12/03/2026

Crise no STF e eleições preocupam governo Lula

Crise no STF e eleições preocupam governo Lula

    poFoto Ricardo Stucker-Presidência da República

Para CEO da consultoria Dharma Politics, Supremo enfrenta desgaste institucional e deveria discutir reformas internas, enquanto decisões do governo podem fortalecer narrativa da oposição na corrida eleitoral.

 

O cientista político Creomar de Souza, CEO da consultoria Dharma Politics e professor da FDC (Fundação Dom Cabral), avalia que o STF (Supremo Tribunal Federal) enfrenta uma crise institucional que exigiria sinais claros de autocrítica por parte da própria Corte. Para ele, uma saída possível seria discutir mudanças internas, inclusive na permanência dos ministros.

 

“Creio que o caminho para o STF seria, em algum sentido, dar sinalizações muito claras de que a Corte não tem problemas em cortar na própria carne, propondo algum tipo de reforma no que diz respeito à permanência dos ministros no próprio colegiado”, afirma.

 

Segundo o analista, a dificuldade de reação institucional está ligada à fragmentação interna entre os magistrados. Na avaliação dele, a dinâmica do Supremo favorece um modelo em que cada ministro atua de forma muito autônoma.

 

“A gente pode identificar de maneira muito visível a divisão de uma Corte que se acostumou a cada um dos seus ministros, em algum sentido, ser o próprio STF, uma dificuldade de rumar na direção de um consenso”, diz.

 

De Souza destaca ainda que o presidente do tribunal exerce papel institucional, mas não possui autoridade hierárquica sobre os demais integrantes. “O presidente do STF não é chefe de nenhum dos outros ministros. Ele é uma figura que faz a representação institucional da Corte perante a sociedade e algumas questões que envolvem o plenário”, explica.

 

Para ele, uma eventual comprovação de envolvimento de ministros em irregularidades, em especial nas investigações do caso do Banco Master, poderia gerar efeitos políticos amplos.

 

“O grande problema que se coloca hoje é o efeito cascata. A eventual comprovação do envolvimento de [Alexandre de] Moraes e de [Dias] Toffoli ou de qualquer ministro coloca por terra uma série de processos que, ao fim do dia, pelo menos do ponto de vista político, são os grandes marcadores dessa prevalência do STF dentro do cenário institucional brasileiro hoje”, ressalta.

 

Disputa presidencial de 2026 

 

Sobre o cenário político e eleitoral, Creomar de Souza avalia que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seus aliados têm motivos para preocupação diante da antecipação do debate eleitoral de 2026. “Eu creio que Lula, assim como seus principais apoiadores, tem motivo para preocupação.” 

 

Ele argumenta que o governo tem enfrentado dificuldades estratégicas em seu processo decisório. “Esse é um governo que, consistentemente, deu provas de que o seu processo decisório tem uma série de ‘curtos-circuitos’, fazendo com que decisões sejam tomadas de maneira equivocada em momentos equivocados”, pontua.

 

Na avaliação do cientista político, alguns episódios recentes contribuíram para fortalecer a narrativa da oposição. Entre os exemplos citados estão decisões econômicas e gestos políticos do governo.

 

Ele cita a ida de Lula à Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, quando foi homenageado pela escola de samba Acadêmicos de Niterói, além de medidas fiscais adotadas pelo Ministério da Fazenda em um momento de insatisfação com a economia, referindo-se ao aumento do imposto de importação sobre mais de mil produtos, incluindo smartphones e equipamentos industriais. Após a repercussão negativa, o governo recuou parcialmente da decisão.

 

“O governo fez nesse início de ano a sua parte para facilitar a vida do principal candidato de oposição [em relação a Flávio Bolsonaro]. Lula, seus assessores e seu time foram fazendo escolhas em algum sentido equivocadas que alimentaram uma percepção do eleitorado de que talvez algo deva mudar”, argumenta.

 

Outro ponto sensível, segundo o CEO da Dharma Politics, é o impacto político de temas relacionados à corrupção, como no caso Master. “Esse me parece ser um elemento em que o governo não conseguiu até aqui encontrar nenhum tipo de estratégia ou instrumento retórico que, efetivamente, dê a oportunidade de dizer: ‘olha, nós não temos relação ou correlação direta com isso’”, aponta.

 

Apesar das dificuldades, o cientista político pondera que o cenário ainda pode mudar, dependendo da reação do governo. “O dilema é saber se essa preocupação se transforma em desespero ou se ela é apenas um elemento que leva a uma correção de rumos na estratégia”, conclui (CNN, 11/3/26)