06/04/2026

Disrupção da oferta de energia e risco de crise agrícola ameaçam o mundo

Disrupção da oferta de energia e risco de crise agrícola ameaçam o mundo

Nos Estados Unidos, alta nos preços do combustível já se reflete na inflação Foto: Frederic J. Brown/AFP

 

Por José Roberto Mendonça de Barros

 

Apesar de tudo, o Brasil tem se saído relativamente bem nesta enorme confusão; o maior indicador disso é o fato de o real ter se valorizado mais um tanto

 

Estamos na quinta semana da guerra, ainda sem perspectivas de um cessar-fogo. Trump faz de tudo, mas nada pensado. Seus auxiliares nada adicionam.

 

Como colocado por muitos observadores, neste momento o Irã tem, por incrível que pareça, a posição estratégica mais forte por controlar de fato o Estreito de Ormuz e ainda apresentar condições de combate, mesmo que enfraquecido. Essa situação não se manterá por muito tempo. Daí porque é razoável imaginar que não será do interesse de ninguém alongar o conflito muito além de dois meses.

 

Entretanto, mesmo nesse cenário, um grande choque na economia mundial já está garantido, tanto pela disrupção da oferta de energia quanto pelo risco de uma crise agrícola global derivada do travamento do tráfego de fertilizantes.

 

É inequívoco que a inflação subirá de forma significativa, especialmente nos Estados Unidos, onde os preços da gasolina e do diesel já se elevaram mais de 40%, ultrapassando respectivamente US$ 4,00 e US$ 5,00 por galão. A política monetária será afetada e o crescimento, consequentemente, será menor.

 

Também entre nós a pressão inflacionária já está instalada.

 

O Brasil está se saindo relativamente bem nesta enorme confusão. O maior indicador disso é o fato de o real ter se valorizado mais um tanto. Os principais analistas do mundo veem com bons olhos um país fora da zona de conflito que é produtor grande e confiável tanto de petróleo quanto de energia alternativa. Nossa vulnerabilidade está na dependência da importação de fertilizantes.

 

Porém, a demanda para o plantio agora está no Hemisfério Norte, o que nos dá dois ou três meses de folga para esperar uma certa normalização no suprimento.

 

Cabem aqui duas observações adicionais. Primeira: no meu entender, a guerra torna a exploração de petróleo na Foz do Amazonas menos, e não mais, atraente, como poderia ser pensado. Digo isso porque, mesmo que a pesquisa seja bem-sucedida, lá só produziremos volumes relevantes por volta de 2035. Ora, como após os choques anteriores, o mundo buscará maior eficiência energética (ponto para a Embraer), acelerando a descarbonização. A atual regressão energética dos EUA não irá alterar essa tendência.

 

Segunda observação: a dependência brasileira do fertilizante importado é real, mas sua redução não depende apenas de vontade política. Não temos gás natural barato, o único “feeder” relevante para produzir nitrogenados em escala e competitivos. E nossas reservas de fósforo e potássio (exceto o projeto Autazes) são limitadas. O único “hedge” aqui é diversificar fornecedores (Estadão, 5/4/26)