Acorda, direita: O jogo é real - Por Paula Sousa

Acorda, direita: O jogo é real - Por Paula Sousa
02/04/2026

Imagem Rerodução Associação Conservadora de Direita de Toledo (PR)

 

Muita gente na direita vive hoje em uma bolha perigosa, achando que a eleição já está no bolso porque "todo mundo que eu conheço é conservador". Cuidado. Esse excesso de confiança é o primeiro passo para a derrota.

 

O Brasil é, sim, conservador, mas não do jeito que você imagina.

 

O mito da maioria pronta

 

Existe uma ideia espalhada por aí de que a maioria do povo brasileiro é "bolsonarista raiz" e que basta bater o pé nas pautas mais extremas que a vitória vem sozinha.

 

Isso é um erro estratégico gigante. Se o povo fosse tão puramente conservador e ideológico assim, como explicamos o PT ter vencido tantas eleições presidenciais? Um povo 100% conservador jamais daria tantos mandatos para a esquerda.

 

A verdade é que o brasileiro médio é conservador nos costumes, mas ainda é profundamente estatista e assistencialista no bolso.

 

O brasileiro é religioso, é contra o aborto, é contra a liberação das drogas e defende a família. Mas, ao mesmo tempo, esse mesmo brasileiro foi criado sob o manto da mídia tradicional e de uma cultura que ensinou que o Estado é um "pai" que deve dar tudo. Ele quer a vaga na creche, quer a ponte na cidade, quer o benefício no final do mês e, muitas vezes, não quer saber se o político que deu isso é de direita, de esquerda ou de Marte.

 

O eleitor do "vi vantagem" e o silêncio da política

 

Precisamos encarar o fato de que uma parcela enorme da população não respira política 24 horas por dia como nós. Eles foram criados com aquela frase antiga: "política, futebol e religião não se discute" e que todo político é ladrão.

 

Esse povo quer trabalhar, chegar em casa, tomar uma cerveja e ver o jogo. Eles só vão se importar de verdade com quem está em Brasília quando o pacote de café de 500g chegar a R$ 50,00.

 

O voto desse eleitor é o voto do "vi vantagem". É o pragmatismo puro. Se o deputado do centrão conseguiu uma ambulância para o município, ele ganha o voto, independentemente da ideologia ou da honetidade.

 

É esse eleitor, que não é politizado e que flutua conforme a conveniência, que decide a eleição. E se a direita se recusar a falar com esse pessoal por "pureza ideológica", a esquerda vai lá e fala.

 

Flávio Bolsonaro e a estratégia do mundo real

 

Aqui entra o ponto que faz muita gente da "direita raiz" torcer o nariz: as alianças. Tem gente reclamando que o Flávio Bolsonaro está conversando com o Centrão, fazendo acordos com figuras como Ciro Gomes ou até se aproximando de antigos desafetos. Chamam isso de "traição".

 

Parem e pensem: isso não é ir para o Centrão, é trazer o Centrão para a direita.

 

Para ganhar uma eleição presidencial no Brasil, você precisa de uma Frente Ampla. No segundo turno, o voto da direita convicta já está garantido. O desafio é conquistar o pessoal do meio, os eleitores de Caiado, de Zema, e até aqueles que hoje votam no Centrão.

 

Se o Flávio ficar isolado em um canto, gritando apenas para quem já concorda com ele, ele não vence. Ele precisa engolir sapos, costurar apoios e fazer concessões que, embora amargas, são o combustível da vitória.

 

A metáfora do tratador de porcos

 

O Estado brasileiro muitas vezes funciona como aquele tratador que joga lavagem para os porquinhos. Os porcos ficam felizes, adoram a comida fácil e acham o tratador um herói.

 

O problema é que eles esquecem que a comida serve apenas para engordá-los para o abate.

 

O político que oferece o "almoço grátis" hoje é o mesmo que vai cobrar a conta amanhã através da inflação e da destruição da economia.

 

O nosso papel é mostrar isso para o povo, mas com inteligência. Não adianta chegar com arrogância e chamar o eleitor de burro. É preciso entender que esse processo de "amadurecimento" é lento. Até 2010, quase ninguém falava em privatização ou em redução do Estado. Ser de direita era quase um palavrão. Esse cenário está mudando graças à internet e à perda de força da mídia tradicional, mas a Rede Globo e companhia ainda têm um poder enorme sobre a cabeça de milhões de brasileiros.

 

A janela de oportunidade

 

O PT já está com o calendário na mão. Eles sabem que, após o fechamento da janela partidária em abril, o alvo será o Flávio Bolsonaro.

 

Vão usar todas as armas: fake news, ataques pessoais e tentativas de minar sua imagem perante o centro. Eles esperam que ele caia nas pesquisas para que a direita se desespere.

 

Mas Flávio está preparado. Lula e o PT dificilmente conseguirão reverter a rejeição que já ultrapassa os 50%, de acordo com as últimas pesquisas.

 

A campanha de fato ainda não começou e a direita precisa de uma coisa: maturidade política.

 

Não se ganha guerra apenas com coragem; ganha-se com estratégia.

 

Conclusão: É hora de crescer

 

O eleitor de direita precisa parar de caçar traidores dentro da própria casa por causa de detalhes.

 

Precisamos de união. Se quisermos que o Brasil seja realmente um país conservador e livre no futuro (em 2030, 2034 e além), precisamos vencer hoje com as ferramentas que temos.

 

O conservadorismo no Brasil é um gigante que está acordando, mas ele ainda está meio tonto, sem entender bem como a economia e o Estado funcionam.

 

Nossa missão é guiar esse gigante, não deixá-lo sozinho porque ele ainda não é "puro" o suficiente.

Menos frescura, mais pragmatismo. O jogo é bruto, e quem não sabe fazer aliança acaba assistindo a posse do adversário de camarote.

 

Vamos trazer o centro para o nosso lado, explicar o perigo da "lavagem" estatal e entender, de uma vez por todas, que política se faz para ganhar e mudar a realidade, não para ter razão e continuar perdendo. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 2/4/2026)