03/03/2026

Água mole em pedra dura – Por Paulo Hartung

Água mole em pedra dura – Por Paulo Hartung

Foto likedim

Diante da profusão de práticas populistas, é preciso investir em racionalidade e incrementar a vontade de verdade para sustentarmos os dois pés no chão.

 

O Brasil entra neste crucial ano eleitoral com uma missão essencial: enxergar além das miragens distorcidas e erráticas que são vendidas diuturnamente, especialmente via redes sociais, como diagnósticos, perspectivas e soluções à atualidade.

 

Diante da profusão de práticas populistas, é preciso investir em racionalidade e incrementar a vontade de verdade para sustentarmos os dois pés no chão, combatendo fantasmas e fantasias constituídos por manipulações agendadas pelas incertezas, desafios e angústias de um tempo realmente complexo.

 

A disputa aberta pela liderança dos rumos globais vem estremecendo as bases do multilateralismo construído no pós-guerra, com efeitos políticos e econômicos ao redor do planeta. O crítico episódio do fim de semana passado, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, ilustra bem esse quadro. Ademais, protecionismo, nacionalismo, negacionismos, ataques à democracia liberal, entre outros, conturbam a cena mundial com ecos locais.

 

Neste cenário convulsivo, o Brasil vem enfrentando angústias particulares. Os tentaculares escândalos do INSS, das emendas parlamentares e do Banco Master reforçam percepção amarga de corrupção endêmica. A escalada da insegurança pública (da violência cotidiana nas ruas à ação do crime organizado) é estarrecedora.

 

O sombreamento de agências reguladoras por interesses particulares é outra mazela, especialmente num país que precisa atrair recursos externos, em razão da escassez de poupança, para melhoria de infraestruturas, entre outros.

 

É necessário encarar efetivamente o desatino fiscal a que o País está submetido. Convivemos com uma taxa de juros de nações em guerra – a nossa é similar à da Ucrânia, no patamar dos 15%. Há imensos desafios nos campos da educação, da saúde, do investimento em tecnologia e capacitação profissional atualizada. É preciso liderança que enfrente o desequilíbrio institucional.

 

Para complexificar ainda mais o cenário, o dia a dia vem sendo dinamizado pelas lógicas da digitalidade, segundo as quais as distinções entre realidade e ficção se tornaram mera capacidade de operação de aplicativos e inteligências artificiais a serviço dos mais vorazes disputantes de poder. Isso, na maioria das vezes, em sacrifício da verdade factual e dos valores democrático-humanistas que levamos séculos para constituir.

 

Neste contexto de incertezas e desafios inquietantes, ações populistas grassam feito erva daninha. Diante da percepção de desamparo exacerbada, esparramam-se, turbinando medos, elaborando soluções ficcionais.

 

Na onda do instantaneísmo, que só pede afobamento, irreflexão e engajamento automático, surfam os arautos das facilidades e os porta-vozes do fim do mundo. Sem uma cultura de prudência e reflexão, antes de agir ou de aderir a esta ou àquela narrativa, nos transformamos em autômatos em massa, infoguiados pelos populistas redentores da ora.

 

A finalidade dessa ação política: enganar massivamente. As peculiaridades populistas concentram-se na defesa do fácil sobre o difícil, do simples sobre o complexo, do rápido sobre o lento – só para lembrar a fórmula de infantilização de consumidores e cidadãos, apurada por Benjamin Barber nos anos 2000.

 

Há, ainda, a defesa intransigente da ruptura sobre processo, da radicalidade sobre a moderação, do nós contra eles, numa estratégia camicase de implosão das instituições, apagamentos dos avanços civilizatórios e de desumanização do que não é espelho.

 

Fora das falácias e atitudes divisionistas que transitam do prenúncio do apocalipse ao anúncio do paraíso está o caminho do meio, da virtude, do equilíbrio. É por esta avenida que precisamos avançar.

 

Os debates eleitorais são uma oportunidade para separar o “joio do trigo” e recalibrar uma conversação apequenada pela política das radicalizações e das simplificações. Nesse processo, é preciso enxergar a realidade com tons que façam jus ao factual, incluindo desafios e possibilidades concretas de superações.

 

É cada vez mais relevante o número de brasileiros cansados do sequestro do debate e da política pelo jogo populista. Já passou da hora de apostarmos no que soma, em vez de dividir, no que resolve efetivamente, em vez de promover iniciativas feito voos de galinha. Chega de abusos, enganações e manipulações perversas que infantilizam a política a partir da exploração de medos e paranoias.

 

Seja com seus desafios, seja com suas potencialidades – tudo o que o Brasil tem de sobra –, a realidade deve ser fonte de esperança e inspirações, e não base para uma política que sustenta reféns dos temores e pretensos salvadores da Pátria.

 

O Brasil tem oportunidades gigantescas. Não está e deve evitar entrar no furacão das disputas internacionais. E tem ativos naturais para responder a demandas importantes do planeta, como oferta de alimentos, minerais de transição energética, além de geração de energia limpa e seus produtos e serviços correspondentes.

 

Não podemos perder mais esta chance de acertar no debate e, assim, avançarmos na abertura de novas rotas para o País. Escolhas que passem ao largo de populismos de quaisquer latitudes que só nos têm afastado de nosso real potencial de uma nação próspera para todos, como podemos e merecemos ser (Paulo Hartung é economista, presidente-executivo da Ibá, membro do Conselho Consultivo do RenovaBR, foi governador do Estado do Espírito Santo (2003-2010/2015-2018); Estadão, 3/3/26)