05/10/2026

Café: Os fundamentos continuam os mesmos – Por Marcelo Fraga Moreira

Café: Os fundamentos continuam os mesmos – Por Marcelo Fraga Moreira

Imagem Divulgação

Comparando apenas o fechamento da semana anterior contra o fechamento dessa sexta-feira o mercado em NY parece ter sido “sem graça”, com uma alta de apenas 1.000 pontos. Fechamento anterior 278,60 centavos de dólar por libra-peso x fechamento atual 288,75 centavos de dólar por libra-peso.

 

Porém tivemos mais uma semana extremamente volátil com o vencimento dez-26 chegando a variar +/- 6.610 pontos entre o fechamento da semana anterior e entre as máximas e mínimas diárias durante os 5 pregões: fechamento anterior 278,60 centavos de dólar por libra-peso. segunda-feira: mínima 277,05 c/lb / máxima 291,50 c/lb; terça-feira: mínima 281,80 c/lb / máxima 293,40; quarta-feira:  mínima 289,05 c/lb / máxima 298,80 c/lb; quinta-feira: mínima 283,30 c/lb / máxima 290,90 c/lb; sexta-feira: mínima 288,10 c/lb / máxima 290,50 c/lb.

 

Em Londres o vencimento nov-26 foi mais comedido. Encerrou a semana anterior a 3.367 US$/tonelada e, mesmo conseguiu por 2x romper a média-móvel dos 200 dias (encerrou a 3.504 US$/tonelada) e a testar a próxima resistência da média-móvel dos 50 dias a 3.576 US$/tonelada encerrou a 3.469 US$/tonelada.

 

O R$ encerrou a 5.2166 R$/US$ e oscilou entre a máxima a 5,17 R$/US$ e a mínima a 5,25 R$/US$ com a volatilidade das eleições. Segunda-feira será mais um dia com grandes expectativas já na abertura do mercado pois o R$ poderá abrir com “gap de alta” ou “gap de baixa” em função do resultado das eleições do final de semana.

 

E NY e Londres deverão responder logo após as 9 hrs (horário Brasil) assim que o mercado local abrir refletindo o resultado das eleições. Lembrar que essas correções entre cotação em US$ não tem correlação direta 1x1 (o famoso “ índice beta”) com a variação da moeda local.

 

Indice Beta: é uma medida estatística que compara a volatilidade dos movimentos de preço de uma ação específica com o mercado geral. De forma simplificada, ele indica quanto o preço de um ativo específico irá se mover em relação aos movimentos do mercado. Um beta de 1.0 indica que o preço do ativo se moverá com o mercado. Um beta menor que 1.0 sugere que o ativo será menos volátil que o mercado, enquanto um beta maior que 1.0 indica que o ativo será mais volátil.

 

Creio que a alta dessa semana em NY e Londres ocorreu em função da “briga” entre os fundos + especuladores comprados x vendidos defendendo suas posições. Pois do lado fundamental nada mudou por enquanto.

 

Entre os dias 27 de agosto e 22 de setembro (quando NY iniciou o movimento de baixa perdendo os 320 centavos de dólar por libra-peso) o vencimento dez-26 chegou a cair -5.000 pontos. Durante esse período o indicador estocástico entrou em posição “sobrevendido”. Nesse período os fundos vendidos voltaram a pressionar o mercado e os fundos comprados continuam fazendo de tudo para defenderem suas posições.

 

Imaginem o desespero dos gestores dos fundos com posição comprada desde o início do mês de julho-26 quando as chuvas começaram a prejudicar a safra brasileira 26/27 levando o mercado dos 240 centavos de dólar por libra-peso até os 342,80 centavos de dólar por libra-peso.

 

Durante esse movimento de “briga” entre os comprados x vendidos, os comprados conseguiram levar o dez-26 novamente a romper a resistência das médias-móveis dos 100 e 200 dias. Notar no gráfico acima que a próxima resistência está a 302,65 centavos de dólar por libra-peso e depois o próximo objetivo poderá ser o fechamento do “gap” nos 320 centavos de dólar por libra-peso. 

 

Porém, notar que nos últimos 3 pregões o mercado continuou brigando para não perder esses suportes nos 287 centavos de dólar por libra-peso. O indicador estocástico voltou a indicar “mercado sobrecomprado”. Então creio que nos próximos dias, se o dez-26 perder esses suportes o mercado voltará a entrar em tendencia de baixa indo buscar – em um primeiro momento – novamente os 267 centavos de dólar por libra-peso e depois os 240 centavos de dólar por libra-peso.

 

Novamente do lado dos fundamentos nada mudou. A safra brasileira 26/27 pode não ter sido “recorde” mas foi grande. Notícias existem e comprovadas que existem armazéns lotados. Muitos produtores ainda segurando café da safra passada e ainda com produto disponível para vender da safra atual.

 

Sabemos que tivemos problemas com qualidade e que café peneira 17/18, café “cereja descascado” terão procura e prêmios sobre as demais qualidades. Porém o Brasil tem disponível pelo menos 80-85 milhões de sacas para abastecer tanto o mercado interno quanto o mercado externo durante os próximos 8 meses (considerando 10 milhões de sacas como estoque de passagem e 73 milhões de sacas a produção da safra atual recém colhida 26/27).

Considerando que o Brasil encerrará a safra 26/27 com o mesmo estoque de passagem em 10 milhões de sacas e um consumo interno em 22 milhões de sacas, então o Brasil poderá exportar e abastecer o mercado mundial com 49-51 milhões de sacas!

 

As chuvas recentes prejudicaram o final da colheita do “café de chão” porém foram muito bem vindas e benéficas para o pegamento da florada da próxima safra do café conilon e favorecendo em muito as condições para a próxima florada e também para o pegamento da florada para a próxima safra do café arábica.

 

O mercado já está de olha na próxima safra brasileira 27/28 – que poderá ser recorde mesmo e superar pela primeira vez as 80 milhões de sacas – e ao mesmo tempo acompanhando de perto o início da colheita no Vietnam (iniciando já agora no mês de outubro).

 

Como mencionado no comentário semanal anterior, nos próximos 3-4 meses o mundo terá acesso a mais 90-95 milhões de sacas das “outras origens” e em mais 6-7 meses o Brasil já estará colhendo mais 20-25 milhões de sacas do café conilon já a partir de abril-maio-27!

 

Ou seja, não existe nesse momento nenhum fator altista para o curto-médio-longo prazo – SALVO ALGUM EVENTO CAMBIAL BASE BRASIL E/OU ALGUM EVENTO CLIMÁTICO SEVERO OCORRER NAS PROXIMAS SEMANAS NAS OUTRAS ORIGENS (AFETANDO A COLHEITA NO VIETNAM / INDONÉSIA / ÁFRICA / AMÉRICA CENTRAL / COLOMBIA / E CLARO, EVENTUAL SECA PREJUDICANDO A PRÓXIMA SAFRA BRASILEIRA 27/28).

 

As exportações brasileiras continuam abastecendo o mercado mundial. Em set-26 o Brasil deverá ter exportado novamente entre 4,00-4,20 milhões de sacas. E nos próximos 3 meses, se repetir o mesmo desempenho que tivemos durante out-dez-24, então o Brasil poderá exportar 4,70 milhões de sacas por mês (lembrando que no último trimestre 24 o Brasil exportou nos meses out-nov-dez-24 respectivamente 5,20 milhões de sacas, 4,90 milhões de sacas e 3,90 milhões de sacas).

 

Também notar que a partir de janeiro-27 as novas regras europeias (as tarifas disfarçadas de “medidas protetivas anti-desmatamento” entrarão em vigor). Desta forma poderemos ter uma aceleração nos embarques durante esse trimestre. Já existem tradings comprando apenas produto que atendam as exigências europeias. Então, poderemos ver também um certo prêmio de curto prazo para produtos “padrão EUDR” e um certo desconto para produtos sem certificação – e isso poderá abrir o diferencial de compra para os “produtos de segunda classe”.

 

Creio que esse rallie de alta precisa ser aproveitado pelo produtor pois, novamente o mercado está dando oportunidade para o produtor vender seu café arábica tipo 6 acima dos 1.700 R$/saca e café conilon novamente próximo dos 1.000 R$/saca tanto no spot quanto para as próximas 2 safras contra os vencimentos set-27 e set-28.

 

Se o Brasil confirmar a safra 26/27 >= 73 milhões de sacas e a próxima safra 27/28 >= 80 milhões de sacas e tudo correr bem nas demais origens, e mantendo o consumo mundial crescendo base os 2% ao ano, então, como já demonstrado, o estoque de segurança mundial continuará sua recomposição podendo ultrapassar 100 milhões de sacas daqui a 4 anos.

Ano Safra Estoque Passagem Mundial Produção Total Brasil Produção Total Mundial Consumo Mundial Total Diferença (Produção – Consumo)
2016/17 34,0 55,0 157,0 155,0 +2,0
2017/18 36,0 60,0 165,0 160,0 +5,0
2018/19 41,0 62,0 170,0 165,0 +5,0
2019/20 46,0 58,0 167,0 168,0 -1,0
2020/21 45,0 63,0 175,0 172,0 +3,0
 
 

Principais países produtores (em milhões de sacas):

País 2016/17 2017/18 2018/19 2019/20 2020/21
Brasil 55 60 62 58 63
Vietnã 27 29 30 29 31
Colômbia 14 14 15 14 15
Indonésia 10 11 11 10 11
Honduras 8 8 9 8 9
Uganda 6 6 7 6 7
México 4 4 4 4 4
Guatemala 4 4 4 4 4
Peru 4 4 4 4 4
Índia 4 4 4 4 4

Produtor: como sempre proteja-se!

 

Faça sua gestão de riscos! Cuidado: Não alavanque sua posição. Proteja-se contra as quedas, contra o “pior cenário” pois o “cisne negro” poderá te pegar no curto-médio prazo

 

PS: As sugestões / eventuais estruturas apresentadas são ilustrativas e não constituem recomendação de investimento; cada operação deve ser calibrada ao custo, fluxo de caixa e apetite de risco de cada produtor / cooperativa / tradings / especulador.

 

 (Marcelo Fraga Moreira é um profissional há mais de 35 anos atuando no mercado de commodities agrícolas, escreve este relatório sobre café semanalmente como colaborador da Archer Consulting; 3/10/26)