24/04/2026

BB vê sinais de melhora em pagamentos do agro, mas ainda monitora setor

BB vê sinais de melhora em pagamentos do agro, mas ainda monitora setor
  • Agro vem em uma escalada de recuperações judiciais e agora enfrenta efeitos da guerra no Irã
  • Banco é o maior financiador do agronegócio; segmento foi o principal detrator dos resultados de 2025
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Banco do Brasil, maior financiador do agronegócio, viu no início de abril alguma melhora na adimplência de operações de crédito de custeio, após elevar as garantias. Ainda assim, o banco monitora com cautela o setor, que vem numa escalada de recuperações judiciais e agora enfrenta os efeitos da guerra no Oriente Médio.

 

De acordo com dados apresentados por executivos do banco a investidores no BB Day, o fluxo de vencimentos de agro soma R$ 155,6 bilhões em 2026, com 59,4% deles concentrados de abril a setembro. No montante total para o ano, R$ 87,8 bilhões são relacionados a crédito para custeio.

 

O vice-presidente de agronegócios e agricultura familiar, Gilson Bittencourt, destacou que mais de 80% do que o banco está recebendo do custeio agora foram operações contratadas em abril, maio e junho do ano passado. Assim, boa parte da carteira vencendo em abril ainda tem um reflexo do processo anterior de contratação do banco.

 

Mas, acrescentou, numa perspectiva dos primeiros 15 dias do mês, o BB começa a verificar que a carteira que foi concedida com base nas alienações fiduciárias e melhoria de garantias —que representa ainda pouco, cerca de 20% do total, no recebimento de custeio— já tem um resultado bem mais significativo em relação à adimplência.

 

O vice-presidente de gestão financeira, Geovanne Tobias, afirmou que o BB ainda está observando se a recuperação nas renegociações de crédito da carteira do agronegócio será em "U" ou "W", após o segmento representar o principal detrator dos resultados da instituição no ano passado.

 

"Ainda estamos observando o comportamento de como as renegociações dentro do agro vão performar, a nova safra que vai ser colhida. Ainda não sabemos, eu suspeito que talvez seja mais uma recuperação em W", afirmou.

 

De acordo com o BB, o fluxo de vencimento no âmbito da MP 1.314, que autoriza renegociações de dívidas, soma R$ 36,5 bilhões, sendo 91,8% com garantia de imóvel e mais de 72% com vinculação de alienação fiduciária. No caso da carteira prorrogada, os vencimentos somam R$ 64,5 bilhões.

 

"O fluxo de vencimentos [da safra] 2025/26 é mais equilibrado e também traz um saldo associado menor, reflexo da política de melhor originação, de maior qualificação, de vinculação adicional de garantias", reforçou o vice-presidente de gestão de risco, Felipe Prince. "E aí passamos a entregar safras [de crédito] melhores."

 

Prince também chamou a atenção para a queda nos volumes de novos processos de recuperação judicial, embora ainda não no montante que o banco espera. E citou que há produtores procurando o BB para desistir das recuperações judiciais.

 

"Eles estão no momento de fazer os investimentos para a nova safra e não encontram crédito. E aí têm nos procurado para que possamos apoiar nesse processo de saída das recuperações judiciais."

 

O volume de novos processos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026 somava R$ 1,4 bilhão, de R$ 1,6 bilhão no quarto trimestre e R$ 1,8 bilhão no terceiro trimestre do ano passado. Em relação ao fluxo de novos processos, houve 162 registros, ante 158 no quarto trimestre e 209 no terceiro trimestre do ano passado.

 

IMPACTO DA GUERRA

 

Ao comentar potenciais efeitos da guerra no Irã nos custos dos produtores rurais e potencial de pagamentos, Prince ponderou que não há um efeito do custo de produção imediato dos clientes do BB, dado o período em que a guerra eclodiu, com os insumos já nas fazendas e a produção encerrando no fim da safra 2025/26.

 

Para Prince, o conflito pode impactar a próxima safra. Ele acrescentou que o BB está acompanhando a situação para que a modelagem de concessão de crédito para a safra da 2026/27 contemple uma eventual elevação de custos relacionada à guerra.

Bittencourt ponderou que qualquer afirmação feita agora, que a margem vai estar apertada, que os produtores vão pagar mais caro, que vão ter dificuldade, "é estudo de futurologia", acrescentando que a maior parte dos insumos será adquirida a partir de junho e julho.

 

SEMESTRE AINDA APERTADO

 

presidente-executiva do BB, Tarciana Medeiros, destacou que 2026 será um ano de reestruturação e de retomada de crescimento, mas que não será fácil e que o primeiro semestre ainda será "apertado", mas reiterou a orientação do banco para o ano.

 

"Esse primeiro semestre é um semestre ainda de ajuste dentro do ciclo 2025-26. Esse ciclo acaba em junho e entendemos que o segundo semestre vai ter um perfil diferente do primeiro, mas o guidance previsto para o ano de 2026...está mantido", afirmou à jornalistas após o evento.

 

Medeiros disse que o banco terá neste ano um olhar diferente para a qualidade do crédito. "Não é o foco só em volume, só em crescimento da carteira por crescer. É um foco muito mais direcionado para a qualidade. É como estamos crescendo a carteira", afirmou durante sua apresentação.

 

"Nós estamos crescendo com a prudência necessária, sem deixar de fazer crédito, mas entendendo que agregar mitigadores de risco nessa carteira, mitigadores mais modernos, adequados a cada linha de crédito, é necessário." A executiva também destacou que o Banco do Brasil de agora está mais preparado para entregar um resultado diferente do que ele estava no início de 2025.

 

Medeiros também afirmou que o BB não foi procurado para tratar sobre o BRB, após questionamento de repórteres relacionado a uma eventual solução de mercado para a instituição financeira. Sobre interesse nos ativos, ela não descartou, mas disse que o BB não olhou.

 

"Nós somos um banco comercial. Assim, não só o Banco do Brasil, mas como qualquer banco, a proposição comercial é feita, nós analisamos e falamos sim ou não, mas nós não fomos procurados e não fizemos nenhuma análise", acrescentou (Folha, 24/4/26)