Acionistas de BRF e Marfrig aprovaram fusão das companhias
Processo de votação foi concluído nesta terça-feira em assembleia.
Os acionistas da BRF e da Marfrig aprovaram nesta terça-feira (5/8) a proposta de fusão das companhias, que criará a MBRF, empresa de R$ 152 bilhões em receita líquida, sob controle do empresário Marcos Molina. Embora o resultado das votações já fosse esperado, as ações das companhias passaram por ajustes na B3. Enquanto os papéis da BRF caíram 0,71%, a R$ 19,49, os da Marfrig subiram 3,8%, a R$ 22,14.
Com as votações, a decisão agora depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Na sexta-feira (1), o relator do caso e atual presidente do colegiado, Gustavo Lima, publicou despacho em que determinou “a conversão do presente ato de concentração de sumário para ordinário”.
No documento, ele afirmou que as empresas “deverão apresentar nova notificação, em sua forma ordinária, no prazo de 15 dias corridos contados da publicação deste despacho”, que ocorreu em 1 de agosto. Essa mudança precisa agora ser votada pelo plenário do Cade, que deve se reunir nesta quarta-feira (6).
Em comunicado, as duas companhias disseram que “seguem confiantes na finalização da operação, que também passa pela aprovação do Cade”.
A Superintendência do Cade já havia aprovado a operação em junho, mas voltou a analisar o caso provocada pela Minerva Foods, e mais recentemente pelo fundo Nova Almeida Participações, da gestora Latache, que é acionista e minoritária de BRF e Marfrig.
Votação
A Latache votou contra a operação, mas foi voto vencido e com ampla diferença. A assembleia da BRF teve quórum de 90% dos acionistas, e os votos favoráveis à fusão alcançaram 78,39% dos votos totais. Atualmente, o bloco de controle da BRF — formado por Marfrig e pelo fundo árabe Salic — tem 69,9% de participação, e os minoritários, 25,3%.
Boa parte dos votos dos acionistas da BRF havia sido dado à distância. Nessa modalidade, 43,8% dos votos foram favoráveis (71,5% dos votos válidos).
A assembleia da Marfrig contou com quórum de 86,74% dos acionistas, e a aprovação se deu por 86,71% dos votos totais. A companhia é controlada pela família Molina, com 75,3% de participação.
A BRF afirmou em nota que a aprovação teve “validação da maioria dos minoritários”, o que “reforça a confiança no processo”. Segundo a empresa, a fusão foi “conduzida com higidez e em estrita conformidade com os protocolos legais e regulatórios aplicáveis, seguindo as melhores práticas de governança corporativa”.
A votação da proposta, porém, atrasou em meio a críticas de acionistas minoritários. Investidores como o Latache questionaram a base de cálculo para a conversão das ações da BRF em papéis da Marfrig, e foram a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) pedir o adiamento das assembleias. Pela proposta aprovada, cada ação da BRF será convertida em 0,8521 ação da Marfrig.
O principal oponente da operação era a Previ, que foi um acionista histórico da BRF e avaliava que a relação de troca de ações não refletia o valor justo da dona da Sadia. Porém, a Previ acabou vendendo suas ações em 14 de julho.
A Latache continua com ações da BRF e aposta em uma reavaliação do processo pelo Cade. O Valor apurou que a gestora também avalia recorrer da ação que perdeu no Tribunal Regional Federal (TRF). Procurada, a Latache não quis comentar.
Movimento no mercado
Embora as decisões já fossem esperadas, as ações das empresas seguiram a tendência dos últimos meses. Para Daniel Utsch, gestor de renda variável da Nero Capital, o movimento reflete uma correção após dúvidas sobre a aprovação, dado o histórico de adiamentos das votações. “A probabilidade de essas assembleias não acontecerem já foi considerada razoavelmente grande, mas depois foi diminuindo e agora aconteceram.”
Para ele, agora o negócio está praticamente concluído. “Ainda existia um pequeno prêmio para BRF até segunda-feira. Por isso que a Marfrig subiu e a BRF caiu, tornando essa relação de troca mais parecida com a de uma transação normal”, avaliou.
Para Utsch, os questionamentos no Cade têm pouca chance de alterar o rumo da transação. “O mercado precifica a probabilidade. É por isso que agora o desconto [de uma ação em relação a outra] está em 2%, porque é uma probabilidade muito baixa”, afirmou.
Na avaliação do Bank of America (BofA), as ações da Marfrig não têm mais muito espaço para alta. Em relatório divulgado nesta terça-feira, o banco manteve sua recomendação neutra para as ações, com preço-alvo em R$ 26,50.
Para Isabella Simonato, Julia Zaniolo e Fernando Olvera, analistas do BofA, o valuation da Marfrig ainda não é “atrativo”, já que os papéis estão com prêmio de 23% sobre as ações da JBS, sendo que a alavancagem da Marfrig é de 4 vezes, e a da JBS está em 2,2 vezes. “Nós vemos um upside limitado para as ações da Marfrig, após os papéis dispararem para refletir a proporção da fusão com a BRF.”
Os minoritários que discordaram do processo terão 30 dias a partir de hoje para exercer seu direito de recesso, o que lhes garante a possibilidade de venda de suas ações antes da conclusão da fusão (Globo Rural, 5/8/25)

