Chefe da área de grãos da BRF pede demissão
Em meio às turbulências geradas pela ofensiva de Petros e Previ para tirar o empresário Abilio Diniz do comando da BRF, a companhia de alimentos deve ter uma baixa importante na área de compra de grãos – insumo que responde por cerca de 30% do custo de produção. Ricardo Gouveia, diretor global de suprimentos, pediu demissão, segundo duas fontes ouvidas pelo Valor. O executivo poderá deixar a companhia neste mês.
A saída de Gouveia, que antes da BRF foi o diretor de suprimentos para a América Latina da cervejaria AB Inbev, dá uma medida das dificuldades que a companhia já vinha enfrentando para reter funcionários por causa dos resultados fracos e do clima belicoso entre os sócios.
Segundo fontes ouvidas pelo Valor, o pedido de demissão ocorreu ainda antes da ofensiva dos fundos de pensão vir a público na sexta-feira passada. Com o recrudescimento do clima ruim após o pedido das fundações para destituir o conselho de administração, a situação piorou. "Ninguém mais quer ficar na BRF com essa confusão toda", afirmou uma das fontes.
A empresa vem sofrendo com a constante troca de equipes, e também tem levado muitos meses para preeencher cargos da alta direção devido às divergências dentro do conselho de administração. Desde o ano passado, estão sem titular as vice-presidências de marketing e a de integridade e legal, que cuida dos departamentos jurídica e de relações institucionais.
Na segunda-feira, a companhia também comunicou a renúncia do vice-presidente de operações, Hélio Rubens dos Santos Junior. A saída ocorre após um longo processo de "fritura", conforme uma fonte.
Nos bastidores, a saída do executivo, que goza da confiança do conselheiro Walter Fontana, foi vista como mais um ponto de atrito das famílias fundadoras da Sadia com Abilio Diniz e a nova gestão da BRF, comandada desde dezembro por José Aurélio Drummond Jr. Contudo, outras fontes ouvidas dizem que o executivo teria saído porque não vinha entregando resultados, e os problemas com os estoque seriam dos um exemplos.
No caso de Ricardo Gouveia, a saída estaria mais relacionada às dificuldades de trabalhar em meio ao caos político da empresa do que à insatisfação da atual direção com os resultados. Em teleconferência na sexta-feira passada, o CEO da BRF, José Aurélio Drummond, chegou inclusive a fazer elogios à área de compra de grãos da BRF.
Ao anunciar a intenção de cortar R$ 300 milhões em custos, Drummond afirmou que essa redução viria das compras excluindo os grãos – basicamente, milho e farelo de soja. Em grãos, a gestão seria "bastante adequada", disse ele na ocasião.
Mas a avaliação positiva sobre o trabalho de Gouveia não é consenso. "Fomos de longe a empresa que pior se saiu nessa área", argumentou uma fonte próxima às famílias fundadoras da Sadia. Na avaliação dessa mesma fonte, a BRF tinha na aquisição de grãos uma grande vantagem competitiva que foi "desmantelada" entre 2015 e 2017, durante a gestão Pedro Faria.
Procurada, a BRF não se pronunciou sobre o pedido de demissão de Gouveia. No caso da vice-presidência de operações, vaga depois a saída de Hélio Rubens, a BRF informou que a área foi desmembrada em duas, com Leonardo Dallorto à frente da diretoria geral de indústria e Fabio Stumpf na diretoria geral de agropecuária. Os dois executivos já estavam na BRF, em outras funções.
Com o desmembramento da área, Drummond ganha tempo enquanto o embate entre os sócios da BRF ocorre. Para indicar um novo vice-presidente, o CEO da empresa, que também é alvo de críticas dos fundos de pensão, teria de colocar o nome para apreciação no conselho (Assessoria de Comunicação, 2/3/18)

