19/03/2026

As cúpulas militares se consideram fora da crise institucional

As cúpulas militares se consideram fora da crise institucional

Comandantes das Forças Armadas ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foto Wilton Júnior-Estadão

 

Por William Waack

 

Integrantes das Forças Armadas disseram a Lula que esperam em relação ao STF o mesmo rigor de investigação, processo e punição do ocorrido com o golpe.

 

Lula anda mesmo preocupado com as consequências do escândalo Master. A ponto de querer saber dos comandantes das Forças Armadas “qual é a opinião na tropa” em relação ao STF. A pergunta foi feita num recente encontro de fim de semana em Brasília ao qual compareceram também o PGR, o ministro Cristiano Zanin e o diretor-geral da PF.

 

Foi dito a Lula que, por parte das Forças Armadas, espera-se em relação ao STF o mesmo rigor de investigação, processo e punição a exemplo do ocorrido recentemente no julgamento da tentativa de golpe. Mesmo que haja consequências para um ou outro integrante da Corte. E que muito ajudaria se o STF – leia-se Alexandre de Moraes – colocasse Jair Bolsonaro na prisão domiciliar.

 

“Só queremos em relação ao Supremo o devido respeito ao processo legal”, assinalou-se.

 

A julgar como gira o carrossel político em torno do escândalo Master, e os contornos até aqui de possíveis delações, esse desejo hoje tem ares de uma ilusão. Mas nunca se sabe. Criou-se um “cenário maluco”, na expressão de um comandante militar, “no qual está se reagindo mal a quase tudo”.

 

Entre eles a preocupação é com dois tipos de degradação. Uma delas é a rápida perda de confiança por parte relevante da sociedade brasileira em relação ao STF, criando a possibilidade (ainda tida como remota) de algum tipo de “desobediência civil”.

 

A outra degradação se refere à situação geopolítica, que escancarou ao mesmo tempo os meios inadequados das Forças Armadas para proteger o País e os dilemas colocados pela nova política de segurança nacional da Casa Branca (que exige alinhamento incondicional aos EUA neste hemisfério).

 

Em relação à questão internacional, os comandantes cumprem uma espécie de “pacto de silêncio”, enquanto agem para impedir que as turbulências nas relações políticas entre Brasil e Estados Unidos contaminem a vital área cooperação em defesa. “Acho que conseguimos até aqui resistir a pressões dentro e fora para se encostar na China”, disse um graduado interlocutor entre os militares.

 

O Brasil tem procurado estreitar laços no campo da defesa com a Turquia (país membro da Otan) e Índia, além dos próprios americanos, que estariam acenando com uma linha de crédito de 8 bilhões de dólares para compras de armamentos nos Estados Unidos. O comandante do Exército brasileiro deve expor presencialmente em breve em território americano o que ele considera que seja uma relação estratégica mutuamente benéfica, com ênfase na importância de terras raras no Brasil e cooperação no combate a cartéis.

 

Há um certo alívio na constatação, segundo esses interlocutores, de que os militares saíram da cena política (mesmo sofrendo grande pressão da reserva). “Estamos agora na arquibancada”, comentam. Não se sabe muito bem qual será a qualidade do espetáculo (Estadão, 19/3/26)