19/03/2026

Corte de juro do BC vira ninharia diante do arrocho da guerra de Trump

Corte de juro do BC vira ninharia diante do arrocho da guerra de Trump

Imagem Reprodução Blog Mais Retorno

Por Vinicius Torres Freire

 

  • Copom diminui Selic de 15% para 14,75%, mas problema agora está em outra parte
  • Guerra e petróleo, além de risco político, ameaçam ano que até começara mais animado

 

Banco Central baixou a Selic de 15% ao ano para 14,75% nesta quarta (18), como esperado. No texto em que comunicou a decisão, o BC não escreveu novidade notável. Todo mundo sabe da incerteza da guerra. O resto do diagnóstico é o lido em comunicados anteriores: expectativa de inflação alta, desaceleração lenta, mercado de trabalho quente, risco fiscal etc.

Corte de 0,25 já é nada. No meio do tumulto de guerra, menos do que nada. O problema está noutra parte, ora em Hormuz, amanhã na política. O arrocho financeiro aumenta, não importa o que faça o BC.

 

As pessoas que se ocupam dessas coisas, política monetária, ainda quererão saber o que o BC dirá na exposição de motivos da decisão de cortar 0,25, que vai publicar na semana que vem ("Ata do Copom"). A não ser que o pessoal venha a afirmar enormidades, o que não é atitude de BC, meio tanto faz o que vai dizer a ata.

 

Um disparate qualquer de Donald Trump, cada vez mais um perverso incongruente e loucamente balbuciante, um míssil de Israel ou um drone do Irã que acerte uma refinaria do Golfo vão ter mais importância do que o fraseado monetário.

 

Apesar do tamanho da encrenca, o BC cortou. Se cortou agora, em qual contexto deixaria de cortar de novo na próxima reunião, em 29 de abril? Vai ter como aumentar o ritmo de cortes nas demais reuniões? Em 17 de junho e 5 de agosto? Na reunião seguinte, 16 de setembro, a duas semanas do primeiro turno da eleição, faria pausa por cautela maior com a incerteza política?

 

Para resumir, a "janela de cortes" ficou mais estreita: ficou mais difícil cortar em ritmo rápido o bastante para levar a Selic a 12% no final do ano, como se esperava em fevereiro. No Brasil, jamais dá para ter atitude relaxada com choque de oferta, ainda mais com "expectativas desancoradas" de inflação, eleição com diferença pequena e dívida pública de tamanho enorme.

 

No atacadão do mercado de dinheiro, as taxas de juros para quase todos os prazos ainda estão desembestadas. É nesse mercado que se negociam as taxas que definem, por exemplo, o custo que o governo paga para financiar seus déficits e rolar sua dívida (e, assim, são como um piso para o custo do dinheiro na economia inteira).

 

Depois do pânico de sexta (13), o Tesouro Nacional comprou títulos no valor de R$ 49 bilhões, de segunda (16) até esta quarta. Interveio a fim de estabilizar preços, de evitar acidentes e reorganizar o mercado, disfuncional por causa da reviravolta nas taxas de juros (se esperavam baixas, houve altas por causa da guerra, muita gente perdeu dinheiro etc.).

 

Mas quem disse que se tratou apenas rebuliço da reviravolta? O custo do dinheiro vai ficar salgado por um tempo, tanto mais quanto mais durar a guerra e suas destruições no setor de energia, mas não só por isso.

 

"No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê [direção do BC] reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio...", se lê no comunicado.

 

Em resumo, o BC depende de Trump e cia. Além de guerra e o risco de impacto econômico maior, vem um resto de ano político que será empesteado pela nojeira do Master, pela roubança do INSS e pela corrupção com emendas, o que torna mais incerta uma eleição já apertada (Folha, 19/3/26)