Brasília aprova novo regime trabalho e País paga a conta
Câmara dos Deputados aprovou o regime de três dias de trabalho para um de descanso. Foto Divulgação ICL
Por Fabio Gallo
A alteração do regime de trabalho 6×1 é uma das principais pautas do governo neste início de ano, com a proposta de abandonar a jornada de 44 horas semanais. Trata-se de uma discussão importante, mas que, neste momento, assume contornos claramente eleitorais — e, em muitos aspectos, populistas.
Reduzir a jornada de trabalho no Brasil parece, à primeira vista, uma vitória social incontestável: menos dias trabalhados, mais descanso, mais qualidade de vida. O problema é que economias não funcionam por boas intenções, mas por produtividade. Países que trabalham menos horas o fazem porque cada hora rende mais valor.
Para ilustrar: em 2024, o brasileiro trabalhou, em média, 38,9 horas por semana, contra 37,6 horas nos EUA, 35,5 horas na França e cerca de 36 horas na média da União Europeia. Ou seja, no Brasil se trabalha mais do que em economias avançadas — sem apresentar a mesma eficiência.
Em um país onde a produtividade cresce pouco há décadas, encurtar a semana sem redesenhar processos pode significar não mais bem-estar, mas custos maiores, preços mais altos e menos empregos. A discussão sobre jornada não é simplesmente “trabalhar menos ou mais”, mas quanto valor é gerado por hora trabalhada — e como a economia organiza tecnologia, gestão e turnos.
Países com jornadas mais curtas sustentam esse modelo com produtividade elevada, o que permite pagar salários e manter margens mesmo com menos horas. Há, evidentemente, benefícios na redução das horas trabalhadas: menos fadiga, menor adoecimento, maior atração de trabalhadores e possíveis ganhos de produtividade em ambientes bem organizados, sobretudo na indústria com turnos eficientes.
Mas há também contrapartidas claras: em serviços que operam todos os dias, menos horas significa mais escalas, maior custo por unidade e repasse de preços ou estímulo à informalidade. Em artigo recente no Estadão, José Pastore e André Portela foram diretos: reduzir a jornada por decreto, sem transformação estrutural da produtividade, é economicamente arriscado. Mudanças sustentáveis vêm de eficiência, tecnologia e negociação setorial — não de imposições.
Enquanto o País debate como sustentar menos dias de trabalho com produtividade estagnada, a Câmara dos Deputados aprova o regime de três dias de trabalho para um de descanso. O recado é claro: a elite política antecipa para si o conforto que ainda não sabe como financiar para o restante dos trabalhadores.
No Brasil, a folga chegou antes da eficiência — e a conta virá antes da prosperidade. O País não falha por falta de diagnóstico, mas por insistir no atalho: a semana encurta, a produtividade não vem e a oportunidade de mudar de verdade se perde — outra vez (Estadão, 8/2/26)

