As páginas de 1937 que preparavam os dirigentes do amanhã
Por Rodrigo Simões
Entre ofícios, cópias, atas e anotações cuidadosamente preservadas, o livro de 1937 revela uma preocupação que atravessou quase nove décadas: formar pessoas capazes de administrar cooperativas com conhecimento, responsabilidade e visão de futuro. Nos documentos guardados por Otacílio Tomanik, educação e gestão já apareciam como fundamentos para fazer o cooperativismo crescer.
O encerramento do livro de 1937 oferece uma imagem particularmente reveladora do cooperativismo paulista daquela época. Depois de páginas dedicadas à organização das cooperativas, ao crédito, à produção, aos mercados, à assistência técnica, à comunicação e às relações com o poder público, os documentos voltam sua atenção para um patrimônio sem o qual nenhuma estrutura poderia avançar: as pessoas encarregadas de conduzi-la.
São folhas datilografadas, cópias de ofícios, registros administrativos e documentos que atravessaram quase nove décadas. A escrita preserva a aparência característica das antigas máquinas de escrever. Pequenas marcas do tempo permanecem nas páginas. Mas o conteúdo continua supreendentemente vivo.
É justamente aí que mais uma vez se percebe a importância do trabalho de Otacilio Tomanik. Ao reunir, organizar e preservar documentos dessa natureza, ele não deixou apenas um relatório administrativo. Deixou pistas para compreendermos como o cooperativismo paulista estava sendo pensado, estruturado e aperfeiçoado nos anos 1930.
Um dos documentos é datado de 22 de dezembro de 1936 e trata do Curso de Administradores de Cooperativas. Assinado pelo regente do curso, Olavo Freire, o ofício registra que estava terminando a quarta turma realizada na Capital e apresenta um dado bastante expressivo para aquele momento: as três primeiras turmas haviam formado 88 diplomados.
Não era pouca coisa para uma área que o próprio documento classificava como ainda pouco difundida.
Mais interessante do que o número, entretanto, é perceber a preocupação em avaliar aquilo que estava sendo realizado. O texto registra a necessidade de colher impressões dos participantes para orientar os trabalhos futuros e, a partir dessa experiencia, apresenta propostas concretas para o aperfeiçoamento do curso.
Entre elas estavam a ampliação da duração para seis meses, a realização de dois cursos por ano, aulas noturnas duas vezes por semana, a inclusão de prova final escrita e a ampliação do programa de estudos. O documento menciona, entre os conteúdos pretendidos, noções de geografia comercial, aritmética comercial e estatística.
Em outras palavras, não bastava criar cooperativas. Era necessário preparar quem iria administrá-las.
Quase 90 anos depois, o princípio permanece atual. Mudaram as ferramentas, a legislação, a tecnologia e a dimensão econômica das organizações, mas governança, capacitação de dirigentes, profissionalização da gestão e formação continuada continuam entre os grandes pilares de uma cooperativa sólida.
O segundo conjunto documental aprofunda ainda mais essa discussão.
Em ofício datado de 21 de janeiro de 1937, Breno Viana encaminha ao diretor do Departamento de Assistência ao Cooperativismo uma análise extensa sobre o Curso de Administradores de Cooperativas. São quatro páginas datilografadas que revelam uma preocupação quase pedagógica com a qualidade da formação oferecida.
Logo no início, aparece um diagnóstico importante: entre os aprovados, 44% correspondem a um determinado coeficiente de aproveitamento, enquanto 56% eram alunos que não haviam alcançado frequência mínima considerada adequada para receber certificado. A partir daí, o documento questiona o formato do curso e defende uma preparação mais consistente.
A reflexão é supreendentemente moderna.
Breno Viana observa que um curso livre não deveria significar ausência de exigência. Pelo contrário: se o objetivo era preparar administradores, seria necessário oferecer conhecimentos capazes de formar dirigentes efetivamente habilitados para as responsabilidades que assumiriam.
O documento chega a discutir o próprio significado do diploma. Argumenta que, no Brasil, os títulos carregavam forte valor simbólico e que justamente por isso era preciso preservar sua credibilidade. Um certificado deveria representar conhecimento adquirido, e não simplesmente participação formal.
É uma discussão de 1937 que poderia perfeitamente ocupar uma reunião sobre qualificação profissional nos dias atuais.
Há ainda observações muito interessantes sobre o perfil do administrador. O texto sustenta que o dirigente eficiente deveria possuir vocação, capacidade administrativa e conhecimentos especializados, mas também compreensão sobre as pessoas e sobre a realidade das organizações que conduziria.
E surge uma expressão especialmente forte: o administrador deveria compreender o “óleo das administrações capitalistas”, mas, ao mesmo tempo, estar impregnado do espírito cooperativista.
A comparação sintetiza uma questão que permanece presente no cooperativismo contemporâneo: uma cooperativa precisa ser eficiente, competitiva e profissional, mas não pode perder a identidade que justifica sua existência. Gestão e princípios não são adversários. Quando bem conduzidos, caminham juntos.
Nas páginas seguintes, o documento propõe caminhos para reorganizar a formação. Entre as modalidades apresentadas aparecem o Curso de Administradores de Cooperativas, com estudos mais amplos; uma Cadeira de Cooperativismo, voltada a estabelecimentos de ciências econômicas ou administrativas; e um Curso de Divulgação do Cooperativismo, destinado a despertar interesse e ampliar o conhecimento sobre o modelo.
Também aparece uma preocupação com a necessidade de estruturar o ensino de maneira mais sintética, algo que Breno Viana descreve como uma possível solução de maior eficácia.
Novamente, o paralelo com o presente surge naturalmente. Hoje falamos em educação cooperativista, formação de lideranças, governança, sucessão, capacitação técnica e profissionalização. Em 1937, com outras palavras e diante de outra realidade econômica, parte dessas preocupações já estava colocada sobre a mesa.
Talvez seja justamente essa uma das maiores riquezas do acervo preservado.
O livro de 1937 não é formado apenas por textos oficiais organizados para prestar contas de uma administração. Em suas páginas estão guardadas cópias de ofícios, atas, registros, anotações e cadernetas, em excelente estado de conservação. O amarelo adquirido pelo papel não diminui sua importância; ao contrário, materializa a passagem do tempo e transforma cada folha em testemunho de uma época.
Por trás dessa preservação aparece novamente Otacílio Tomanik.
Ao registrar e reunir esses documentos com tamanho cuidado, Tomanik acabou fazendo algo maior do que provavelmente imaginava naquele momento. Preservou a memória de como uma geração pensava o cooperativismo paulista.
E essa talvez seja a melhor maneira de encerrarmos nossa viagem pelo livro de 1937.
Começamos encontrando relatórios produzidos em máquinas de escrever. Descobrimos projetos, dificuldades, cooperativas, mercados, crédito, comunicação, assistência, organização e iniciativas que ajudavam a estruturar um movimento ainda em consolidação. Agora chegamos às últimas páginas percebendo que, por trás de praticamente tudo aquilo, existia uma preocupação permanente: preparar pessoas para continuar a obra.
O livro termina. A história, não.
Nos próximos capítulos de MEMÓRIAS DO AGRO, avançamos dois anos no tempo. Abriremos o livro de 1939, igualmente preservado, para descobrir novos registros de uma agricultura e de um cooperativismo que ajudavam a construir o desenvolvimento econômico e social paulista.
E continuaremos acompanhados pelo olhar meticuloso de Otacílio Tomanik – o homem que, página após página, transformou o trabalho cotidiano de seu tempo em um extraordinário patrimônio histórico para as gerações que vieram depois (Rodrigo Simões; Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP; 10/9/26)

