Brasil quebrando: A conta chegou e ninguém escapa – Por Paula Sousa
O Habib's pediu recuperação judicial. Não é uma padaria de esquina, não é uma rede regional. Se até o Habib's está afogado em dívida, o que sobra?
A conta é dura: R$ 265,2 milhões declarados à Justiça de São Paulo, segundo reportagens da Folha de S.Paulo e da Forbes Brasil. O juiz Jomar Juarez Amorim, da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, nomeou a KPMG para administrar o processo. São 178 empresas do grupo dentro do pedido. E o grupo agora tem 60 dias para apresentar um plano de reestruturação, ou o próximo passo é falência.
No processo, a empresa listou os motivos: a pandemia, o crescimento do delivery, e a alta dos juros, conforme apurou o Diário do Nordeste. Só que a Covid foi há seis anos. Delivery o Habib's sempre teve. Sobra um motivo que realmente pesa em qualquer balanço hoje: o custo de rolar dívida com juros nas alturas. Foi a própria empresa que colocou isso no papel, não é interpretação de ninguém.
O grupo não é só Habib's. Também controla o Ragazzo e a churrascaria Tendall Grill, e a recuperação envolve mais de cem lojas próprias, dezenas de franqueadoras e holdings. Do total da dívida, boa parte está em obrigações sem garantia real, o tipo de crédito que fica mais caro justamente quando o juro básico sobe. Ou seja, o remédio que o Banco Central usa contra a inflação é o mesmo que está sufocando quem gera emprego.
E não é só o Habib's. O grupo Casas Bahia já vinha reduzindo sua rede física e anunciou o encerramento de quase 300 lojas em todo o país, conforme apurou o Mais Goiás. Não é um caso isolado, é um padrão se repetindo em cidade após cidade, comércio após comércio.
Por trás de cada loja fechada tem pessoas e suas famílias. O dono que quebrou. O funcionário demitido. O fornecedor que perdeu cliente. O transportador que perdeu frete. Isso não aparece em nenhuma manchete, mas é a cadeia inteira sentindo o mesmo aperto.
Agora vem o número que explica tudo. O Tesouro Nacional confirmou, no Plano Anual de Financiamento divulgado em agosto: a dívida pública federal fechou julho em R$ 9,29 trilhões. E mais grave que o tamanho é a composição: entre 49% e 53% dessa dívida está atrelada à Selic, hoje fixada pelo Banco Central em 14% ao ano. Isso significa uma coisa simples de entender: quanto mais alta a taxa de juros, mais rápido a dívida cresce sozinha, sem o governo Lula gastar um centavo a mais. É juros sobre juros, rodando enquanto você dorme.
O custo médio dessa dívida girou perto de 12% ao ano no período recente. Multiplica isso por trilhões e dá para entender por que só o pagamento de juros já consome uma fatia gigante de tudo que o país arrecada. O dinheiro que deveria virar hospital, escola, estrada, vira pagamento de juros para quem comprou título público. E enquanto isso, o governo segue emitindo mais dívida, porque não sobra outro jeito de fechar as contas do mês.
E por que a Selic está em 14%? Porque o Banco Central precisa segurar a inflação. E por que a inflação não para? Porque Lula e seus “companheiros” gastam mais do que arrecada. Aumentou imposto, sim, aumentou bastante, mas gastou mais rápido do que arrecadou. Quando a conta não fecha, sobram três caminhos, e só três: mais imposto, mais inflação, ou mais juros. O governo está usando os três ao mesmo tempo. Você paga na loja, paga no boleto, paga no financiamento do carro, paga na prestação da casa.
O café é um exemplo real disso. Em 2020 o pacote de 500gr de café custava R$ 8,50 em plena pandemia. Ninguém vai criar um "Bolsa Café" para resolver isso, porque o problema não é falta de programa social. O problema é a máquina que gera a inflação continuar ligada, com juro alto e gasto público fora de controle alimentando um ao outro.
Tem gente que diz que não gosta de política. Tudo bem, é uma escolha legítima. Só que não gostar de política não te tira da política. A dívida pública não pergunta em quem você votou. A taxa de juros não pergunta em quem você votou. A prateleira do mercado não pergunta se você votou. Quem sente o aperto na conta sente igual, tenha votado nulo, branco, ou simplesmente ficado em casa.
Há também um erro de cálculo que precisa ser dito com clareza: tratar Lula e Flávio Bolsonaro como se fossem a mesma coisa. Lula busca a reeleição em outubro. O senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi oficializado candidato pelo partido em julho. Os últimos quatro anos de governo, com todos os números citados acima, são um histórico concreto para avaliar, não uma hipótese. Anular o voto ou ficar em casa por acreditar que "dá tudo no mesmo" ignora justamente esse histórico, que é a única base real para comparar propostas.
Anular o voto, votar em branco ou não votar parece uma forma de se afastar da bagunça. Não é. É simplesmente entregar a decisão para quem for às urnas. Alguém vai escolher por você de qualquer forma. A única pergunta é se esse alguém pensa como você ou não.
E tem outro detalhe que pouca gente calcula: segundo reportagens da Gazeta do Povo e da Folha de Pernambuco, o próximo presidente poderá indicar ao menos quatro novos ministros ao Supremo Tribunal Federal, com as saídas previstas de Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes, além da vaga já aberta pela aposentadoria de Barroso. Isso define regras do jogo por décadas, não só por quatro anos. Não é só sobre quem manda no Planalto amanhã. É sobre que tipo de país vai existir daqui a dez, vinte anos.
Empresa fechando não escolhe cliente político. Inflação não escolhe cor de camisa. Juro alto não escolhe quem votou em quem. Quando a conta aperta de verdade, ela aperta para todo mundo igual: quem apoiou, quem criticou, e quem preferiu ficar de fora.
Antes de decidir anular, votar em branco ou não ir, vale fazer uma pergunta simples: esse crédito que sobrou no fim do mês, essa conta de mercado que veio mais cara, esse aluguel que reajustou acima do esperado, tudo isso vai continuar existindo independente do seu voto. A única variável que muda é se você teve voz na decisão ou não.
O país não quebra sozinho. Quebra loja por loja, conta por conta, decisão por decisão. E quem decide não votar também está decidindo. Só que decide sem escolher rumo nenhum.
Sobre a autora:
Paula Sousa é historiadora, professora com 8 anos de docência nas áreas de Humanas e pós-graduada em Gestão Pública. Com especializações que vão do Processo Legislativo e Finanças à Inteligência Artificial Generativa, é articulista e roteirista focada em geopolítica, história e socioeconomia — com produções para veículos como o Visão Libertária. É também palestrante e membro do Instituto Cultural Voluntários pelo Brasil (28/8/2026)

