05/10/2026

É o fim da era do PT, diz Flávio após terminar 1º turno na frente de Lula

É o fim da era do PT, diz Flávio após terminar 1º turno na frente de Lula

Fotos de Daniel Ramalho-AFP, Alexandre Meneghini-REUTERS

·         Senador afirma que mandato em disputa é importante por indicações ao STF

·         O Datafolha projetou que haveria 2º turno pouco depois das 19h

O candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, afirmou em seu pronunciamento após terminar o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 à frente de Lula (PT) que o resultado representa o "fim da era do PT".

A disputa vai ao segundo turno, que acontece no próximo dia 25 de outubro.

Flávio também disse não estar preocupado com a perpetuação no poder e reafirmou compromisso com o fim da reeleição. Ele disse só precisar "de um mandato".

O senador afirmou que as quatro indicações de nomes ao STF (Supremo Tribunal Federal) mostram importância do mandato em disputa nas eleições de 2026. Ele criticou medidas de caráter eleitoral tomadas por Lula às vésperas da eleição.

"O Lula já diputou sete eleições presidenciais. Ele está preocupado com o poder. Eu estou preocupado com o futuro do Brasil", disse.

Flávio se pronunciou após sua liderança ser confirmada numericamente. Ele discursou no QG da sua campanha, localizado no Lago Sul, em Brasília.

O Datafolha projetou a ida dos candidatos ao segundo turno pouco depois das 19h. A eleição ficou matematicamente definida por volta das 21h, quando a Justiça Eleitoral confirmou que disputa teria uma segunda etapa para os dois candidatos mais votados.

Na véspera, Lula estava numericamente à frente, com 45% dos votos válidos no Datafolha e 46% na Quaest, ante 42% e 45% de Flávio, em empate técnico. Nas urnas, o senador terminou em primeiro (Folha, 5/10/26)

 



Erros em sequência e onda bolsonarista emparedam Lula

Flavio Bolsonar- foto Reuters

·         Ultrapassagem de Flávio e desempenho de seus aliados projetam dificuldades enormes para o presidente

·         PT sofre derrota nacional maiúscula e, mesmo que retenha o Planalto, viverá cenário de pressão contínua

A cavalgada dos bolsonaristas no primeiro turno das eleições gerais neste domingo (4) é um evento político de ampla repercussão. Pelo avanço das forças de Flávio Bolsonaro (PL) e por seus próprios erros, o presidente Lula (PT) vai para a segunda rodada emparedado.

Se havia o temor entre petistas de que um empate ou uma superioridade mais leve do filho de Jair Bolsonaro no primeiro turno tornaria o tira-teima difícil, a situação do presidente tornou-se dramática, ainda que não irreversível.

Em seu favor, há a possibilidade de que a migração dos nanicos à direita que desidrataram no dia do pleito tenha chegado ao limite. Mas é incerto de onde Lula poderá tirar votos, salvo intercorrências imprevisíveis. A aposta sugerida em sua primeira fala é a comparação de biografias, algo insondável.

O resultado é surpreendente quando se observa a curva das intenções de voto da campanha anódina, marcada pela contaminação do caso Banco Master no Judiciário —e não, como seria racional supor, na candidatura de Flávio, enrolado com Daniel Vorcaro.

Mas o movimento bolsonarista já se insinuava no ocaso da corrida, como o Datafolha da véspera indicava. Ele engoliu não só boa parte da esquerda, mas a própria direita mais moderada.

E Lula, acima de tudo, perdeu a liderança para si mesmo. Sua campanha foi pontuada por três defesas:

1 - Democracia. Lula aproveitou a balbúrdia bolsonarista do 8 de Janeiro para tomar a bandeira democrática para si. Deu certo por um tempo, mas a partir de meados de 2023 o petista só contava com a bancada de Alexandre de Moraes do Supremo. O preço foi conhecido neste ano.

2 - Soberania. Donald Trump deu ao presidente um presente com seu tarifaço e punições de 2025. Ele pôde assumir a defesa do interesse nacional, faturou em avaliação e ainda dobrou o americano. Embora não tenha havido um ataque frontal como o Planalto temia, a tática não colou eleitoralmente.

3 - Números frios. O lulismo reclama da falta de reconhecimento acerca de bons indicadores da economia, mas esqueceu do contexto. Se o desemprego está em baixa, basta andar por uma grande cidade para ver onde estão os postos de trabalho. A inflação pode estar sob controle, mas o endividamento de famílias tolheu qualquer sensação de bem-estar.

Talvez entorpecido pela segurança que a aliança com o Supremo lhe dava junto ao Congresso à direita, o governo passou quatro anos vendo o PL, o centrão e o PSD construírem máquinas eleitorais visando o controle de emendas parlamentares.

Lula ficou com palanques e bancadas potenciais fracos. Tudo isso trouxe uma capilaridade de discurso antipetista que nem mesmo o carisma do presidente teve como conter, mesmo com um arsenal de emergência com proibição de bets, fim da escala 6x1 e reajuste do Bolsa Família.

De seu lado, Flávio adotou o figurino teflon. Candidato com o maior passivo judicial na disputa, ele passou meses quase sem ter de se expor —a ausência do debate, uma opção também de Lula, só ajudou.

Quando os questionamentos vieram, era tarde, e a dissolução da realidade na vida digital facilitou sua vida: qualquer investigação da PF vira perseguição, dúvida sobre medalha para miliciano, detalhe.

Não é diferente do que ocorreu com o maior ícone do bolsonarismo, Trump, eleito apesar de uma condenação criminal. Para ficar no exemplo americano, Lula acabou encarnando o Joe Biden que todos os petistas menos deslumbrados temiam: um candidato gasto.

Agora, o político brasileiro mais importante do século 21 no país terá de encarar o risco de acabar a carreira em derrota. Ou uma vitória de Pirro, com a estrutura política do país dominada por adversários, para não falar nas eventuais pressões vindas dos EUA.

Já Flávio contará com o sentimento de virada, que muitas vezes define eleições. Isso irá atrair apoios antes inauditos. Ele nunca foi a escolha do condomínio da centro-direita sequestrado pela vanguarda bolsonarista, mas isso tenderá a mudar.

Se vencer ao fim, contudo, terá de conviver com um ecossistema de aliados com intenções bastante próprias, como o governador reeleito com folga em São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Um eventual triunfo será apenas o começo (Folha, 5/10/26)



Flávio e a direita mostram força nas urnas – Editorial Folha de S.Paulo 

·         O campo conservador obteve outras vitórias importantes, a começar pelos governos de São Paulo e Minas

·         A despeito do despreparo e das ligações com milicianos e Vorcaro, bolsonarista obtém mais votos que Lula; PL avança nos estados e no Congresso

Depois de passar quase toda a campanha em segundo lugar na grande maioria das pesquisas eleitorais, Flávio Bolsonaro (PL) conquistou 47% dos votos válidos no primeiro turno, à frente dos 45% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e não muito distante da maioria necessária para encerrar a disputa presidencial neste domingo (4).

Não se pode falar em surpresa. Nos últimos pleitos, o bolsonarismo mostrou mais força nas urnas do que nas sondagens de intenções, seja devido a eleitores que não declaravam abertamente suas preferências, ao voto útil antipetista ou a maiores taxas de abstenção no campo adversário.

O feito é particularmente notável porque a candidatura de Flávio mal foi levada a sério quando lançada por seu pai. Trata-se, afinal, de um político não apenas sem brilho próprio, dependente do sobrenome, mas também despreparado e, se não bastasse, com longo histórico de ligações com personagens das milícias do Rio —e, mais recentemente, com o corruptor Daniel Vorcaro.

O patriarca da família foi corretamente condenado por tentativa de golpe de Estado, e o indulto prometido pelo filho será uma afronta à democracia. Com tais credenciais, Flávio não conseguiu apoio de nenhum outro partido.

Seu PL, legenda secundária no país até abrigar o bolsonarismo, ampliou seu poderio nacional. Garantiu já no primeiro turno os governos dos três estados do Sul, de Roraima e Rondônia; estará no segundo turno no Rio e no Amazonas. Michelle e Carlos Bolsonaro conquistaram mandatos no Senado, para o qual a sigla teve votação avassaladora.

A direita obteve outras vitórias importantes, a começar pelos governos de São Paulo e Minas, os dois maiores colégios eleitorais, assegurados pelo Republicanos. Nos dois estados, postulantes conservadores conseguiram 3 das 4 vagas de senador.

O PT de Lula, por ora, se mantém restrito ao Nordeste, preservando Bahia, Ceará e Piauí. Disputará o segundo turno no Distrito Federal e no Rio Grande do Norte. Ex-ministras de Lula, Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), foram derrotadas na disputa paulista pelo Senado.

O presidente da República terá uma tarefa difícil na segunda rodada do pleito —até hoje, nunca o segundo colocado no primeiro turno conseguiu vencer a eleição presidencial. Os demais postulantes da corrida ao Planalto reúnem mais votos conservadores, que tendem a migrar para Flávio.

Cartuchos importantes já foram queimados, como a ampliação da isenção do Imposto de Renda, o reajuste do Bolsa Família e a proibição das bets, sem resultados palpáveis. A próxima empreitada será a votação do fim da escala de trabalho 6x1.

Desde a recessão catastrófica produzida por Dilma Rousseff (PT) e a ascensão da direita populista, o discurso econômico e social do partido tem menos apelo —ainda mais quando os juros resultantes de sua política gastadora sufocam as famílias (Folha, 5/10/26)