Do samba à propaganda: Quando a arte se curva ao panfleto
Imagem Reprodução Blog Toda Matéria
Por: Camilo Calandreli
A crise da poíesis e o avanço do maniqueísmo cultural no Brasil
O Brasil é uma potência cultural. Somos uma civilização miscigenada que produziu música, literatura, arquitetura, teatro e cinema capazes de dialogar com o mundo. O Carnaval do Rio de Janeiro, especialmente os desfiles das Escolas de Samba, tornou-se símbolo dessa força criadora.
As Escolas de Samba nasceram nos morros e subúrbios cariocas no início do século XX. A Deixa Falar, fundada em 1928 no Estácio, foi a primeira agremiação reconhecida. Logo surgiram Mangueira, Portela e tantas outras, consolidando um movimento cultural profundamente enraizado na experiência popular brasileira.
O desfile, que começou na Praça Onze, ganhou monumentalidade com o Sambódromo da Marquês de Sapucaí, inaugurado em 1984 e projetado por Oscar Niemeyer.
Ali, o Brasil apresentava ao mundo não um comício, mas um espetáculo.
Não um palanque, mas uma celebração.
Não propaganda, mas síntese estética da nossa história.
Ou pelo menos era isso que deveria ser.
Quando o enredo vira palanque
Recentemente, assistimos a um desfile cujo enredo transformou-se, na prática, em exaltação política explícita ao presidente Lula. Não se trata aqui de discutir sua trajetória política. O ponto é outro: a instrumentalização da arte para fins partidários.
Quando uma Escola de Samba — expressão legítima da cultura popular — transforma a avenida em vitrine de celebração governamental, ocorre uma distorção grave.
O Carnaval não nasceu como comício.
O Samba não nasceu como panfleto.
A Arte não nasceu para servir a partidos.
Quando o enredo abandona o drama humano e assume tom de propaganda, perde sua universalidade. Torna-se efêmero, datado, subordinado à conjuntura eleitoral.
E arte subordinada não é arte plena — é instrumento.
Arte e Cultura: a distinção que precisa ser compreendida
Por trás dessa crise está uma confusão conceitual profunda que precisa ser enfrentada.
Por que confundir Arte com Cultura favorece a instrumentalização ideológica
Em meio ao debate sobre desfiles, filmes e políticas públicas, há uma confusão conceitual que precisa ser esclarecida de forma objetiva: Arte não é a mesma coisa que Cultura.
A distinção pode parecer acadêmica, mas é essencial para proteger ambas.
O que é cultura?
Dentro com complexo conceito de cultura, podemos defini-la como o conjunto de:
- Tradições
- Costumes
- Valores
- Símbolos
- Festas populares
- Língua
- Memória histórica
Ela é coletiva.
Ela é transmitida de geração em geração.
Ela forma a identidade de um povo.
A cultura é o solo simbólico da nação.
Definindo em uma frase: A Cultura é a comunicação interna do ser para o externo — é quando a alma de um povo se manifesta no mundo por meio de seus símbolos, gestos, ritos e linguagens.
O que é Arte?
Arte é criação.
É quando o artista transforma esse solo cultural em forma estética elevada.
A arte exige:
- Técnica
- Forma
- Intencionalidade
- Elaboração simbólica
Aqui entra o conceito de poíesis, desenvolvido por Aristóteles: o ato criador que traz algo novo à existência.
A cultura é matéria-prima.
A arte é transfiguração.
A cultura mantém.
A arte eleva.
Onde começa o problema?
Quando tudo passa a ser chamado apenas de “expressão cultural”, a arte perde sua autonomia.
Se arte é apenas cultura, e cultura é campo de disputa ideológica, então a arte passa automaticamente a ser vista como instrumento político.
É exatamente nesse ponto que surge a instrumentalização.
Editais deixam de avaliar excelência estética.
Passam a avaliar alinhamento ideológico.
O critério deixa de ser beleza e profundidade.
Passa a ser militância.
A consequência
Quando a arte é reduzida a instrumento ideológico:
Perde universalidade
Perde complexidade
Perde transcendência
Envelhece junto com a conjuntura política
A arte verdadeira questiona.
O panfleto afirma.
A arte revela.
A propaganda direciona.
Por que isso importa para o Brasil?
Uma nação forte precisa:
Cultura sólida para sustentar identidade
Arte livre para elevar o espírito
Misturar as duas favorece:
- Aparelhamento ideológico
- Controle indireto da criação
- Empobrecimento simbólico
- Fragmentação nacional
Separá-las é proteger ambas.
Cultura deve ser preservada.
Arte deve ser livre.
E essa distinção é hoje uma das fronteiras mais importantes da defesa cultural brasileira.
A velha estratégia da instrumentalização cultural
A esquerda intelectual do século XX compreendeu cedo que cultura é campo estratégico de poder. A arte passou a ser vista como ferramenta de formação de consciência política.
No Brasil contemporâneo, essa lógica se manifesta em produções que assumem postura claramente alinhada a narrativas ideológicas específicas.
O filme Marighella, dirigido por Wagner Moura, apresenta o militante comunista como herói épico, reduzindo ambiguidades históricas e simplificando conflitos complexos.
Produções como O Agente Secreto, com Wagner Moura e Ainda Estou Aqui, com Fernanda Torres, inserem-se na tradição do thriller político brasileiro contemporâneo que frequentemente constrói antagonismos morais rígidos, reforçando leitura histórica unilateral, servindo como instrumento de propaganda político ideológica.
O problema não é tratar política.
A arte pode — e deve — tratar do político.
O problema surge quando:
- A narrativa nasce para confirmar tese prévia.
- A complexidade histórica é reduzida.
- O antagonismo é simplificado.
- A estética serve à mensagem partidária.
Quando a obra já nasce com resposta pronta, ela não investiga — ela afirma.
E isso é panfleto sofisticado.
A crítica direta ao desfile de exaltação política
No caso específico do desfile com enredo celebrando Lula, o problema é ainda mais sensível.
Não se trata de personagem histórico distante, cuja trajetória já pode ser interpretada com distanciamento estético.
Trata-se de liderança política ativa, polarizadora, inserida no cenário eleitoral contemporâneo.
Transformar a Sapucaí em extensão simbólica de um projeto político específico não é ato artístico neutro. É tomada de posição institucional dentro de um espetáculo financiado por recursos públicos e patrocinadores que representam toda a sociedade.
Isso rompe o pacto simbólico da arte como espaço de transcendência coletiva.
O Carnaval deve ser síntese da alma brasileira.
Não ferramenta de legitimação governamental.
Uma escolha civilizatória
A questão não é somente Lula, PT, esquerda contra cristãos tidos como “conservadores enlatados”.
A questão é estrutural.
Queremos uma arte livre ou uma arte instrumentalizada?
Se aceitarmos que a Marquês de Sapucaí se torne extensão de campanha política, abrimos precedente para que qualquer governo, de qualquer espectro, utilize a cultura como ferramenta de poder.
A arte brasileira merece mais.
Merece transcendência.
Merece complexidade.
Merece liberdade.
E, sobretudo, merece voltar a ser poíesis — não propaganda.
Sobre o Autor:
Camilo Calandreli é gestor cultural especializado em Gestão Pública e Museologia, ex-Secretário Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura no Governo Bolsonaro, autor de livros como:
- Um Breve Ensaio Sobre a Cultura no Brasil;
- Um Breve Ensaio Sobre a Agricultura no Brasil;
- Os Cinco Atributos do Cristão na Edificação de Uma Nação.
Graduado pela ECA-USP, pós-graduado em Administração e Gestão Pública Cultural (UFRGS), pós-graduação em Gestão Pública, Chefia de Gabinete e Assessoria Parlamentar (PUCRS), Gestão Cultural e Museológica (Universidad Miguel de Cervantes – Sevilla), além de MBA em Política, Estratégia, Defesa e Segurança Pública (ESG/Instituto Venturo) e pós-graduação em Desenvolvimento Nacional, Política e Liderança (ESD). Atuou no Congresso Nacional (2021–2024) no Gabinete da Deputada Federal Carla Zambelli e, desde 2025, é Assessor Parlamentar do Deputado Estadual SP Lucas Bove;18/2/26)

