina, simultaneamente, na educação em larga escala e na produção de pesquisa de classe mundial.

 

O impacto internacional da atividade científica é abaixo da crítica para um país do porte do Brasil. A inserção em redes globais é limitada. O intercâmbio de professores e estudantes é provinciano. A distância entre universidades, empresas e ambientes de inovação é grande. Estruturas administrativas burocráticas e rígidas dificultam ajustes, recrutamento de talentos, parcerias e estratégias de longo prazo.

 

Não é que o País precise optar entre inclusão e excelência. As experiências bem-sucedidas mostram o contrário. Países que ampliaram rapidamente sua capacidade científica e tecnológica construíram sistemas diversos, capazes de acomodar funções distintas. Algumas instituições concentram pesquisa de ponta. Outras se dedicam à formação profissional. Há espaço para ambas.

 

Uma universidade forte é indispensável para o crescimento econômico, mas não só: ela amplia horizontes intelectuais, forma lideranças cívicas, produz conhecimento e fortalece a capacidade de uma sociedade compreender e enfrentar seus desafios. Num mundo moldado pela revolução digital e pela competição tecnológica, esse patrimônio tornou-se ainda mais valioso.

 

O debate sobre o ensino superior brasileiro costuma se concentrar na disputa por recursos ou na expansão do acesso. São temas relevantes. Mas a universidade não pode ser reduzida a instrumento de “justiça social”. O País precisa de um sistema mais coerente com as exigências da educação superior de massas e da economia do conhecimento. Isso exige universidades de pesquisa mais fortes, percursos tecnológicos mais valorizados, autonomia acompanhada de responsabilização por desempenho, maior integração internacional e formas eficazes de sinergia entre produção científica, inovação tecnológica e atividade produtiva.

 

O desafio brasileiro é estrutural e mais profundo. Trata-se de construir instituições capazes de transformar expansão em qualidade, conhecimento em inovação e talento em prosperidade. Nenhum ranking dará a receita para esse trabalho. Mas poucos indicadores lembram com tanta clareza o quanto ele continua inacabado (Estadão, 14/6/26)