Brasil já vinha em situação difícil;com tarifaço vai complicar ainda mais
Em vários casos relevantes não há mercado substituto ao americano, como em aviões, suco de laranja e café. Foto Sérgio Castro Estadão
Por José Roberto Mendonça de Barros
Como pano de fundo dessa situação, há uma redefinição da geopolítica global, ainda no seu início; no Brasil, fica difícil construir qualquer cenário antes da confirmação ou não das tarifas de 50%.
É arriscado fazer afirmações contundentes sobre a situação internacional, exceto que a incerteza segue no máximo. E assim deve continuar, pois este é o método Trump. Estamos vendo que a democracia tradicional americana está sob forte ataque. E – inacreditável – parece claro que o país segue celeremente rumo ao sistema iliberal. Finalmente, sabemos também que os Estados Unidos caminham para uma grande crise fiscal, pois o déficit e as dívidas vão crescer muito.
Mas isso tudo não define completamente o cenário. A incerteza, como dissemos, é enorme. Alguns cuidados com conclusões rápidas, como temos visto por aí com frequência. Para começar, a noção de que Trump sempre recua (batizado pelos analistas como “Taco” – Trump Always Chickens Out) pode ser uma boa ironia, mas é enganosa. A tarifa média americana, que era inferior a 3%, caminha para mais de 20%, com vários picos tarifários. Por isso, a inflação vai subir nos próximos meses e a política monetária será pressionada. Não acho que haverá queda de juros neste ano, ao contrário do consenso do mercado.
O dólar já perdeu valor e deverá perder ainda mais. Tudo levando a um aumento da dívida pública e pressão em sua rolagem. A taxa de 5% de juros nos papéis de 30 anos, patamar que sempre enerva o mercado, deverá ser atingida em vários momentos no futuro próximo.
Como pano de fundo dessa situação, há uma redefinição da geopolítica global, ainda no seu início.
No Brasil, fica difícil construir qualquer cenário antes da confirmação ou não das tarifas de 50%. Temo pelo pior.
Mas o que já se pode afirmar é que a eleição de 2026 se tornou muito incerta, dada a recuperação ao menos temporária da popularidade do presidente e a simultânea fragmentação da oposição, que parecia unida e a um passo de escolher seu candidato.
Caso o tarifaço se confirme, as exportações no curto prazo para os Estados Unidos vão sofrer certa descontinuidade. Afinal, embora algumas vendas possam ser redirecionadas a outros mercados, isso não ocorre de imediato. Pior ainda, em vários casos relevantes não há mercado substituto ao americano, como em aviões, suco de laranja e café, para citar apenas três.
A taxa de câmbio deverá então refletir essa situação, pressionando a inflação e desacelerando ainda mais a atividade. Isso também tornará mais incerta a definição do cenário de sucessão presidencial. O Brasil já vinha enfrentando uma situação econômica difícil. O tarifaço, se vier, vai complicar ainda mais as coisas (Estadão, 27/7/25)

