09/02/2026

É hora de o Brasil ter juízo para ocupar seu papel de protagonista

É hora de o Brasil ter juízo para ocupar seu papel de protagonista

Brasil precisa ocupar o protagonismo global na segurança alimentar. Foto Divulgação

Por Roberto Rodrigues

País precisa investir em tecnologia, logística, infraestrutura, conectividade, crédito, seguro, em acordos comerciais e no cooperativismo para encarar esse desafio

A pandemia do coronavírus teve um reflexo muito importante na questão da segurança alimentar global. Os países que não eram autossuficientes na produção de alimentos para suas populações correram ao mercado mundial em busca de excedentes que cobrissem as suas demandas. Os estoques não eram grandes em função de frustração de safras em vários países produtores, de modo que os preços aumentaram muito em dólares. Em muitos casos, dobraram, gerando uma inflação generalizada.

Alguns poucos países que tinham condições de aumentar rapidamente sua produção agrícola e a respectiva oferta de alimentos trataram de plantar áreas maiores, colheram safras mais abundantes e em pouco tempo equilibraram a oferta com a demanda, e os preços voltaram aos patamares normais.

O Brasil foi um destes países que reagiram com rapidez, e a oferta foi normalizada.

Colheita de feijão na Fazenda Primavera, em Sorriso (MT). Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Parecia então que as coisas tinham entrado nos eixos. Mas a perda de protagonismo das organizações multilaterais (OMC, FAO, OMS, a própria ONU), as muitas guerras que se seguiram acabaram trazendo de volta preocupações com custos e suprimento de insumos, e com a lógica comercial; somaram-se a este cenário as intervenções do governo norte-americano nos mercados, e isso trouxe de volta o fantasma da segurança alimentar, agora potencializado pelas questões climáticas, pelo tema da transição energética e sua interferência no setor rural.

Por essas razões, na COP-30 realizada em novembro passado em Belém do Pará, a agropecuária ocupou um espaço muito mais relevante do que em todas as COPs anteriores, ficando clara a importância do agro tropical liderado pelo Brasil no palco global do suprimento de alimentos, energia e fibras.

E agora o Brasil precisa ter consciência do seu papel verdadeiramente fundamental como grande protagonista deste período de ajustes internacionais.

E precisa cuidar de temas essenciais para cumprir este papel com dignidade. Precisa investir em tecnologia e inovação, alavanca para todo o resto e sobretudo para a sustentabilidade produtiva.

Mas tem de investir em logística, infraestrutura, conectividade, em crédito e seguro compatíveis com este cenário desafiante, em acordos comerciais com países populosos, em cooperativismo que traga ao processo produtores de todos os tamanhos, em segurança jurídica e institucional, em agregação de valor com uma indústria de alimentos poderosa, e em respeito à atividade produtiva.

Tem de haver uma estratégia adequada ao tamanho do desafio, sem a estupidez da radicalização ideológica. É hora de ter juízo para ocupar um espaço inédito na história universal (Roberto Rodrigues é ex-ministro da Agricultura e professor emérito da Fundação Getúlio Vargas; Estadão, 8/2/26)