Brasil deve superar EUA no sorgo e assumir liderança mundial
Plantação de sorgo- Imagem IA Copilot
Por Mauro Zafalon
- Investimento em genética pelas empresas e melhor manejo do solo elevam produção
- Área plantada, hoje em 2,2 milhões de hectares, deve atingir 5 milhões em quatro anos
O Brasil está prestes a superar os Estados Unidos em mais um produto no mercado internacional. Após desbancar os americanos na produção mundial de algodão e de carne bovina nos anos recentes, os brasileiros devem assumir a liderança mundial na produção de sorgo.
O produto esteve negligenciado no país, segundo André Aguirre Ramos, da consultoria Aguirre Ramos. Os preços estiveram relacionados aos do milho, valendo historicamente 70% deste. Essa relação hoje é de 85% a 95% e, em alguns períodos do ano, o sorgo passa a valer o equivalente ou até mais que o milho, afirma o consultor.
Custos menores de produção, boas características para o uso em ração, ausência de micotoxinas e maior teor de proteína que o milho levaram as empresas a investir mais em genética e os produtores a melhorar o manejo do solo, obtendo aumento de produtividade.
"O jogo mudou. Imagine um produto que tem preço similar ao do milho, custo menor de produção e possibilidade de novos usos? Esse cenário estimulou toda a cadeia", afirma Aguirre. Era uma cultura renegada, que passa a ter agora altos investimentos, da semente ao manejo, diz ele.
O sorgo é uma cultura com maior tolerância à seca, mas não dispensa os cuidados com o solo e uma adubação mínima. E era o que faltava na produção brasileira. Em período de estresse hídrico, ele "adormece" e resiste mais tempo à seca, voltando ao processo normal quando as condições climáticas melhoram. Um produto ideal para tempos de El Niño, afirma o consultor.
O sorgo começa a ser mais utilizado também na alimentação humana. É um produto que não é transgênico e não contém glúten. A área cultivada no Brasil cresce rapidamente. Segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), o cereal está semeado em 2,2 milhões de hectares no país. Aguirre acredita, porém, que ela já some pelo menos 2,7 milhões e que, em quatro anos, deverá chegar a 5 milhões.
A demanda externa é boa. O acordo de exportação feito com a China amplia as possibilidades do mercado brasileiro. Além do uso no etanol e na ração, o país aposta também na exportação. Um fato novo deverá incrementar a produção. São as microdestilarias de etanol montadas por quatro ou cinco produtores com área de 5.000 a 6.000 hectares de milho e de sorgo. Uma das vantagens é poder colher o produto mais cedo, com umidade maior, e liberar o terreno para o desenvolvimento de capim.
Usina 'flex', capaz de produzir etanol de cana-de-açúcar, de milho e de sorgo, em Campos de Júlio (MT).
Para Aguirre, o sorgo tem rendimento um pouco superior ao do milho na produção de etanol e gera um DDG, um subproduto no processo de fabricação, com mais proteína. Esse grupo de produtores pode utilizar o etanol para a movimentação dentro da propriedade, libera a área de sorgo com capim para o gado e ainda aproveita o DDG na alimentação dos animais.
O custo de produção de um hectare de milho é de R$ 5.000, enquanto o do sorgo fica em R$ 3.500. O rendimento do milho é de 110 sacas por hectare, e o do sorgo, de 90, afirma o consultor.
Após vários anos com produção insignificante, o cultivo ganha nova dinâmica. Na safra deste ano, a produção brasileira sobe para 7,4 milhões de toneladas, segundo a Conab.
Com isso, o Brasil se coloca entre os principais produtores mundiais, podendo ultrapassar em breve os 9 milhões de toneladas dos Estados Unidos (Folha, 15/9/26)

