Crise dos fertilizantes: A vulnerabilidade que criamos

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Por Tereza Vendramini
Potência global em tecnologia e produção agrícola, Brasil é capaz de colher até três safras por ano com altos índices de produtividade, mas ainda depende da importação de cerca de 80% dos fertilizantes.
O conflito no Oriente Médio avança e ganha novos capítulos. Mesmo com um possível cessar-fogo, a normalização das cadeias de fornecimento poderá levar meses. Portanto, temos claros sinais de que o produtor rural brasileiro vai entrar em uma nova zona de risco, com impacto direto sobre a próxima safra de grãos.
Os custos de produção, especialmente dos fertilizantes, já vinham subindo na contramão dos preços das commodities, e a guerra agravou esse desequilíbrio. A ureia, por exemplo, já acumula alta de 80%. No caso do fósforo, os preços ultrapassaram a marca de US$ 800 por tonelada, considerado o maior nível desde agosto de 2022, segundo levantamento do Rabobank. O banco projeta ainda redução de quase 2 milhões de toneladas nas entregas de fertilizantes em 2026.
Isso significa queda na produtividade, baixa rentabilidade e déficit no caixa do produtor rural. E não se trata de um problema restrito “da porteira para dentro”. O efeito atinge a economia, afeta investimentos, compromete a geração de empregos e, inevitavelmente, chega ao bolso do brasileiro.

Entre 2002 e 2022, produção nacional de fertilizantes caiu 30%, impulsionada pelo fechamento de grandes fábricas de nitrogenados. Foto AlecioAdobe Stock
Um cenário que mostra, mais uma vez, a vulnerabilidade do nosso país. Ao mesmo tempo em que o Brasil se consolida como potência global em tecnologia e produção agrícola, com capacidade de colher até três safras por ano com altos índices de produtividade, ainda dependemos da importação de cerca de 80% dos fertilizantes que usamos.
Chegamos a esse ponto por conta de um processo de desindustrialização do setor de fertilizantes que teve início no fim da década de 1990 e foi se intensificando ao longo dos anos. Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que, entre 2002 e 2022, a produção nacional de fertilizantes caiu 30%, impulsionada pelo fechamento de grandes fábricas de nitrogenados. No caso dos intermediários químicos, insumos essenciais para a produção dos fertilizantes finais, a queda foi de 48% entre 2012 e 2024.
As causas desse movimento de desindustrialização são conhecidas dos empreendedores brasileiros: alta carga tributária, infraestrutura deficiente, excesso de regulação, entraves ambientais e forte competição internacional. Um documento da CNI relembra que, a partir de 1997, a entrada em vigor do Convênio 100 criou uma distorção tributária que favoreceu o fertilizante importado e desestimulou investimentos na produção nacional.
Essa distorção só começou a ser corrigida em 2021, mas ganhou novas camadas. A manutenção do novo regime tributário estava condicionada ao cumprimento de metas de produção nacional, que não se concretizavam por conta da morosidade no
licenciamento ambiental em projetos de mineração.
O que se vê, portanto, é que o excesso de regulação, seja tributária, comercial ou ambiental, é um problema estrutural que atrasa o desenvolvimento. São distorções que desestimulam investimentos no setor e comprometem inclusive o avanço do Programa Nacional de Fertilizantes, criado em 2022 pelo próprio Governo Federal para reduzir a dependência brasileira por fertilizantes até 2050.
Temos tudo para construir essa independência. Jazidas mapeadas, 60 empresas misturadoras com unidades espalhadas pelo território nacional e reservas de matérias-primas como gás natural e rochas fosfáticas e potássicas para a produção de fertilizantes.
No entanto, falta ao Brasil uma direção estratégica e reconhecimento da relevância do agronegócio para todos os brasileiros. O Programa Nacional de Fertilizantes não pode continuar sendo apenas uma intenção; precisa ganhar prioridade, execução e sair do papel. Sem isso, continuaremos reféns, vulneráveis a cada nova crise e desperdiçando uma vocação agrícola que poucos países no mundo têm (Teresa Vendramini é produtora rural; ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira; Estadão, 25/4/26)

