29/03/2026

Açúcar: Subiu menos do que devia - Por Arnaldo Luiz Corrêa

Açúcar: Subiu menos do que devia - Por Arnaldo Luiz Corrêa

O mercado futuro de açúcar em Nova Iorque encerrou a sexta-feira com o vencimento maio/26 cotado a 15.75 centavos de dólar por libra-peso, acumulando alta semanal de 12 pontos, equivalentes a US$ 2,65 por tonelada. Os demais vencimentos, de julho/26 até outubro/28, também acompanharam o movimento, com ganhos que chegaram a 25 pontos — ou cerca de US$ 5,50 por tonelada.

 

O dado mais relevante da semana veio do COT (Commitment of Traders) publicado pelo CFTC (Commodity Futures Trading Commission) agência americana reguladora dos mercados de commodities, nesta sexta-feira, com base na posição de 24 de março: os fundos reduziram pela metade sua posição vendida. Apenas entre 17 e 24 de março, recompraram 102.802 lotes, período em que o mercado subiu de 14.45 para 15.88 centavos de dólar por libra peso — uma alta de 143 pontos.

 

Se ampliarmos a lente para as últimas cinco semanas, desde 24 de fevereiro, a recompra totaliza 162.823 lotes, acompanhada de uma valorização de 240 pontos. Aqui reside o ponto intrigante. Fazendo uma conta simples, os fundos precisaram comprar cerca de 650 lotes para gerar um ponto de alta.

 

Historicamente, essa relação costuma ser muito mais “eficiente”: um volume dessa magnitude, em outros momentos, teria impulsionado o mercado algo entre 450 e 500 pontos. Ou seja, houve claramente uma força contrária absorvendo essa recomposição. Essa força atende pelo nome de fixação. Vieram do Brasil e América Central.

 

As usinas seguem atrasadas em relação a um padrão que se poderia considerar normal. Em fevereiro de 2025, por exemplo, a safra 25/26 já estava 83.33% fixada, a um preço médio bastante remunerador (2,489 reais por tonelada FOB). Para a safra 26/27, ainda que os números não estejam consolidados, tudo indica que o nível de fixação deverá estar próximo de 45% — e ainda assim está bem abaixo disso.

 

O que se viu nas últimas semanas foi uma janela de oportunidade sendo aproveitada. O mercado saiu de níveis abaixo de 14 centavos (13.46 em 17 de fevereiro) para acima de 15.50, movimento reforçado por uma taxa de câmbio mais favorável. Esse conjunto criou condições ideais para acelerar a fixação.

 

Estimativas de mercado falam em algo próximo de 5 milhões de toneladas fixadas no período — número possivelmente inflado, mas que, mesmo ajustado para algo como 3 a 3.5 milhões, já explica boa parte da pressão de venda, ou, o fato de o mercado não ter subido com maior força.

 

Em outras palavras, enquanto os fundos compravam, as usinas vendiam — e o mercado ficou no meio desse cabo de guerra, subindo menos do que “deveria”. Agora, a discussão muda de natureza. Os fundos reduziram significativamente o risco.

 

Saíram de uma posição líquida vendida próxima de 200 mil lotes para algo ao redor de 100 mil. A participação na posição em aberto recuou para cerca de 10%, longe da zona que historicamente precede movimentos mais bruscos de liquidação (acima de 20%–25%).

 

A pergunta, portanto, deixa de ser “quanto ainda precisam recomprar?” e passa a ser: o que os fundos querem fazer daqui para frente? Virar a mão não é impossível — já aconteceu —, mas exige um gatilho mais convincente. Esse gatilho dificilmente virá do açúcar isoladamente. Ele tende a vir do macro. E aqui entra o petróleo.

 

O comportamento recente da energia começa a alterar a percepção sobre o etanol, especialmente no curto prazo. Se esse cenário se consolidar — com petróleo firme, gasolina pressionada e câmbio colaborando — abril pode se mostrar particularmente favorável ao etanol no Brasil. E, como sabemos, quando o etanol ganha protagonismo, o açúcar perde disponibilidade. É nesse ponto que o jogo pode mudar de fato.

 

Tarcilo Rodrigues, da BioAgência, é incisivo: o preço de hoje da gasolina na bomba em SP, equivale a um reajuste de R$ 0,75/litro na refinaria. Na paridade atual (70%), preço que atrai o consumidor para encher o tanque com etanol, equivale a 18.30 centavos de dólar por libra peso e, se a paridade for a 64% 16.50 centavos de dólar por libra peso; e a 62% 15.90 centavos de dólar por libra peso, que seria o valor mínimo da safra, caso esses preços se mantenham.

 

Por ora, o mercado parece ter perdido uma oportunidade de alta mais consistente — não por falta de combustível financeiro, mas porque encontrou oferta no caminho (usinas atrasadas). A próxima perna dependerá menos do que já foi recomprado e mais do que ainda pode ser reprecificado.

 

Não há mais dúvida de que o petróleo mudou de patamar — e isso altera, de forma bastante concreta, a referência para o açúcar. A régua foi deslocada. Se antes trabalhávamos com um cenário de petróleo ao redor de US$ 50 por barril, hoje estamos diante de um ambiente em que o WTI orbita os US$ 100 e o Brent supera os US$ 110.

 

Em termos práticos, isso equivale a dizer que o piso econômico do açúcar também foi elevado — algo como 100 a 150 pontos, grosso modo, incorporando o efeito indireto via etanol.

 

A partir daí, a discussão volta naturalmente para os fundos. Não parece razoável imaginar uma retomada agressiva de vendas neste momento. Depois de um movimento relevante de recompra — que já reduziu substancialmente a exposição vendida — o comportamento mais provável, à luz do histórico, seria a continuidade desse processo até níveis próximos da neutralidade.

 

Não seria a primeira vez: em episódios recentes, os fundos praticamente zeraram suas posições, aguardando um novo conjunto de sinais antes de se reposicionarem.

 

Esse é, talvez, o cenário mais plausível no curto prazo: uma espécie de “pausa tática”. Os fundos limpam o balanço de risco, observam o tabuleiro — especialmente o macro — e só então decidem o próximo passo. E o tabuleiro, neste momento, está longe de ser simples.

 

O ambiente geopolítico segue carregado, com múltiplas frentes de tensão e um grau elevado de incerteza. Há uma sobreposição de conflitos reais e narrativas conflitantes, o que torna a leitura ainda mais difícil. Some-se a isso a imprevisibilidade política — especialmente no eixo Estados Unidos–Oriente Médio — e o resultado é um cenário onde convicções fortes tendem a ser rapidamente desafiadas.

 

Para os fundos, isso não é necessariamente um problema. Volatilidade, em muitos casos, é oportunidade. Ainda assim, se for necessário arriscar uma direção, o argumento mais consistente aponta para a continuidade da recomposição — possivelmente até a zeragem da posição — seguida de uma fase de reavaliação. A partir daí, não seria surpreendente ver uma inclinação mais construtiva, especialmente se o suporte do petróleo se mantiver e reforçar a atratividade do etanol.

 

Há também um fator de preço que não pode ser ignorado. Em perspectiva histórica, o açúcar negocia em níveis relativamente deprimidos. Quando se observa a média dos últimos dez anos (16.98 centavos de dólar por libra peso), o mercado atual parece descontar um cenário excessivamente benigno do ponto de vista de oferta — o que nem sempre se sustenta por muito tempo em commodities.

 

Em síntese, o mercado parece estar em transição. Sai de um ambiente dominado por vendas expressivas dos fundos, atravessa um período de recomposição técnica, e começa a se aproximar de um ponto em que o próximo movimento dependerá menos do posicionamento passado e mais da leitura prospectiva — especialmente do macro. E, neste momento, o macro começa a soprar numa direção um pouco mais favorável.

 

Alguém pergunta, e o ajuste da Petrobras? O quadro de formação de preços no mercado doméstico de combustíveis ajuda a entender por que a sustentação recente do petróleo não é um evento isolado — ela encontra canais reais de transmissão para o açúcar via etanol. As distribuidoras detêm cerca de 30% do market-share e operam dentro de uma lógica que, cedo ou tarde, precisa refletir a realidade de custos.

 

Soma-se a isso a presença crescente das refinarias independentes, que já praticam preços alinhados ao mercado internacional e representam algo próximo de 15% da oferta. Esse bloco funciona, na prática, como um piso competitivo: não há muito espaço para que preços domésticos se afastem indefinidamente da paridade externa.

 

Há ainda um terceiro vetor, menos visível, mas igualmente relevante: a parcela importada. Sempre que a defasagem interna se amplia, abre-se espaço para importação de derivados a preços internacionais. Esse fluxo adicional acaba atuando como mecanismo de arbitragem, forçando a recomposição dos preços domésticos.

 

Do lado da demanda, o cenário também joga a favor. O consumo segue em trajetória de crescimento e, em períodos de entressafra, a oferta de etanol se torna mais restrita. Isso aumenta a dependência da gasolina — e, consequentemente, a necessidade de importação — reforçando o processo de ajuste de preços. Ao mesmo tempo, essa dinâmica tende a ampliar as margens ao longo da cadeia, criando incentivos adicionais para que o sistema opere mais próximo da paridade internacional.

 

O ponto central é que não se trata de um único fator, mas de uma combinação de forças que atuam na mesma direção. Participação relevante de agentes que já precificam a mercado, presença de importações como mecanismo de ajuste e uma demanda resiliente em um ambiente de oferta mais curta de etanol. O resultado é um processo gradual, porém consistente, de elevação dos preços domésticos — com implicações diretas para a competitividade do etanol e, por extensão, para o equilíbrio do açúcar.

 

Nosso colaborador, Marcelo Moreira, comenta que maio-26 encerrou novamente firme com a ajuda do petróleo. Alguns analistas já projetam o barril nos 200 dólares por barril caso a guerra dure mais 30-45 dias. O vencimento maio-26 tentou romper os 16.00 centavos de dólar por libra-peso porém esse patamar continua sendo uma grande resistência no curto.

 

Rompendo os 16.00 centavos de dólar por libra-peso as próximas resistências estão nos 16.35, 16.86 e 17.33 centavos de dólar por libra-peso. Os suportes estão localizados nos 15.57, 15.43 e 14.77 centavos de dólar por libra-peso.Parte superior do formulário

 

A segunda edição do Curso Introdução ao Mercado Sucroalcooleiro (totalmente on-line) vai ocorrer nos dias 23-24-25 de junho. Lembrando que esse curso veio substituir o Curso Essencial que foi temporariamente descontinuado. Quer saber mais? Mande um e-mail para diego.veiga@gmail.com (Arnaldo Luiz Corrêa é diretor da Archer Consulting; 28/3/26)