17/06/2026

Analistas veem Copom em xeque diante de fiscal e inflação desancorada

Analistas veem Copom em xeque diante de fiscal e inflação desancorada

Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central. Foto Saulo Cruz/Agência Senado

 

Expectativa é de que ciclo de cortes da Selic seja interrompido mais cedo do que projetado anteriormente.

 

       

Às vésperas da superquarta dos juros, economistas enxergam um cenário macroeconômico que parece não dar sinais de alívio para o Banco Central brasileiro. A expectativa de um corte tímido da Selic - de 0,25 ponto percentual - tende a se concretizar nesta quarta, apesar de não ser um consenso no mercado financeiro, que se divide com quem aposte que o Copom encerre mais cedo o pequeno ciclo de afrouxamento das taxas.

 

O grande desafio para o BC é a combinação de fatores que resultam numa “tempestade perfeita”, com expectativas de inflação desancoradas, política fiscal expansionista e eventos climáticos extremos. Esse diagnóstico foi feito por economistas que participaram nesta terça-feira (16) do evento “Oportunidades de Investimento no Brasil e no mundo”, realizado pela Inter Asset.

 

“A inflação está desancorada. Teremos um IPCA acima de 5% para este ano e, em 2027, as expectativas já estão desancoradas. Nenhum país consegue fazer o ambiente de negócio ser competitivo nesse patamar”, destacou Alexandre Silvério, CEO e CIO da Tenax Capital.

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Gustavo Pessoa, que e sócio fundador da Legacy Capital, avalia que existe uma “disputa” entre a política monetária e a política fiscal. Segundo ele, enquanto o BC mira a meta de 3% para a inflação, o fiscal parece agir por uma meta de 5%.

 

Além do fiscal, o economista cita os efeitos do projeto que acaba com a escala 6x1. A avaliação é de que a mudança eleve os custos para o setor produtivo, que terá de compensar a queda de horas trabalhadas pelos colaboradores.

 

“[A PEC] tira a flexibilidade do mercado de trabalho. Num primeiro momento, a renda fica bem, mas depois vai aumentar o desemprego e a informalidade, e piorar a oferta de serviços por parte das empresas. Isso também desancora a expectativa de inflação”, afirmou.

 

Pessoa diz que a 6x1 já entra na conta dos analistas do mercado financeiro em suas projeções macroeconômicas e lembrou do Boletim Focus, que tem divulgado um aumento das expectativas para o IPCA e os juros neste ano.

 

O relatório da segunda-feira (15), trouxe uma nova alta nas expectativas para os preços e agora vê a inflação a 5,30% em 2026. Os economistas ouvidos pelo BC elevaram ainda a estimativa para a taxa Selic e projetam um juro a 13,75% neste ano, ou seja, um espaço menor para a continuidade do ciclo de cortes pelo Copom.

 

Um dos principais itens que pressionam o IPCA são os alimentos. Na inflação de maio, o grupo teve a maior alta para o mês em 18 anos. O próprio IPCA teve no período a maior taxa para maio desde 2021.

 

Agora com o El Niño, os economistas veem uma piora desse indicador, com foco nos produtos chamados in natura, como e o caso de frutas e legumes, que devem ter sua produção prejudicada pelo fenômeno.

 

O desafio da política monetária, no entanto, não afeta apenas o Brasil. O Federal Reserve também se vê diante de um dilema, com a tensão permanente no Oriente Médio e dados de atividade econômica aquecida nos Estados Unidos.

 

Ian Lima, gestor de portfólio de renda fixa na Inter Asset, chama a atenção ainda para o elevado nível de investimentos - o capex - que empresas e governos estão direcionando para inteligência artificial e na construção de data centers.

 

Lima entende que esse movimento já pressiona os preços nos Estados Unidos. Gustavo Pessoa reforça a análise e disse ainda que os cálculos apontam que a IA já faz um peso de cerca de 1% dentro da inflação americana. Para o Fed, o mercado prevê que a taxa siga inalterada (CNN, 16/6/26)