Com alta de Cury, Datafolha traz más notícias para Lula – Editorial Folha
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) - Victor Moriyama e Evaristo Sá/The New York Times e AFP
- Vantagem do presidente sobre Flávio Bolsonaro volta à margem de erro em eventual 2º turno
- A pobreza da política brasileira se revela por completo quando se nota que acusações de corrupção são o fator de maior impacto na disputa
A pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (3) confirma duas novidades importantes da campanha: a vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) se dissipou, e o psiquiatra Augusto Cury (Avante) assumiu a terceira posição na preferência dos eleitores.
Lula, com 38% das intenções de voto no primeiro turno, está cinco pontos à frente de Flávio, pouco acima da margem de erro do levantamento. Sinal de que, ao menos por ora, o escândalo Dark Horse, com as conversas sórdidas entre o senador e Daniel Vorcaro, perdeu o impacto de meses atrás.
Num eventual segundo turno entre os dois, a situação soa ainda melhor para Flávio. Embora apareça numericamente atrás do petista, ele agora está a meros dois pontos de distância, 46% a 44%, dentro da margem de erro.
Do ponto de vista de Lula, as más notícias não terminam por aí. O Datafolha também mostra que o governo federal é considerado ótimo ou bom por 31% dos entrevistados, regular por 25% e ruim ou péssimo por 42%, o que significa, nesse último caso, a avaliação negativa mais elevada deste terceiro mandato do petista.
Pior para o presidente, o hiato entre ruim/péssimo e ótimo/bom cresceu a despeito de já ter começado a campanha, um momento em que o incumbente costuma ser favorecido pela possibilidade de exibir suas realizações.
Ao que parece, relembrar os programas de benefícios sociais do governo tem sido insuficiente para superar a desaceleração do PIB e o efeito das suspeitas envolvendo Fábio Luís, o Lulinha.
E há mais. A inesperada ascensão de Augusto Cury na corrida parece ter minado os esforços do presidente para tentar vencer a disputa ainda no primeiro turno, em parte porque o escritor de autoajuda se tornou opção para eleitores que antes figuravam como indecisos ou propensos a votar branco ou nulo.
Com o salto de Cury, que subiu de 2% para 8% das preferências, ganhou corpo o bloco formado pelos candidatos de menor expressão eleitoral: Ronaldo Caiado (PSD), com 4%, Renan Santos (Missão), com 3%, e Romeu Zema (Novo), com 2%, além de Samara (UP), Edmilson Costa (PCB) e Rui Costa Pimenta (PCO) com 1%.
Neste primeiro momento, Cury pode ter conquistado a simpatia de muitos eleitores cansados da polarização entre o PT e a família Bolsonaro, assim como pode ter canalizado o sentimento de antipolítica que sempre grassa na esteira dos grandes escândalos.
As atuações desastradas do psiquiatra nos debates e entrevistas, com total falta de traquejo e de conhecimento, talvez até tenham contribuído para a imagem alternativa que ele pretende criar. Mas, se quer mesmo governar o Brasil, ele deveria ser capaz de demonstrar mais do que isso.
Não só ele, aliás. A pobreza da política brasileira se revela por completo quando se nota que as acusações de fraudes e corrupção são o fator de maior impacto na disputa presidencial (Folha, 6/9/26)

