Confiança: o verdadeiro lastro do crédito - Por Aparecido Mostaço
Quando o tema é confiança e ética, costumo sempre contar uma pequena história. Na Roma antiga, alguns fornecedores de mármore, para esconder trincas e rachaduras, passavam grandes camadas de cera sobre os pilares. Na entrega, tudo parecia perfeito. Mas, quando os primeiros raios solares batiam no mármore, a cera derretia e ficavam à mostra não apenas os defeitos da pedra, mas, o mais grave, os defeitos de caráter de quem havia tentado escondê-lo.
Diante dessas práticas, conta-se que o Senado Romano passou a exigir que as peças fossem entregues sine-cera — sem cera. Daí teria evoluído a palavra “sincero”, associada àquilo que é verdadeiro, transparente, sem disfarces. A sinceridade nasce da ausência de maquiagem, daquilo que resiste à luz.
Essa metáfora atravessou séculos e continua extremamente atual. Em momentos favoráveis, muitos problemas ficam disfarçados. Porém, quando o ambiente se torna mais exigente, quando o “sol” aparece, a realidade surge com clareza. E o mercado, especialmente o crédito, reage rapidamente àquilo que é revelado.
O nosso agronegócio vive hoje um cenário muito desafiador. Juros elevados, seguro rural ainda insuficiente, inadimplência em alta, custos elevados e os conflitos internacionais aumentam a volatilidade e tornam o crédito muito mais seletivo. O financiador passou a olhar além dos números. Avalia comportamento, gestão, governança, transparência e coerência da liderança. Porque, no fundo, crédito sempre foi — e sempre será — sobre confiança.
Neste contexto, de aumento das Recuperações Judiciais e Extrajudiciais, é importante fazer uma distinção clara. A recuperação judicial oportunista sempre será vista como quebra de confiança. Quando utilizada como estratégia sem que todas as alternativas tenham sido esgotadas, ela fragiliza relações e aumenta o risco percebido por todo o sistema.
Por outro lado, a recuperação judicial como recurso legítimo de sobrevivência é protegida pela própria lei. Trata-se de um instrumento importante para preservar empresas viáveis, empregos e cadeias produtivas. A diferença entre uma e outra está na postura e na história construída com credores e parceiros e, principalmente, na transparência e responsabilidade da liderança.
Antes de qualquer medida extrema, todas as opções precisam ser esgotadas. Negociar com transparência, ajustar a operação, vender ativos, alongar compromissos, reorganizar o fluxo de caixa. Esse esforço demonstra respeito às relações e preserva o ativo mais valioso de uma empresa: a confiança.
Hoje, governança não é modismo, passou a ser um termômetro do caráter da empresa. Não é apenas um conjunto de regras. É coerência entre o discurso e a prática. Infelizmente, ainda vemos situações em que se fala uma coisa e se faz outra. Promete-se disciplina e pratica-se improviso. Pede-se confiança enquanto se omitem informações relevantes. Como na história do mármore, a cera pode até esconder por algum tempo, mas o calor do mercado sempre revela a verdade. E a verdade da empresa é a verdade de quem a lidera.
Liderança sem caráter ficará sem nada. Sem confiança, o crédito se fecha, os parceiros se afastam e as alternativas desaparecem. Por outro lado, liderança com caráter terá sempre portas abertas. Mesmo diante das dificuldades, credores escutam, fornecedores apoiam e o mercado ajuda a construir caminhos para que a empresa se levante novamente.
O agronegócio sempre foi construído em relações de longo prazo. Palavra cumprida, transparência e responsabilidade são ativos que não aparecem no balanço, mas fazem toda a diferença quando o ciclo aperta. Em um ambiente mais seletivo, esses valores se tornaram ainda mais decisivos.
Crédito, no fim, é confiança transformada em financiamento. E confiança nasce do caráter da liderança (Aparecido Mostaço, CEO da Energia Humana Consultoria e EHC Capital – 45 anos de atuação no agro. Maratonista disciplinado; 8/4/26)

