07/08/2026

Agro pode exportar R$ 2 bilhões em crédito de carbono

Agro pode exportar R$ 2 bilhões em crédito de carbono

Natascha Trennepohl: Brasil já provou escala, metodologia e integridade — Foto: Divulgação

 

Setor pode gerar 314 milhões de créditos e vender 15 milhões no mercado externo.

 

O setor produtivo do agronegócio brasileiro tem potencial para gerar até 314,3 milhões de créditos de carbono no período entre 2025 e 2035, segundo um estudo da consultoria Carbonn Nature, apoiado pelo Instituto Equilíbrio e pelo Instituto de Estudos do Agronegócio (IEAg) da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), ao qual o Valor teve acesso. Se considerados apenas os créditos com metodologias mais maduras dentro desse universo, o setor poderia exportar mais de R$ 2 bilhões em créditos de carbono.

 

É possível gerar boa parte do volume de créditos de carbono da estimativa por meio da redução de emissões de metano no manejo de dejetos de animais. Se considerada a metodologia de redução de metano de dejetos animais prevista na Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima (conhecida como AMS-III.D), a prática teria potencial de gerar 312,1 milhões de toneladas de carbono.

 

Essas práticas incluem rotação de culturas, plantio direto, redução de queimadas, otimização de uso de fertilizantes e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), que já são praticadas. A metodologia inclui ainda aumento de eficiência de fertilizantes nitrogenados, irrigação com precisão, rotação de pastagens e implantação de sistemas silvopastoris.

 

Segundo a advogada Natascha Trennepohl, pesquisadora responsável pelo estudo, a redução de emissões de metano “é a prática com maior experiência no mercado voluntário de carbono”, enquanto a geração de créditos por meio de técnicas de manejo aprimorado “ainda está em fase inicial”, com apenas um projeto registrado até agora. Ainda assim, ela ressaltou que as práticas avaliadas no estudo já têm com metodologias reconhecidas internacionalmente e registro de implementação no Brasil, o que segundo ela dá concretude aos números.

 

Mesmo considerando cálculos conservadores, que incluam apenas projetos já registrados e metodologias maduras, o volume de créditos de carbono potencial atenderia parcelas importantes da demanda de outros países. Nesse critério, o agronegócio brasileiro conseguiria gerar 25,6 milhões de créditos de carbono entre 2025 e 2035, mais do que todo o volume que a Suíça indicou que pretende comprar (10 milhões) e também mais que toda a demanda que Cingapura apresentou ao mercado internacional (25,1 milhões).

 

Para ela, o que falta desenvolver para destravar esse potencial é a área regulatória. Uma das formas, afirma a advogada, é o destravamento por parte do governo da autorização de ITMOs, os créditos de carbono validados nos parâmetros do artigo 6.2 do Acordo de Paris. Os ITMOS são créditos de carbono autorizados para que outros países possam comprar para abater de suas metas nacionais, as NDCs, e devidamente compensados da contabilidade de emissões brasileira. Atualmente, há uma consulta pública em andamento sobre a regulamentação dos ITMOs.

 

“O Brasil já fez a parte mais difícil, que é comprovar que tem escala, metodologia e integridade ambiental para competir nesse mercado”, afirmou Trennepohl. Nas contas do estudo, se o governo permitir que 5% dos créditos possam ser exportados como ITMOs, isso teria um impacto de até 4% sobre a NDC brasileira. Ainda assim, seria suficiente para que o Brasil exportasse 15,7 milhões de toneladas de carbono, gerando uma receita de R$ 2,4 bilhões. Se esses créditos forem vendidos para empresas de aviação internacional, a receita seria ainda maior, de R$ 3,5 bilhões (Globo Rural, 6/8/26)