25/08/2026

Busca de 4º mandato torna-se a campanha mais cara da história no mundo?

Busca de 4º mandato torna-se a campanha mais cara da história no mundo?

As 3 temporadas de Lula - Imagem IA Copilot

A campanha presidencial mais cara da história no mundo ocorreu nos Estados Unidos em 2024, na disputa entre Kamala Harris e Donald Trump. O processo eleitoral completo ultrapassou US$ 15,9 bilhões (cerca de R$ 90 bilhões) considerando todas as instâncias federais, com a corrida específica à Casa Branca concentrando bilhões de dólares em arrecadação direta e gastos recordes de candidatos individuais.

 

Para entender a dimensão desses valores em comparação global, veja os principais recordes:

 

Maiores Campanhas e Custos Globais

 

  • Eleições dos EUA em 2024: A candidata democrata Kamala Harris angariou mais de US$ 1 bilhão diretamente para sua campanha, enquanto os gastos combinados de publicidade e estrutura entre os dois principais concorrentes superaram marcas históricas anteriores.
  • Eleições dos EUA em 2020: A disputa anterior já havia estabelecido recordes globais com um total de aproximadamente US$ 14 bilhões gastos no ciclo eleitoral geral.
  • Fatores de Custo: A ausência de tetos rígidos de gastos diretos, a longa duração das primárias e o peso financeiro de comitês de ação política (Super PACs) tornam o sistema norte-americano o mais custoso do planeta.

Um panorama visual sobre o custo bilionário e a economia por trás das eleições presidenciais nos Estados Unidos:

 

Na campanha presidencial de 2024, o comitê oficial de Donald Trump gastou cerca de US$ 462 milhões, enquanto sua operação combinada com o Partido Republicano e super PACs aliados ultrapassou a marca de US$ 2 bilhões em arrecadação e investimentos totais para o pleito.

 

Campanhas Anteriores

 

  • 2016: O comitê de Trump investiu cerca de US$ 327 milhões, contando com doações menores e aporte financeiro próprio do candidato em momentos-chave.
  • 2020: Os gastos com o comitê de reeleição e aliados superaram centenas de milhões de dólares, com uso expressivo de recursos direcionados também a comitês conjuntos (IA Google)

 

Gastômetro de Lula mostra que presidente já gastou R$ 278,3 bilhões para tentar reeleição

 

Por Daniel Weterman, Lucas Thaynan e Bruno Ponceano

 

Ferramenta inédita do Estadão acompanha e atualiza os desembolsos em ano eleitoral; Secom disse, em nota, que gastos não são eleitorais, mas, sim, ações indispensáveis.

 

“Papagaiada desgraçada”. Assim o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) definiu a lei eleitoral, ao falar das restrições da legislação em período de campanha durante um discurso no Rio Grande do Norte, em julho.

 

A lei eleitoral proíbe o governante de conceder uma série de benesses nas vésperas da disputa, como fazer doações, pagar emendas parlamentares e participar da inauguração de obras.

 

Mesmo assim, em ano eleitoral, sempre se vê presidentes abrindo os cofres públicos para ampliar programas e gastos à população.

Neste terceiro mandato, os gastos de Lula para se reeleger já somam R$ 278,3 bilhões, conforme o Gastômetro, ferramenta inédita no Estadão que monitora os desembolsos do governo federal em ano eleitoral.

 

Após a publicação da ferramenta, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) enviou nota na qual diz que os gastos não são eleitorais, mas são ações indispensáveis para manter jovens na escola, combater o crime organizado, proteger empregos e empresas, conter pressões sobre preços e enfrentar calamidades em um ano de El Niño forte (leia a íntegra abaixo)

 

Créditos e subvenções

 

A maior parte do gasto se refere a programas de crédito e subsídios para setores da economia e categorias específicas, como motoristas de aplicativo e caminhoneiros, além de isenções e financiamentos para a casa própria.

 

Também há renúncias de receitas, que concedem isenções diminuindo a arrecadação da União, como a isenção e desconto do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 7 mil por mês, benefícios sociais e programas diretos, como o Pé-de-Meia e o Gás do Povo, e despesas com publicidade institucional.

 

No meio de tudo, há iniciativas completamente fora do Orçamento, como modalidades do Desenrola Brasil, programa de alívio para endividados usando recursos de fundos nos quais a União tem participação, e o Luz do Povo, gratuidade de energia elétrica para famílias de menor renda paga pelos outros consumidores.

 

O valor do Gastômetro deve aumentar durante o ano (e a ferramenta vai acompanhar esta evolução), pois há despesas programadas que ainda não foram completamente autorizadas, como a ampliação da subvenção da gasolina e do diesel, e benesses que podem surgir a qualquer momento.

 

Economistas chamam atenção para conta futura

 

Para a economista Selene Nunes, ex-secretária de Fazenda de Goiás e uma das autoras da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), a sucessão de novos programas, subsídios e benefícios reduz ainda mais o espaço fiscal e aumenta o endividamento do governo.

 

“A contabilidade fiscal pode mudar conforme o instrumento escolhido, mas o custo econômico não desaparece. Se o governo concede subsídio, assume risco ou se endivida, alguém paga essa conta — hoje ou no futuro”, afirma.

 

Linhas de financiamento com juros subsidiados, por exemplo, como é o caso dos motoristas de aplicativos e taxistas, geram custo fiscal pela equalização de taxas, pelo custo de oportunidade dos recursos públicos e pela assunção de riscos, lembra a especialista.

 

Segundo ela, as medidas podem estimulam consumo e atividade econômica, “mas não existe almoço grátis”, pois o impulso fiscal é parcialmente neutralizado pelo aumento do prêmio de risco, das expectativas de inflação e das taxas de juros.

 

“Há um problema adicional em ano eleitoral: concentrar estímulos fiscais e creditícios justamente nesse período pode antecipar consumo e atividade, enquanto parte relevante dos custos permanece para os exercícios seguintes. Nesse sentido, as medidas deixam uma fatura para o próximo mandato.”

 

Daniel Couri, consultor de orçamentos do Senado Federal, analisa que o quadro reforça a falta de convicção interna do governo em torno da necessidade de um ajuste fiscal.

 

“Vejo um certo otimismo com 2027, como se algum tipo de ajuste fosse inevitável, mas as chances de uma recessão só aumentam e, quando isso acontecer, como o governo irá se comportar? Não duvido que intensifique os incentivos, dobrando a aposta.”

 

Segundo Couri, o caminho é ajustar as contas, estabilizar o endividamento e abrir espaço apara uma queda estrutural dos juros, mas essa não é a convicção das autoridades no momento. “Ao fim e ao cabo, uma parcela do governo entende que essa não é a solução. E o Congresso estará quase sempre disposto a endossar medidas expansionistas.”

 

Em estudo produzido pelo Insper, os economistas Marcos Mendes e Sergio Firpo contestaram os argumentos do governo sobre a transparência, o uso dos recursos para abatimento da dívida e a eficácia das medidas.

 

“Nenhum desses três pontos se sustenta, e essas operações são basicamente uma forma de contornar os limites das regras fiscais, fazendo-se políticas públicas pela via financeira, sem impactar as contas primárias”, diz o texto.

 

Os especialistas alertam que o pacote gera um endividamento público real, muitas vezes pelo uso de fundos garantidores e bancos estatais, e o retorno do dinheiro para os cofres do Tesouro não é garantido, pois a prática do Executivo tem sido redirecionar o saldo de fundos para alimentar outras medidas.

 

Governo defende medidas e nega uso eleitoral

 

Após a publicação do Gastômetro, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República enviou uma nota ao Estadão argumentado que as medidas não representam gastos com cunho eleitoral, mas são ações essenciais para manter jovens na escola, combater o crime organizado, proteger empregos e empresas, conter pressões sobre preços e enfrentar calamidades em um ano de El Niño forte.

 

Leia a nota na íntegra:

 

“O Governo Federal considera descabida e metodologicamente insustentável a tentativa de apresentar como “gastos para tentar a reeleição” políticas públicas de naturezas, objetivos e fontes de financiamento completamente distintos. O chamado “Gastômetro” transforma em supostas despesas eleitorais ações destinadas a manter jovens na escola, combater o crime organizado, proteger empregos e empresas, conter pressões sobre preços e enfrentar calamidades em um ano de El Niño forte.

 

É insustentável, por exemplo, tratar o Pé-de-Meia, criado em 2024 para combater a evasão escolar, como gasto eleitoral. O Programa Brasil Contra o Crime Organizado aparece como “benefício social”, embora seja uma política de segurança pública contra facções, milícias, tráfico de armas e lavagem de dinheiro. Dos cerca de R$ 11 bilhões associados ao programa, R$ 10 bilhões são linha de crédito para investimentos em segurança, não recursos já desembolsados.

 

Também é indefensável classificar como despesa eleitoral medidas para proteger a economia dos efeitos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos, em um processo que contou com a atuação de setores da oposição brasileira naquele país, e das pressões sobre combustíveis e energia provocadas pela guerra no Oriente Médio e pelas tensões no Estreito de Ormuz. Financiamento a exportadores, apoio ao setor aéreo, garantias ao comércio exterior e medidas sobre combustíveis e GLP buscam preservar empresas, empregos, cadeias produtivas e conter pressões inflacionárias decorrentes desse cenário externo.

 

A lógica do “Gastômetro” levaria à conclusão de que, em ano eleitoral, o governo deveria reduzir investimentos no combate ao crime organizado, na prevenção e resposta a desastres climáticos e na proteção de empresas, empregos e consumidores diante de choques externos para evitar que esses recursos fossem classificados como “gastos para reeleição”. Proteger a população, a economia e o país é obrigação permanente do Estado, não liberalidade eleitoral.

 

É legítimo que a imprensa fiscalize o uso de recursos públicos. O que não é aceitável é tratar a execução regular de políticas públicas como evidência de gasto eleitoral. Governos não deixam de governar em ano de eleição. A legislação estabelece limites claros para esse período, sem suspender o dever do Estado de executar políticas públicas e proteger a população.

 

Atenciosamente, Secom” (Estadão.com, 17/8/26)