17/09/2026

Crise institucional ameaça reeleição de Lula – Por William Waack

Crise institucional ameaça reeleição de Lula – Por William Waack

Foto Marcelo Camargo-Agência Brasil

A crise do Supremo é expressão de uma crise maior, daquilo que as pessoas chamam de sistema; ou seja, os Três Poderes, o sistema tributário, os vários códigos e regulações.

A crise no STF (Supremo Tribunal Federal) está prejudicando a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reconhecem integrantes da própria campanha.

 

Lula fez o mesmo tipo de admissão. Ao atribuir ao presidente do STF, Edson Fachin, a responsabilidade de evitar que o escândalo Master "atrapalhe as eleições", ou seja, atrapalhe as chances de Lula e favoreça seu principal adversário, entre outros na oposição.

 

A causa desse dano neste momento é bem evidente.

 

A crise do Supremo é expressão de uma crise maior, daquilo que as pessoas chamam de sistema. Ou seja, os Três Poderes, o sistema tributário, os vários códigos e regulações.

 

Isto sempre prejudica o incumbente, no caso Lula.

 

Aliás, atualmente é um fenômeno universal com grande ênfase nos países vizinhos nossos. Para Lula, há dois outros fatores preocupantes do ponto de vista de quem quer ganhar uma eleição muito apertada.

 

É o mau humor de parte significativa do eleitorado em relação ao poder de compra, endividamento e o arraigado temor relativo à segurança pública.

 

A soma desses fatores está aparecendo nas pesquisas e também nas análises das agências especializadas em cenários de risco, que vem reduzindo cautelosa porém consistentemente as probabilidades de vitória do presidente.

 

Nesse caso, como em qualquer eleição, a chave é identificar se o que parece ser uma tendência não é apenas passageiro. É aí que entra a questão da crise no Supremo. Por si só ela talvez não decida a eleição, mas é mais um elemento que se soma a outros.

 

Criando no curtíssimo prazo para Lula uma questão para a qual ainda não parece ter encontrado resposta: como afastar-se sem afastar-se do Supremo, de quem tanto depende? (CNN, 16/9/26)

 




Não há mais espaço para mágicas políticas emanadas do STF – Por William Waack

Flávio Dino, André Mendonça, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Foto Luiz Silveira STF

A crise do Supremo indica algo muito além de qualquer feitiçaria de gabinete em Brasília.

Era autêntica a exasperação de Gilmar Mendes quando chamou de “aprendizes de feiticeiros” seus adversários dentro do STF. Em relação aos quais exibe o pior dos desprezos por parte de alguém que se julga o Grande Feiticeiro, que é o desprezo intelectual. Como assim malandrinhos com ficha corrida, crentes analfabetos em direito e fraquinhos sem pulso se atrevem nas artes da feitiçaria política?

O problema para o Mago é quando acaba virando um mágico de festinha infantil. Com truques previsíveis que funcionam apenas em ambientes restritos. Foi o que aconteceu na sessão extraordinária marcada para decidir o que fazer diante dos fatos que a Polícia Federal extraiu do celular de um vigarista implicando o colega de quadrunvirato Alexandre de Moraes.

O grupo viu como única chance de sobrevivência impedir qualquer decisão. Conseguiu o que queria a um preço altíssimo, que é o agravamento da crise de legitimidade do STF, a fusão dessa crise com uma eleição que o quarteto tenta, mas não consegue até aqui decidir a favor de Lula e, o mais grave de tudo, contribuir para um cenário no qual surgem palavras como anomia e desobediência civil.

A crise do Supremo indica algo muito além de qualquer feitiçaria de gabinete em Brasília. Estamos provavelmente vivendo o fim de um ciclo longo na política brasileira, iniciado no período entre redemocratização e a proclamação da Constituição de 1988. A implosão do STF é ao mesmo tempo causa e consequência de um Executivo débil, um Congresso atomizado e de baixíssima representatividade e com os Três Poderes brigando entre si por migalhas de orçamento.

Ao contrário do que aconteceu na saída do regime militar, não há lideranças capazes de algo remotamente parecido com o significado da palavra espanhola “concertación”, que é conduzir forças opostas a algum tipo de convergência pelo bem comum. Começa pelo próprio Supremo, onde o que havia de “feiticeiros” acabou num grupo de ilusionistas que se acham capazes de convencer o público a não ver o que está vendo.

Ou seja, o STF passou a simbolizar o que as pessoas enxergam de errado, como apropriação das instituições de Estado em benefício próprio, incluindo corrupção. Nem se trata de julgar se essa percepção é “justa” ou “correta”, mas de constatar um fato político e de raízes sociais de enorme alcance e gravidade, pois não há convívio social possível sem um Judiciário forte e com legitimidade.

Fim de um ciclo histórico significa assumir que alguma outra coisa virá, mas não se consegue vislumbrar neste momento exatamente o que. Nem se a sucessão de um modelo evidentemente esgotado por algum outro ocorrerá de forma ordeira. Exatamente o contrário do que pretendem feiticeiros dominados pela arrogância de achar que conduzem os fatos (Estadão, 17/9/26)