Cadeias globais de suprimento do agronegócio enfrentam novos desafios
A China fez da autossuficiência uma política de Estado, o que vai impactar no comércio global. Foto Hector Retamal/AFP
Por Marcos Jank
Num mundo sem regras, a resiliência do Supply Chain do agro vem do comércio aberto, da diversificação de parceiros e rotas, de contratos mais longos, de produtividade e de confiança
Nesta semana participei na Universidade de Harvard de um amplo debate do PAPSAC – grupo que reúne governos, empresas e academia para discutir políticas agroalimentares – sobre um tema que ganhou urgência: como construir resiliência nas cadeias globais de suprimento do agronegócio diante das turbulências atuais.
O ponto de partida é o mundo desgovernado e sem regras em que vivemos. As normas do pós-guerra perderam força, e o protecionismo voltou com tarifaços, cotas, restrições a exportações e barreiras não tarifárias. A segurança alimentar passou a ser tratada como segurança nacional. Eficiência e interdependência cederam espaço à soberania e à segurança. No comércio, o multilateralismo e o regionalismo deram lugar ao bilateralismo e ao unilateralismo.
Dois casos ilustram a mudança. Os Estados Unidos espalharam tarifaços unilaterais pelo mundo, sem qualquer critério razoável, ao mesmo tempo que ampliaram os subsídios compensatórios aos seus produtores. A China fez da autossuficiência uma política de Estado: seus 14º e 15º planos quinquenais buscam reduzir a dependência de importações de soja e carnes por meio da injeção maciça de tecnologia no campo e do menor uso de farelo de soja nas rações animais. A meta é real, mas a execução será lenta.
Somam-se a isso guerras, conflitos e disrupções logísticas que vêm afetando o suprimento de fertilizantes, energia e alimentos, levando países e empresas a diversificar fornecedores ou mesmo relocalizar a produção. E há o clima: eventos extremos elevam a volatilidade de safras e preços. O resultado é inflação nos insumos e nos produtos agroalimentares e, portanto, maior insegurança alimentar no planeta, atingindo sobretudo os mais vulneráveis.
Diante disso, a tentação é fechar fronteiras. Seria um erro. Apenas 20% das calorias consumidas no mundo vêm do comércio. Os outros 80% são abastecidos por produção própria, o que coloca o agro entre as cadeias menos integradas da economia mundial.
Além disso, a população cresce justamente onde a produtividade é baixa: a produtividade total dos fatores agrícolas cresce 2,5% ao ano no Brasil, 1,4% no mundo e apenas 0,4% na África Subsaariana.
É o comércio que preenche as lacunas de insumos e alimentos do planeta. Fechar mercados em nome da soberania e da segurança reduz a resiliência das cadeias globais do agro, em vez de aumentá-la.
A geografia das cadeias também merece atenção. Produtos frescos e refrigerados podem vir de perto, no chamado nearshoring – o comércio com países próximos. Mas as grandes commodities dependem de cadeias longas, complexas e concentradas, em que poucos países dominam cada produto. Nessa área, o novo risco não é a distância, mas sim o friend-shoring – o comércio administrado com países ideologicamente alinhados –, que não responde nem à geografia nem às vantagens comparativas.
A lição é clara: resiliência é ter várias alternativas de fornecedores, clientes e rotas, contratos de abastecimento cobrindo períodos mais longos, seguros e tecnologia, além de eventuais estoques estratégicos. A autossuficiência não é solução. Um sistema aberto e diversificado absorve choques melhor do que um sistema fechado e autárquico.
Do lado da demanda, o crescimento das exportações do agro continua, mas desacelera e muda de endereço. A participação da China no aumento do consumo mundial deve cair de 32% para 13%, enquanto a da Índia e do Sudeste Asiático sobe de 32% para 39%, segundo a OCDE-FAO. Mas não haverá uma “nova China” tão cedo: Índia e África ainda não viveram a urbanização e o salto de renda que criaram a maior classe média emergente do planeta.
O próximo motor do agro talvez não esteja na segurança alimentar, e sim na segurança energética, com os novos produtos, usos e processos da bioenergia.
Levo a Harvard três mensagens. Primeiro, diversificar sem desglobalizar: mais origens, destinos e rotas, não menos comércio. Segundo, resiliência se constrói com produtividade: P&D, biotecnologia, irrigação, infraestrutura e logística. Terceiro, em vez do nearshoring ou do friend-shoring, melhor seria nos posicionarmos pelo trust-shoring: como produtor grande, confiável e competitivo. Num mundo sem regras, o Brasil tem muito a ganhar sendo o fornecedor em quem o mundo confia (Estadão, 4/10/26)

