31/08/2026

Crédito rural: Por que alienação fiduciária da terra, e não hipoteca?

Crédito rural: Por que alienação fiduciária da terra, e não hipoteca?

João Henrique de Souza Freitas

 

Produtor precisa olhar além dos juros: a garantia escolhida pode colocar no centro da operação o patrimônio construído durante gerações.

 

Falo sobre este assunto em três condições que me aproximam diretamente da realidade de quem está no campo: como secretário municipal da Agricultura de Araraquara, produtor rural e engenheiro agrônomo.

 

E faço um alerta aos produtores que estão buscando crédito para custear a produção, financiar máquinas, investir ou renegociar dívidas:

não analise apenas juros, prazo e parcela. Analise, principalmente, a garantia que está oferecendo.

 

A alienação fiduciária de imóveis vem ocupando espaço relevante nas operações de crédito rural. Segundo divulgação do próprio Banco do Brasil, 70% das operações contratadas em sua carteira de agronegócios na Safra 2025/26 utilizaram alienação fiduciária.

 

O dado demonstra a importância de uma discussão que vai muito além de uma instituição financeira.

 

POR QUE ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA?

 

O banco tem o legítimo direito de exigir garantias para o dinheiro que empresta.

 

A questão é outra: por que colocar a própria terra em alienação fiduciária quando podem existir outras garantias para a operação, inclusive hipoteca?

 

Na hipoteca, o produtor permanece proprietário do imóvel, que fica gravado como garantia.

 

Na alienação fiduciária, a estrutura é diferente: constitui-se propriedade fiduciária em favor do credor para garantir a dívida, permanecendo o produtor, em regra, na posse direta do imóvel enquanto cumpre a obrigação.

 

Em caso de inadimplência, cumpridos os requisitos legais, poderá ocorrer a consolidação da propriedade em nome do credor fiduciário e, posteriormente, a realização do imóvel em leilão.

 

É importante esclarecer que a hipoteca também pode levar à perda do imóvel e, desde alterações legislativas recentes, admite mecanismos extrajudiciais de execução em determinadas situações.

 

Portanto, hipoteca não significa ausência de risco.

 

Mas isso não elimina a pergunta que o produtor deveria fazer antes de contratar: por que alienação fiduciária? Existe outra garantia suficiente e menos gravosa para esta operação?

 

A TERRA NÃO É UM IMÓVEL QUALQUER

 

Para o produtor rural, terra não é apenas patrimônio.

É instrumento de trabalho, fonte de renda e, muitas vezes, resultado do esforço de várias gerações.

Por isso, imagine uma propriedade avaliada em R$ 2 milhões sendo oferecida em garantia de um financiamento de R$ 800 mil.

 

A pergunta não pode ser somente: “Quanto vou pagar por mês?”

Também precisa ser: “Quanto do meu patrimônio estou colocando em risco para conseguir esse crédito?”

 

O produtor deve conhecer o valor atribuído ao imóvel, quais dívidas a garantia efetivamente abrange e se existe possibilidade de oferecer outra garantia compatível com o financiamento.

 

E SE A SAFRA DER ERRADO?

 

No campo, capacidade de pagamento não depende apenas de planejamento.

Existe seca, excesso de chuva, geada, granizo, pragas, queda dos preços, aumento dos fertilizantes, diesel e defensivos.

Uma propriedade economicamente saudável hoje pode enfrentar dificuldades amanhã.

E é justamente por isso que o produtor não pode descobrir a força da garantia somente depois que a safra deu errado.

 

Também considero perigoso contratar pensando: “Se eu não conseguir pagar, depois renegocio.”

 

Existem situações em que as normas do crédito rural asseguram ou permitem prorrogação de obrigações, desde que preenchidos determinados requisitos.

Mas prorrogação, renegociação comercial e programas extraordinários de parcelamento não são a mesma coisa.

 

A simples criação de um programa de renegociação não significa, automaticamente, que toda operação será abrangida, que o banco será obrigado a aderir ou que a execução de uma garantia estará suspensa.

 

Por isso, o produtor não deve colocar sua terra em alienação fiduciária contando com a certeza de que haverá uma renegociação no futuro.

 

O PRODUTOR PRECISA PERGUNTAR ANTES DE ASSINAR

 

Antes de oferecer um imóvel rural como garantia, algumas perguntas são essenciais: É realmente necessária a alienação fiduciária?

O banco aceita hipoteca ou outra garantia? O valor do imóvel é proporcional ao crédito concedido?

A garantia cobre somente esta dívida ou também outras obrigações?

O que acontece se eu não conseguir pagar?

Quais são meus direitos em caso de quebra de safra?

 

Em que momento poderá ocorrer a consolidação da propriedade e o leilão?

Essas respostas precisam ser conhecidas antes da assinatura.

 

NÃO SOU CONTRA O CRÉDITO. SOU A FAVOR DO CRÉDITO RESPONSÁVEL

 

O produtor precisa dos bancos.

Precisa de financiamento para plantar, investir, modernizar a propriedade e continuar produzindo.

E o banco, evidentemente, precisa de segurança para emprestar.

 

Mas essa relação precisa ser equilibrada.

O banco precisa proteger o crédito. O produtor precisa proteger a terra.

Por isso, considero necessário ampliar a discussão sobre a utilização da alienação fiduciária de propriedades rurais e sobre a proporcionalidade das garantias exigidas nas operações de crédito.

 

Se existem diferentes formas de garantir uma dívida, o produtor precisa conhecer as alternativas e compreender por que sua terra está sendo exigida em determinada modalidade.

Meu alerta, como produtor rural, engenheiro agrônomo e secretário municipal da Agricultura, é simples:

 

NÃO ASSINE UMA GARANTIA QUE VOCÊ NÃO ENTENDE

 

Leia o contrato. Peça uma cópia. Confira a matrícula. Pergunte se existe outra garantia possível. Faça as contas considerando também uma safra ruim e procure orientação profissional antes de comprometer um patrimônio relevante.

 

O crédito deve ajudar o produtor a continuar produzindo — e não fazer com que ele descubra, tarde demais, o tamanho do patrimônio que colocou em risco.

 

CRÉDITO É FERRAMENTA PARA PRODUZIR. A TERRA É PATRIMÔNIO PARA PRESERVAR

 

Antes de assinar, entenda a garantia.

E antes de colocar sua terra em alienação fiduciária, pergunte: por que não outra garantia? (João Henrique de Souza Freitas é Secretário Municipal da Agricultura de Araraquara, produtor rural e engenheiro agrônomo; 31/8/26)