As bases de um cooperativismo que já pensava o futuro – Por Rodrigo Simões
Nas páginas datilografadas há quase nove décadas, Otacílio Tomanik registrou uma visão surpreendentemente moderna: municípios apoiando cooperativas, dirigentes preparados, conhecimento técnico ao alcance dos produtores, comunicação com a sociedade e servidores percorrendo o Estado. Mais que relatar atividades, aqueles documentos revelam a construção de uma política de desenvolvimento que ajudaria a transformar o cooperativismo paulista.
Há documentos que registram acontecimentos. Outros, quando revisitados décadas depois, permitem compreender como determinadas ideias começaram a ganhar forma e ajudaram a construir instituições que atravessariam gerações. Os relatórios cuidadosamente datilografados e preservados do antigo Departamento de Assistência ao Cooperativismo pertencem a essa segunda categoria.
Em suas páginas amareladas pelo tempo, Otacílio Tomanik não se limitou a enumerar providências administrativas. Seu trabalho reuniu fatos, iniciativas, dificuldades, decisões e perspectivas de uma época em que o cooperativismo paulista ainda consolidava suas estruturas. A riqueza desses registros está justamente na capacidade de mostrar que, já em 1937, havia uma percepção bastante clara de que organizar produtores exigia muito mais do que simplesmente constituir cooperativas.
Era necessário criar ambiente favorável para que elas prosperassem.
Um dos capítulos registrados por Tomanik trata das “Prefeituras Municipais que concedem favores a cooperativas”. O próprio relatório classifica a iniciativa como um fato “verdadeiramente auspicioso”. Municípios paulistas começavam a adotar medidas destinadas a estimular cooperativas locais, aproximando o poder público municipal de uma forma de organização econômica que ganhava importância.
O documento cita nominalmente Presidente Prudente, Lins, Guaratinguetá, São José do Rio Preto, Casa Branca e São Paulo. Em Presidente Prudente, por exemplo, o relatório registra a promulgação, em 28 de novembro de 1936, da Lei nº 15, concedendo favores e regalias às cooperativas que viessem a se constituir no município. Em Guaratinguetá, outra legislação permitia que funcionários municipais realizassem consignações em folha relacionadas a compromissos assumidos com cooperativas das quais fossem associados.
O detalhe pode parecer administrativo quando observado isoladamente. Inserido naquele momento histórico, porém, revela algo muito maior: o reconhecimento de que o cooperativismo poderia ser instrumento de desenvolvimento econômico e social e que os municípios também tinham papel na criação de condições para seu fortalecimento.
Quase nove décadas depois, essa relação continua presente sob novas formas. Convênios, programas de compras públicas, assistência técnica, infraestrutura, apoio à agricultura familiar e políticas municipais e estaduais de desenvolvimento rural mostram que a aproximação entre poder público e organizações de produtores permanece fundamental. Mudaram as ferramentas; permaneceu a compreensão de que cooperativas fortalecidas podem contribuir para gerar renda, organizar a produção e ampliar oportunidades nos territórios.
Outro registro chama particularmente a atenção pela atualidade: os cursos de gerentes.
Tomanik anotou que os cursos realizados em São Paulo e Guaratinguetá não haviam preenchido plenamente suas finalidades por deficiência de programação e pela heterogeneidade das turmas. Em vez de esconder as dificuldades, o relatório as registra e propõe uma solução: reorganizar a formação, estabelecer programas adequados e promover novos cursos destinados a empregados, diretores e fiscais de cooperativas.
É um exemplo precioso da seriedade desses documentos. O relatório não existe para celebrar apenas acertos. Ele reconhece falhas, avalia resultados e aponta correções.
Essa preocupação atravessou o tempo. Hoje falamos em governança, gestão profissional, capacitação, controles internos, planejamento, formação de lideranças e qualificação de conselhos. Em 1937, naturalmente, o vocabulário era outro. Mas a essência já estava ali: uma cooperativa depende das pessoas responsáveis por administrá-la, e boas intenções não substituem conhecimento técnico.
Talvez um dos registros mais simbólicos dessa visão esteja no capítulo dedicado à Biblioteca.
O relatório recomendava a criação de uma biblioteca especializada em assuntos econômicos e sociais, principalmente voltada ao cooperativismo, e defendia a aquisição de obras consideradas relevantes. Também registra que a organização dessa biblioteca havia sido entregue a um funcionário da casa para cuidar do serviço.
É difícil não estabelecer um paralelo com o presente. Hoje, conhecimento circula instantaneamente por bases digitais, universidades, plataformas de capacitação, centros de pesquisa e sistemas de informação. Em 1937, construir uma biblioteca especializada significava reunir fisicamente aquilo que poderia orientar decisões e formar pessoas.
A tecnologia mudou completamente. A necessidade, não.
Conhecimento continua sendo infraestrutura para o desenvolvimento.
Essa percepção torna-se ainda mais evidente quanto Tomanik registra o Plano de Publicações e Comunicados aos Jornais da Capital e do Interior. O Departamento pretendia intensificar sua comunicação com a imprensa e criar distribuição específica de materiais aos jornais, considerando inclusive a “grande coletividade de produtores rurais”.
O registro é extraordinário porque mostra que a comunicação já era compreendida como parte da política de assistência ao cooperativismo. Não bastava realizar. Era necessário explicar, orientar, compartilhar conhecimento e fazer a informação alcançar quem estava distante da estrutura administrativa do Estado.
Hoje essa comunicação acontece em portais, redes sociais, aplicativos, vídeos, plataformas digitais e serviços instantâneos. Naquela época, eram jornais, comunicados impressos e publicações. Mais uma vez, os instrumentos mudaram, mas o princípio permaneceu: informação de qualidade também fortalece quem produz.
E havia ainda outro componente indispensável: estar presente onde as cooperativas estavam.
No capítulo dedicado às viagens para serviços do Departamento, o relatório informa que, ao longo de 1937, funcionários realizaram 114 viagens a serviço, visitando localidades espalhadas pelo Estado. A lista preservada no documento impressiona: Caçapava, Rio de Janeiro, Piracicaba, Sorocaba, Indaiatuba, São Roque, Santos, Campinas, Leme, Pindamonhangaba, Araraquara, Boituva, Jundiaí, Jaú, Cruzeiro, Bebedouro, Monte Mor, Paraibuna, Itapira, Mogi Guaçu, Mogi Mirim, Itajobi, Araras, Guaratinguetá, Taubaté, Jacareí, Ubatuba, São Carlos, Quiririm, Juqueri, Tietê, Conchas, Jaboticabal, Serra Negra, Catanduva, Marília, Roseira, Garça, Rio Claro, Limeira, Torrinha, Lorena, Cachoeira, Aparecida, Areias e Silveiras.
Não era apenas burocracia produzida atrás de uma mesa.
Era um Departamento que percorria o território para conhecer realidades, orientar organizações e acompanhar de perto um movimento que crescia pelo interior paulista.
Hoje, quando se fala em extensão rural, assistência técnica, regionalização de políticas públicas e presença institucional nos municípios, reencontramos parte daquela mesma lógica: o campo não pode ser compreendido apenas dos gabinetes; é preciso chegar até onde a produção acontece.
E então chegamos à última página.
Talvez seja justamente nela que o conjunto desses documentos revele com maior clareza o espírito de quem os produziu.
Ao encerrar o trabalho, o texto afirma que, durante 1937, o Departamento procurou valorizar o antigo D.A.C., aparelhando-o com recursos e ampliando seus quadros de servidores, principalmente técnicos em contabilidade, para atender às cooperativas. Registra também a intenção de aprimorar a estrutura administrativa, racionalizar serviços e criar condições para acompanhar o crescimento do cooperativismo paulista.
E termina projetando o futuro.
O documento manifesta a aspiração de transformar aquela estrutura em um órgão capaz de impulsionar as pequenas atividades econômicas organizadas sob a forma cooperativa, contribuindo par ao “crescente aumento as riquezas de São Paulo”.
Logo abaixo está a data:
São Paulo, 31 de março de 1938.
E está também a assinatura.
A assinatura que transforma aquelas páginas em algo ainda mais especial.
Otacílio Tomanik.
Quase noventa anos depois, seus relatórios permanecem preservados pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Folhas datilografadas, livros cuidadosamente organizados e registros que sobreviveram ao tempo não apenas como documentos administrativos, mas como testemunhos de uma etapa importante da construção do cooperativismo paulista.
É justamente aí que reside a essência de MEMÓRIAS DO AGRO.
Voltar a esses livros não significa simplesmente olhar para trás. Significa perceber que muitos conceitos considerados modernos – capacitação de gestores, presença regional, comunicação institucional, disseminação de conhecimento, integração entre municípios e cooperativas e profissionalização da gestão – já apareciam, ainda que com outros nomes e instrumentos, nas preocupações daqueles que ajudaram a organizar o setor há quase nove décadas.
Otacílio Tomanik teve o cuidado de registrar esse caminho.
E porque alguém teve o cuidado de escrever, organizar e preservar, hoje podemos conhecer não apenas aquilo que o cooperativismo paulista se tornou, mas também as ideias, o trabalho e as pessoas que ajudaram a construir suas bases.
Essa talvez seja uma das maiores riquezas daqueles velhos livros: lembrar que o futuro do agro paulista também foi escrito, página por página, por quem teve a visão de documentar o presente para que ele não desaparecesse da História.
(Rodrigo Simões; Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP; 3/9/26)

