19/01/2026

Brasília em chamas: O medo da delação que derruba a república

Brasília em chamas: O medo da delação que derruba a república

Foto Reprodução Blog Flickr

 

Por Paula Sousa

 

Brasília não é para amadores. O clima na capital federal não é apenas de tensão; é de um espetáculo de "salve-se quem puder" regado a café caro e reuniões de emergência que, oficialmente, tratam de "segurança pública", mas que, na prática, buscam desesperadamente um extintor para a fogueira das vaidades (e das provas).

 

O epicentro desse terremoto atende por um nome que faz muito figurão perder o sono: Daniel Vorcaro, o homem forte do Banco Master. A situação escalou de tal forma que o Palácio do Planalto precisou convocar uma reunião que mais parecia uma assembleia de condomínio em chamas. Estavam lá todos os que "importam": o presidente Lula, o ministro Alexandre de Moraes, o ministro Lewandowski, o chefe da PF Andrei Rodrigues, o chefe do Banco Central Gabriel Galípolo, o ministro da Fazenda Fernando Haddad, e até o vice-presidente Geraldo Alckmin. Para completar o time, o marqueteiro Sidônio Palmeira e o ministro Paulo Gonet.

 

O marketing do abismo

 

O que uniu figuras tão distintas, algumas das quais trocavam farpas públicas até ontem? A versão oficial é linda: "ações de Estado contra o crime organizado". Mas, sejamos sinceros, quando o governo começa a usar termos como "combate ao crime organizado" para justificar reuniões de cúpula com o Judiciário, é porque o crime — ou pelo menos a investigação dele — está batendo à porta da cozinha.

 

Lula, em um gesto que muitos leram como o famoso "amarelou", parece ter percebido que o braço de ferro com Alexandre de Moraes estava ficando caro demais. Moraes, por sua vez, não brinca em serviço e já abriu inquéritos para apurar vazamentos no COAF e na Receita Federal — órgãos que, curiosamente, estão sob a influência direta de Galípolo e Haddad. É o xeque-mate institucional: se você vaza contra mim, eu investigo quem você controla. No fim, sentaram-se todos à mesa para uma trégua, pois perceberam que, se o navio afundar, não sobrará bote para ninguém.

 

É aqui que entra o dedo mágico de Sidônio Palmeira. O marqueteiro do PT, presente na reunião, tem a missão infeliz de transformar uma potencial catástrofe de corrupção em uma narrativa heróica. A estratégia é velha conhecida dos brasileiros, remetendo diretamente aos tempos de Dilma Rousseff. Na época do Petrolão e do Mensalão, a narrativa era a mesma: "Estamos combatendo a corrupção doa a quem doer", enquanto o verdadeiro problema estava sentado na cadeira presidencial. Hoje, o Banco Master é o foco de uma grande operação de Estado contra o crime, tentando desvincular as digitais do governo da lambança financeira.

 

A bomba atômica no bolso: Os celulares de Vorcaro e Tanure

 

Se a reunião de emergência foi o sintoma, a causa da doença atende por Operação Compliance Zero. A Polícia Federal, em sua segunda fase, apreendeu 42 celulares. Para o cidadão comum, isso é apenas eletrônico velho; para Brasília, isso é plutônio enriquecido. Entre os aparelhos capturados estão os de João Carlos Mansur, de Zetel (cunhado de Vorcaro) e o do próprio Daniel Vorcaro.

 

Mas o verdadeiro "fim do mundo" mora no celular de outro personagem: Nelson Tanure. Se o aparelho de Vorcaro pode causar um terremoto na República, o de Tanure é descrito como uma bomba atômica. Ele é o homem que conhece os corredores de Brasília como ninguém, que está na "toada" há décadas e que possui conexões que vão muito além da nossa imaginação.

 

O conteúdo desses aparelhos é o que causa pesadelos reais na alta cúpula. Imaginem as conversas de WhatsApp, os áudios e os registros de encontros que agora estão sob o escrutínio da PF. É esse o motivo de o ministro Dias Toffoli ter tentado, de forma quase "amadora", lacrar provas e centralizar tudo sob seu comando. O desespero de quem sabe que o que está ali dentro pode destruir carreiras e famílias é o que move as decisões estapafúrdias que temos visto nos tribunais superiores.

 

A delação que ninguém quer ouvir

 

Como em Brasília nada acontece sem que um passarinho conte a um colunista, o jornalista Lauro Jardim trouxe à tona o que todos temiam: a defesa de Daniel Vorcaro estaria ventilando a possibilidade de uma delação premiada.

 

Claro, a assessoria do Banco Master e os advogados de Vorcaro negaram prontamente através de notas oficiais, afirmando que "não houve tratativa formal ou informal". Mas quem conhece o jogo sabe como a banda toca. O texto de Lauro Jardim funciona como um "recado" público. Vorcaro tentou de tudo: tentou a ajuda de Toffoli, tentou inspeções no TCU para barrar o Banco Central, tentou manter o controle do banco. Agora, com as contas bloqueadas desde dezembro e precisando de "amigos do peito" para pagar as despesas domésticas, ele está encurralado.

 

O recado é claro: "Se eu cair, levo metade da República comigo". E quando ele diz "metade da República", ele não está exagerando. A delação de Vorcaro tem potencial para atingir em cheio o STF (citando nominalmente Moraes e Toffoli em contextos de proximidade), o Palácio do Planalto (com nomes como Rui Costa e os próprios ministros da reunião de emergência) e o Congresso Nacional.

 

É um leilão de silêncio. Vorcaro está jogando um "verde" para ver se alguém em Brasília lhe estende a mão. Caso contrário, ele terá que usar a única arma que lhe restou: a verdade sobre como o Banco Master se tornou esse polvo gigante que abraçou o poder público brasileiro.

 

O cenário de guerra e o "boi de piranha"

 

Diante desse cenário, a cúpula de Brasília parece ter chegado a um consenso macabro. Alguém terá que ser sacrificado. A teoria é de que o nome que surge com mais força nos bastidores é o de Dias Toffoli. O ministro, que já não goza de simpatia nem na direita nem na esquerda, pode ser o "boi de piranha" ideal. Sacrificá-lo em um processo de impeachment ou através de um afastamento estratégico poderia ser a válvula de escape para aliviar a pressão sobre Alexandre de Moraes e o próprio Lula.

 

Normalizar o impeachment de um ministro do STF agora parece ser uma alternativa menos pior do que deixar Vorcaro abrir a boca. É o pragmatismo político levado ao extremo: corta-se um membro para salvar o corpo, mesmo que o corpo já esteja em estágio avançado de putrefação ética.

 

Enquanto isso, a narrativa de "combate ao crime organizado" vai sendo martelada na imprensa. Não duvido que vão tentar jogar mais essa na conta do Bolsonaro. É irônico ver o governo tentando se distanciar do Banco Master enquanto figuras como o novo ministro da Segurança Pública, Eliton Lima e Silva, admitem que o "caso Master" foi o eixo central das discussões. O esforço para desvincular o nome do banco das figuras de Estado é tão grande que chega a ser cômico. É como tentar esconder um elefante em uma sala de estar usando apenas um guardanapo de papel.

 

Conclusão:

 

O resumo da ópera de "brasólia" é uma mistura de pânico, marketing e traição. De um lado, temos um empresário encurralado que sabe demais. De outro, uma cúpula de poder que fará de tudo para que os celulares apreendidos fiquem em silêncio eterno. A união entre Lula e Moraes não é por amor ou por projeto de país; é por sobrevivência pura e simples.

 

A possível delação de Daniel Vorcaro é uma bomba nuclear pairando sobre Brasília. Se ela cair, a explosão atingirá desde o gabinete presidencial até os mármores do Judiciário. Por isso, o conselho informal que circula pelos bastidores é para que Vorcaro tome muito cuidado. Em Brasília, quando alguém ameaça derrubar a República, o clima costuma ficar insalubre. "Não viajar em avião emprestado", "não chegue perto de janelas" e "mantenha os seguranças por perto" são mais do que piadas; são reflexos de uma elite que, quando se sente acuada, é capaz de qualquer coisa para manter as aparências de uma normalidade democrática que já não existe há muito tempo.

 

O desespero tem cheiro de café e som de notificações de celular sendo periciados pela PF. E o Brasil, como sempre, assiste a tudo isso da primeira fila, esperando para ver se, desta vez, o "combate ao crime" será real ou se será apenas mais uma manobra para mudar os donos do balcão de negócios. O fim dessa história promete ser épico, ou trágico, dependendo de qual lado da mesa você está sentado. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 19/1/2026)