28/01/2026

AM: Incra deve vetar projeto de crédito de carbono ligado aos Vorcaro

AM: Incra deve vetar projeto de crédito de carbono ligado aos Vorcaro

Henrique Vorcaro é pai de Daniel Vorcaro, do Banco Master — Foto Facebook Paulo Navarro e Valor

Empresário ligado à família do banqueiro tentava gerar créditos em assentamento em Apuí.

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) caminha para vetar definitivamente o projeto de geração de créditos de carbono articulado por representantes da família Vorcaro em um assentamento na cidade de Apuí (AM).

Segundos fonte graduada a par do assunto, a decisão, em discussão na cúpula da autarquia, deve se dar diante do entendimento de que as negociações buscaram “reembalar” ativos ambientais de um empreendimento anterior, cancelado por indícios de fraude. Procurado, o Incra não retornou.

A área onde seria realizada a geração dos créditos de carbono é o Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Aripuanã–Guariba, criado em 2005 e ocupado por cerca de 80 famílias.

O projeto foi proposto ao Incra no início de 2025 por José Antonio Ramos Bittencourt. Na região, ele se apresentava como representante da Alliance Participações e Investimentos S.A, de Henrique Vorcaro e Natália Vorcaro, pai e irmã de Daniel Vorcaro, do Banco Master, e principal investidora do projeto anterior com Bittencourt.

Negociações

Em março de 2025, Bittencourt procurou o Incra afirmando ter sido enganado em um negócio envolvendo a Fazenda Floresta Amazônica por seu proprietário, Marco Antônio de Mello. Bittencourt contou que havia adquirido direitos relacionados a um projeto de carbono na propriedade acreditando tratar-se de um imóvel privado, mas teria descoberto que o imóvel estava, na verdade, dentro do PAE Aripuanã–Guariba, uma terra pública. O relato foi feito após uma reportagem da Globo Rural revelar a fraude em dezembro de 2024.

Mello afirma que, ao comprar a fazenda, analisou a origem dos documentos e confiou na fé pública do cartório que expediu a matrícula. Ele diz ainda que, quando tentou realizar um projeto de carbono na propriedade, buscou o Incra, que lhe recomendou realizar um georreferenciamento, feito em agosto de 2024, para regularizar a situação fundiária.

Em 2024, chegaram a ser gerados “tokens de carbono” da Fazenda Floresta Amazônia, que entraram como patrimônio de empresas controladas por fundos geridos pela Reag, que tinham Bittencourt como um dos cotistas.

Em seu contato com o Incra, Bittencourt disse que o projeto anterior havia sido cancelado e que ele pretendia realizar um novo projeto de geração de créditos de carbono, agora apenas no PAE. Para uma fonte próxima do projeto, seria uma forma de “esquentar” os ativos que já haviam sido gerados.

Ao longo de 2025, o Incra analisou a possibilidade de firmar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) relacionado ao novo projeto. Em 31 de outubro, o diretor nacional de Governança da Terra do órgão, João Pedro Gonçalves da Costa, encaminhou ofício à Procuradoria Federal Especializada, que fez questionamentos sobre o projeto.

Na negociação, o nome da família Vorcaro e de suas empresas não apareceram. Documentos protocolados por Bittencourt obtidos pela reportagem omitiam os contratos firmados com a Alliance, como o de cessão e transferência de Unidades de Estoque de Carbono (UECs) da Fazenda Floresta Amazônica, que previa venda de ativos ambientais e a estruturação de instrumentos financeiros lastreados neles.

Para técnicos do instituto ouvidos pela reportagem sob anonimato, a omissão dessas informações foi um fator relevante para a mudança de avaliação interna sobre o caso, já que indicavam que havia negociações privadas sem conhecimento da autarquia.

À reportagem, Bittencourt já disse que “prestou todas as informações sobre a originação dos ativos ambientais e sua regularização perante a autarquia fundiária”. Ele disse que “não tem relação com fatos investigados no contexto das operações que envolvem a Reag e o banco Master — e não é e nunca foi sócio da Alliance”. Ele também negou representar a empresa (Globo Rural, 27/1/26)