Açúcar: Robôs vendem, humanos procuram culpados – Por Arnaldo Luiz Corrêa
Na semana encurtada pelo feriado de Páscoa, o mercado futuro de açúcar em NY fechou na quinta-feira com o vencimento maio/26 cotado a 14.96 centavos de dólar por libra peso, um mergulho de 79 pontos no acumulado da semana, equivalentes a pouco mais de 17 dólares por tonelada. Os demais meses também sofreram quedas expressivas de 19 a 78 pontos. O que pode ter alimentado essa queda? Algoritmos? Leia mais adiante.
A semana contou com o Evento de Abertura de Safra promovido pela Alvean e Evolua (obrigado pelo convite, Julio) em São Paulo, sempre se destacando pelo alto nível das apresentações. Poderíamos resumi-las em duas partes, a seguir:
No curto prazo, o etanol brasileiro ganhou um piso de preços estruturalmente mais alto em 2026, e a gasolina na bomba já reflete essa realidade, independentemente do que a Petrobras decida. O açúcar no NY No.11 ainda não precifica adequadamente o equilíbrio de oferta — um reajuste de R$0,40/litro na gasolina seria suficiente para mudar isso.
A demanda global mínima gira em torno de 39-40 milhões de toneladas, e os spreads de calendário devem cumprir seu papel de transportar estoques excedentes do terceiro trimestre ao primeiro trimestre, evitando destruição de produção. Fundos ainda carregam posição vendida relevante, e o risco de El Niño no 3º trimestre coloca safras asiáticas no radar. NY No.11 deve oscilar entre 14.50 e 17.50 centavos de dólar por libra peso, com viés de baixa no terceiro trimestre e pressão altista caso o Brasil acelere o consumo de etanol.
No médio prazo, o Brasil virou grande demais para ser ignorado — suas decisões de mix e logística movem a percepção de preço justo no mercado global. O mix açúcar tende a crescer nos próximos anos dado o baixo estoque mundial e a competição com o etanol de milho, amplificando o impacto das escolhas dos produtores. A eficiência logística brasileira permite que o mercado opere com estoques menores, mas isso aumenta a vulnerabilidade a choques de oferta.
Com 80% do mercado global de açúcar bruto, a velocidade de resposta do Brasil aos sinais de preço será determinante para a gestão de risco de cada grupo produtor. No horizonte, conflitos geopolíticos podem sustentar preços de energia elevados e acelerar a adoção global do etanol.
Toda vez que o preço de uma commodity despenca, surge — com a pontualidade de um relógio suíço quebrado — a mesma proposta: "precisamos criar um mecanismo para segurar os preços". Pode ser uma cota de exportação, um fundo de estabilização, um acordo entre produtores, uma retenção de oferta. O nome muda. O resultado, não.
A lógica por trás da ideia é sedutora: se o preço está baixo demais porque há excesso de oferta, basta reduzir a oferta. Simples, elegante, e — na prática — quase sempre desastroso. O primeiro problema é estrutural: commodities agrícolas são produzidas por milhares de agentes independentes, espalhados por vários países.
Para um mecanismo de controle funcionar, você precisa que todos cooperem simultaneamente, por um período prolongado, abrindo mão de receita no curto prazo em nome de um benefício coletivo futuro. Isso é pedir muito da natureza humana, e ainda mais da natureza de um produtor com dívida vencendo.
Tem ainda o problema do free rider: enquanto os disciplinados seguram estoque ou cortam produção, o oportunista vende tudo e fica com o mercado. O incentivo para trair o acordo é exatamente proporcional ao tamanho do acordo — quanto mais eficaz parecer o mecanismo, maior a tentação de furar. E há um terceiro elemento, talvez o mais subestimado: o sinal de preço. Preço baixo não é só um problema, é também uma mensagem.
Ele diz ao mercado que a produção está excessiva e o ajuste é necessário. Quando você interfere nessa mensagem, atrasa o ajuste. E quando ele finalmente vem — e sempre vem —, é maior, mais abrupto e mais doloroso do que seria se o mercado tivesse operado livremente.
A OPEP é o exemplo mais citado como contraprova, mas raramente o mais lido. A organização funciona de forma imperfeita, intermitente e com enormes custos internos. Ao longo de sua história, os acordos foram descumpridos sistematicamente por membros que precisavam de caixa. A OPEP só tem alguma eficácia real quando a Arábia Saudita decide, sozinha, absorver o custo do corte — o que é menos "cartel funcionando" e mais "um país bancando o prejuízo dos outros".
E mesmo com todo esse poder concentrado — reservas gigantescas, infraestrutura estatal, poucos produtores relevantes —, a OPEP não consegue manter o petróleo num patamar remunerador de forma sustentada. Imaginem replicar isso no açúcar, com Brasil, Índia e Tailândia, entre outros tentando chegar a um consenso na mesma sala.
Os mecanismos de estabilização que tiveram algum sucesso — e foram poucos — compartilhavam características que raramente existem no mundo real: número reduzido de produtores, forte presença estatal, produto sem substitutos próximos e disposição política de longo prazo para sustentar o esquema mesmo sob pressão. O Acordo Internacional do Açúcar tentou isso. O do café também. Ambos terminaram da mesma forma: colapso quando os interesses divergiram, o que era apenas uma questão de tempo.
Se há energia a investir, que seja em frentes que realmente movem o jogo. A Organização Internacional do Açúcar — a ISO — é um exemplo de oportunidade desperdiçada. Não por falta de representatividade: a organização reúne 87 países que respondem por 87% da produção mundial de açúcar, reúne-se duas vezes por ano e já trabalha, ao menos nominalmente, com temas de saúde e bioenergia.
O problema é que desde 1992 a própria ISO renunciou a qualquer papel regulatório e se contentou com uma postura discreta de fórum consultivo. A plataforma existe. O peso diplomático existe. O que falta é que o setor sucroenergético — especialmente o Brasil, maior exportador mundial — use essa tribuna com muito mais agressividade para contestar narrativas que prejudicam o consumo global de açúcar.
A mais urgente delas: exigir que organismos como a OMS investiguem com o mesmo rigor aplicado ao açúcar os reais efeitos do xarope de milho de alta frutose — substituto amplamente utilizado pela indústria alimentícia e cujas ligações com obesidade e doenças metabólicas seguem, conveniente e misteriosamente, sem a mesma exposição pública.
No front doméstico, há outra distorção estrutural que sufoca o setor sem que se fale suficientemente sobre ela: a política de paridade de preços da Petrobras. Enquanto o etanol tiver seu teto implicitamente definido pela competitividade com a gasolina, e essa gasolina for precificada por critérios políticos e não de mercado, JAMAIS teremos um mercado futuro de etanol na B3 com a liquidez que o setor precisa.
E aqui chegamos a uma verdade que não admite meio-termo: sem mercado livre, não existe instrumento de hedge eficiente. E sem hedge eficiente, não há empresa de commodities que se sustente no longo prazo — independentemente do tamanho, da eficiência operacional ou da qualidade da gestão. O risco não gerenciado, cedo ou tarde, apresenta a conta.
O caminho, portanto, não passa por acordos de cavalheiros para reduzir oferta — mecanismo do qual não se conhece um único caso bem-sucedido nos últimos cem anos. Passa por remover distorções, fortalecer instituições, contestar narrativas injustas e construir mercados com profundidade real.
O mercado, no fim, não funciona porque seja justo ou bonito — funciona porque é o único mecanismo capaz de processar informação de milhões de agentes simultaneamente, sem depender de coordenação voluntária. Hedge bem-feito, gestão de custo rigorosa e paciência estratégica seguem sendo, até hoje, as únicas ferramentas que funcionam de forma consistente.
Não têm o apelo político de um "mecanismo de estabilização", mas têm uma vantagem inestimável: funcionam.
Há um ponto relevante trazido por um leitor que é trader de commodities e trabalha para um fundo que ajuda a enriquecer — e, em certa medida, ajustar — a leitura sobre o comportamento recente dos fundos, sobre meu comentário na semana passada. Segundo ele, uma parcela significativa dos gestores de fundos reportados no CFTC — algo entre 80% e 85% — é composta por CTAs (gestores quantitativos) e algoritmos.
Esses participantes não “pensam” em termos de fundamentos, energia ou balanço global de açúcar. Reagem, essencialmente, a sinais técnicos: cruzamentos de médias, rompimentos e padrões sistemáticos. O recente movimento de compra, portanto, estaria muito mais associado ao acionamento desses modelos — como a quebra de médias relevantes — do que a uma mudança de convicção sobre os fundamentos. A gente sabe disso, mas insiste em fechar os olhos. Você está brigando com robôs!
Nesse contexto, continua ele, o papel do macro — especialmente petróleo — perde protagonismo direto nesse tipo de fluxo. Para os algoritmos, ele importa apenas na medida em que altera o comportamento de preços e, por consequência, os sinais técnicos. Os fundos de índices de commodities agrícolas negociados em bolsa, que também contribuíram para o fluxo comprador recente.
Nesse caso, o racional não foi específico do açúcar, mas sim uma alocação mais ampla ligada a temas como inflação de alimentos e fertilizantes — com compras generalizadas no complexo agrícola, independentemente das particularidades de cada mercado.
Resta um elemento que alguns fundos discricionários ainda observam: o posicionamento dos comerciais no CFTC. A leitura de uma posição net mais vendida pode ser interpretada como indicativo de maior pressão de fixação na origem à frente — o que, por sua vez, ajuda a explicar a manutenção de posições vendidas por parte desses agentes. Em suma, nem todo fluxo precisa de um “gatilho fundamental”. Em muitos casos, o preço anda primeiro — e a explicação vem depois.
Nosso colaborador Marcelo Moreira afirma que o mercado realizou o “trabalho de casa” voltando a trabalhar dentro do canal da banda de Bollinger dos 50 dias (topo/media/piso respectivamente a 15.78 /14.36 /12.95 centavos de dólar por libra-peso. No curto prazo então o vencimento maio-26 encontra suportes a 14.53/14.36/13.63 e 12.95 centavos de dólar por libra-peso e resistências a 15.55/15.78/ 16.07/16.34/16.83 e finalmente 17.33 centavos de dólar por libra-peso.
A segunda edição do Curso Introdução ao Mercado Sucroalcooleiro (totalmente on-line) vai ocorrer nos dias 23-24-25 de junho. Lembrando que esse curso veio substituir o Curso Essencial que foi temporariamente descontinuado. Quer saber mais? Mande um e-mail para diego.veiga@gmail.com (Arnaldo Luiz Corrêa é diretor da Archer Consulting. 4/4/26)

