Conversa para boi dormir – Editorial O Estado de S.Paulo
A equipe econômica promete um ajuste fiscal em 2027 caso Lula seja reeleito. Óbvia balela. Melhor é acreditar no que disse o coordenador do programa do PT, que defendeu mais gastos.
A equipe econômica do governo quer convencer o mercado financeiro de que um eventual quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva será muito diferente do atual. A promessa, agora, é entregar um ajuste fiscal já no início de 2027, algo que soa como música para investidores preocupados com o desequilíbrio das contas públicas. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, tem ventilado que a proposta é ajustar o limite de despesas do arcabouço fiscal, que permite um aumento de gastos entre 0,6% e 2,5% ao ano em termos reais, para algo entre 1,5% e 2%, no máximo.
Trata-se de uma óbvia tentativa de reduzir os danos causados pelas declarações do ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli, coordenador do programa de governo do PT. Em um brutal surto de sinceridade, Gabrielli ousou colocar em palavras tudo aquilo que o governo realmente pensa e efetivamente faz na seara econômica.
A investidores, Gabrielli disse ser favorável ao controle de capitais e defendeu a continuidade da política de reajuste do salário mínimo como uma maneira de estimular a saída de beneficiários do Bolsa Família. Sugeriu, ainda, mudanças no arcabouço fiscal para permitir que o governo possa ampliar investimentos e gastos sociais.
De efetivo, nada de muito novo ou diferente do que prega o lulopetismo. Mas, paradoxalmente, isso causou mal-estar no partido e no Ministério da Fazenda e rendeu uma bronca a Gabrielli por parte do Palácio do Planalto, segundo noticiou este jornal.
O coordenador da campanha de Lula em São Paulo, o advogado Marco Aurélio de Carvalho, disse que somente Lula tem autoridade para falar sobre seu programa, uma vez que o presidente não tem porta-voz. “O que posso dizer é que nós não daremos um cavalo de pau na economia nem faremos nada pirotécnico”, afirmou.
Ora, se há algo de que a economia brasileira precisa é de um cavalo de pau, ainda que no sentido oposto a que Carvalho se referia. Afinal, desde o momento em que Lula foi eleito, tudo o que ele propôs foram mais gastos. E isso começou antes mesmo de tomar posse, ainda em 2022, com a emenda constitucional da transição, quando a necessidade de recompor o orçamento fictício apresentado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro serviu como pretexto para elevar despesas muito além do justificável.
Tal prática se manteve ao longo de todo o mandato, com o boicote ativo da própria base aliada a toda iniciativa que pudesse trazer mais racionalidade para o Orçamento, e foi deliberadamente acelerada neste ano, quando as pesquisas ainda indicavam empate técnico entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Nem mesmo o período de defeso eleitoral tem sido respeitado, e o governo acaba de anunciar a prorrogação, até o fim de agosto, da segunda etapa do programa de renegociação de dívidas Desenrola.
Chega a ser irônico que Gabrielli tenha sido escolhido como bode expiatório para eximir a equipe econômica da responsabilidade pela completa descrença do mercado financeiro de que Lula fará um ajuste fiscal. O ex-presidente da Petrobras não passa de um influente conselheiro de campanha.
Já os ministros da Fazenda, Dario Durigan, e do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, são autoridades constituídas, e a inconsistência entre o discurso fiscal que sustentam e os atos que referendam têm consequências concretas. Basta observar a trajetória da dívida nos últimos anos para ter a certeza de que o cumprimento da meta fiscal que os ministros tanto alardeiam não teve resultado algum.
O governo, por sinal, nem sequer é obrigado a aumentar os gastos em 2,5% em termos reais. Esse é o teto. Se houvesse vontade política, portanto, o Executivo já poderia ter limitado o crescimento da despesa em 1,5% a 2%. A questão é que Lula não vê nem nunca viu problema em aumentar gastos.
Nada indica que Lula faria algo diferente em um quarto mandato. Logo, se for para acreditar em alguém, convém prestar atenção ao que diz Gabrielli, que ao menos tem a virtude da coerência. O discurso fiscalista da equipe econômica é conversa para boi dormir (Estadão, 2/8/26)

